Tebet candidata em São Paulo? Dificuldade histórica da esquerda e voto ‘Lularcísio’ explicam a ideia
A ideia de lançar Simone Tebet (MDB) ao governo paulista está lastreada na dificuldade histórica do PT no Estado e na necessidade de Lula ter um palanque forte em São Paulo, capaz de levar a disputa contra Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao segundo turno. O contexto político e o histórico eleitoral mostram que não será tarefa fácil: o PT nunca venceu em São Paulo e só chegou ao segundo turno duas vezes — em 2002, com José Genoino, e em 2022, com Haddad.
A ministra do Planejamento já sinalizou que aceita transferir o domicílio eleitoral de Mato Grosso do Sul para São Paulo e disputar o Palácio dos Bandeirantes. Ainda assim, setores do PT seguem trabalhando para que Haddad seja candidato ao governo e Tebet dispute o Senado.
São Paulo concentra o maior colégio eleitoral do país, com 33,6 milhões de eleitores, e é prioridade tanto para a esquerda quanto para a direita. Não por acaso, em 2022, estrategistas do então candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) calcularam quantos votos seriam necessários no Estado para compensar a vantagem de Lula no Nordeste.

A meta do PT este ano é pelo menos repetir o desempenho que Haddad teve em 2022, quando somou 35,7% dos votos no primeiro turno e 44,73% no segundo. A direita, por sua vez, aposta que Tarcísio pode liquidar a disputa ainda no primeiro turno, cenário que seria prejudicial ao PT, pois deixaria o governador livre para apoiar um candidato contra Lula no segundo turno.
Historicamente, o PT tende a perder no voto presidencial em São Paulo. A exceção foi 2002, na primeira vitória de Lula, quando ele superou José Serra. Para o partido, no entanto, o objetivo central não é vencer, mas impedir que a oposição abra larga vantagem. Em 2022, Lula ficou cerca de dez pontos percentuais atrás de Bolsonaro em São Paulo no segundo turno. Na avaliação das duas campanhas, essa diferença regional foi decisiva para garantir a apertadíssima vitória nacional do PT. Já em 2018, a distância entre Haddad e Bolsonaro no segundo turno em São Paulo foi bem maior: cerca de 35 pontos percentuais.
Embora o PT espere que Haddad repita o desempenho de 2022, o cenário atual traz diferenças relevantes que pesam contra a esquerda. Tarcísio agora é governador e mantém índices de aprovação na casa dos 60%. Além disso, não precisa mais enfrentar a barreira do desconhecimento e, até agora, não há outro adversário competitivo em seu campo. Em 2022, o então governador tucano Rodrigo Garcia disputava o eleitorado de direita com Tarcísio, o que fragmentou os votos da eleição e favoreceu Haddad.
“O desafio do PT nas eleições de São Paulo é montar uma chapa capaz de superar a rejeição histórica do partido no estado e seu teto de votos”, diz o estrategista e consultor Felipe Soutello, que atuou em diversas campanhas vitoriosas do PSDB no Estado de São Paulo.
Hoje, parte dos petistas avalia que pode haver inclusive um voto “Lularcísio” no Estado — com paulistas votando em Lula para presidente e em Tarcísio para governador. Uma pesquisa do Instituto Travessia feita em dezembro do ano passado – e, por esse motivo, não registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – mostra que isso é possível: entre os eleitores que aprovam o governo Lula, 30,4% também avaliam positivamente a gestão de Tarcísio em São Paulo. Já entre os que aprovam o governador paulista, 20% fazem uma avaliação favorável do presidente.
“A pesquisa mostra que há uma sobreposição entre os dois eleitorados e que Tarcísio pode surfar nos votos de Lula”, afirma Renato Dorgan, especialista em pesquisas eleitorais e CEO do Travessia.
Pesquisas mostram Tebet competitiva, mas PT prefere Haddad
Pesquisas internas encomendadas por aliados de Tebet indicam que a ministra pode ser um “fator surpresa” na disputa paulista, dificultando a reeleição de Tarcísio, principalmente por seu perfil mais ao centro e pelo ineditismo de uma mulher no comando do Estado. Um aliado de Tarcísio avalia que Tebet seria uma adversária mais difícil de enfrentar do que Haddad ou o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que já governou São Paulo quatro vezes.
No PT paulista, a candidatura de Tebet não encontra resistência, mas a preferência segue sendo Haddad, sobretudo entre integrantes da direção nacional. Os defensores do ministro lembram que ele teve o melhor desempenho do partido na disputa estadual e é quem teria mais condições de defender o governo Lula no Estado.
Desde que o segundo turno passou a ser possível, São Paulo teve nove disputas, e o PT só chegou à etapa final em duas delas, com Haddad e Genoino. Haddad teve 35,7% no primeiro turno e 44,73% no segundo; Genoino obteve 32,45% e 41,36%.
Nos últimos vinte anos, três das cinco eleições para o governo paulista foram decididas em turno único: José Serra, em 2006, e Geraldo Alckmin, em 2010 e 2014. Houve segundo turno em 2018, quando João Doria disputou contra o hoje ministro Márcio França (PSB), e em 2022, na eleição vencida por Tarcísio.
O Estadão ouviu oito petistas sobre o tema, entre dirigentes da executiva nacional e do diretório paulista. Todos dizem que a decisão caberá a Lula, que tem sinalizado preferência pelo ministro da Fazenda. Embora Haddad resista à candidatura, a avaliação interna é de que ele pode acabar cedendo. Tebet, por sua vez, disse em coletiva de imprensa que se colocou à disposição de Lula.
Para Dorgan, Haddad seria uma “escolha segura” para o PT, garantindo bom desempenho, embora sem eliminar o risco de Tarcísio vencer no primeiro turno. Tebet, por sua vez, seria uma aposta que poderia dar certo, e ser uma grata surpresa, ou não decolar.
“Haddad, sem dúvida, é a alternativa mais segura. Mas é uma missão que ele estará cumprindo, pois é praticamente impossível ele vencer Tarcísio. Ele corre o risco de perder ainda no primeiro turno”, diz o especialista.
Para Dorgan, há outro agravante para o PT: a falta de prefeituras no Estado. Na última eleição municipal, o partido registrou seu pior desempenho histórico em São Paulo, conquistando o comando de apenas quatro prefeituras — Mauá, Matão, Santa Lúcia e Lucianópolis. Juntas, essas cidades concentram 1,1% da população paulista.
“No passado, o PT teve força em cidades da Grande São Paulo e em outros municípios importantes do Estado, como São José dos Campos, Ribeirão Preto, Campinas, Araraquara e Santos. Inclusive, em 2002, quando Lula venceu em São Paulo e Genoino chegou ao segundo turno na disputa pelo governo, a capital era governada por Marta Suplicy. Mas o partido perdeu quase todas essas prefeituras nos últimos anos.”
