O cacoete populista na fala de Lula sobre os evangélicos

O presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) tem razão ao querer conquistar os evangélicos para sua tentativa de reeleição neste ano. Essa heterogênea fatia da população não morre de amores pelo petista. Mesmo com todo o esforço de marketing e de articulação social dispensado nos últimos três anos de governo, a desaprovação da gestão de Lula entre os evangélicos, que já são um em cada quatro brasileiros com mais de 10 anos de idade, só cresceu.
Mas o que significa “conquistar” esse público? Quando fala sobre o assunto, Lula dá a entender que acredita em uma estratégia de convencimento. Essa foi a mensagem contida em um trecho de seu discurso em uma festa do PT, em Salvador (BA), neste sábado, dia 7. Ao conclamar a militância a ir até as periferias, ele disse que “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo” e que é preciso conversar com eles sobre isso, em vez de ficar esperando que falem bem da gestão petista.
Lula gosta de simplificar as coisas, o que muitas vezes gera erros ou ruídos. Para começar, a não ser que o Ministério do Desenvolvimento disponha de números muito surpreendentes ainda não divulgados, a afirmação de que nove em cada dez evangélicos estão em programas sociais não condiz com dados demográficos sobre a renda desse grupo religioso. Ainda que fosse verdade, é um cacoete populista acreditar que receber ajuda do Estado seja um argumento infalível para garantir o voto de um cidadão. O PT não tem o monopólio dos programas sociais, e quem os recebe costuma ter duas certezas: a primeira é que os benefícios se tornaram políticas de Estado (dificilmente serão encerrados por novos governos); a segunda é não querer depender deles para sempre.
Por isso, enviar militantes para as periferias com a missão de atribuir a Lula o crédito pelos benefícios sociais não apenas pode ser inócuo para o esforço de convencimento do eleitorado evangélico, como também não aborda o ponto central da rejeição ao presidente e ao PT: a percepção de valores incompatíveis. Quando se fala em conquistar corações e mentes, trata-se de obter apoio emocional tanto quanto racional. Lula mira as mentes evangélicas com um arsenal pífio e parece não saber como alcançar seus corações.
Se o presidente não tem uma boa resposta para esse desafio eleitoral, não é por falta de pesquisas ou cartilhas feitas por seu próprio partido e por organizações de esquerda com o intuito de orientar o “trabalho de base” na aproximação com os evangélicos. Uma abordagem equivocada (forçada ou eleitoreira demais) pode acabar tendo o efeito oposto.
