Banco regional, BRB abriu 88 unidades em 7 Estados e impôs sigilo em gastos; PF apura caso Master
Alvo da Polícia Federal (PF) por suposta gestão temerária na tentativa de comprar o Banco Master, o Banco de Brasília (BRB) mudou sua política de investimentos sob o governador Ibaneis Rocha (MDB) e passou a assumir gastos questionáveis em relação ao escopo do banco estatal, antes focado na folha de pagamento do funcionalismo público local. Apesar de ser um banco regional, desde 2020 o BRB abriu 88 unidades em sete Estados.
Essas unidades são agências, postos de atendimento e unidades de relacionamento, para dar conta da gestão de contracheques dos três Poderes em Estados e municípios, além de parcerias institucionais.
O banco impôs sigilo aos gastos com esses escritórios. Alegou que as despesas são “informações de natureza estratégica, comercial e concorrencial, cuja divulgação poderia comprometer a competitividade da instituição no mercado financeiro”.
Procurada, a empresa não respondeu. Por meio da Lei de Acesso à Informação, o banco afirmou à Coluna do Estadão que os projetos buscam “fortalecer a presença do banco em diferentes regiões do País”, e que a companhia observa “critérios de viabilidade econômico-financeira e sustentabilidade das operações”.
O governo do Distrito Federal afirmou que “o BRB tem solidez e irá vender seus ativos para regularizar a liquidez. E, para além disso, o GDF estará atuando também com medidas para ajustar a questão do capital do banco”.
Especialistas ouvidos pelo Estadão apontam que o BRB será obrigado a diminuir de tamanho ou receber um aporte maior do governo do Distrito Federal, que enfrenta dificuldades no Orçamento, para superar as perdas com o caso Master.
Como mostrou a Coluna, o banco estatal aumentou em 14 vezes o gasto com eventos e outros apoios comerciais durante a gestão Ibaneis. Em 2025, reservou R$ 125,8 milhões de gastos para esta rubrica. No ano passado, o BRB bancou de congresso de procuradores a show do cantor Roberto Carlos na Paraíba.
Entre 2020 e 2025, o BRB abriu unidades fora do Distrito Federal para prestar serviços de folha de pagamento a dois tribunais, um governo estadual, quatro prefeituras e uma Câmara municipal. Uma das prefeituras é de João Pessoa, que fica a 2,2 mil quilômetros da capital federal. Veja a lista:
Serviços de folha salarial do Banco de Brasília fora de Brasília
- Tribunal de Justiça da Paraíba;
- Tribunal de Justiça de Alagoas;
- Governo do Tocantins;
- Prefeitura de João Pessoa;
- Câmara Municipal de João Pessoa;
- Prefeitura de Maceió;
- Prefeitura de Porto Nacional (TO);
- Prefeitura de Conde (PB).

Além da folha de pagamento, o banco estatal presta serviços de depósitos judiciais aos tribunais estaduais de Maranhão, Bahia e Paraíba. O Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região, no Paraná, tem um “convênio institucional” com o BRB.
O BRB informou ainda ter uma “parceria institucional” que não foi detalhada. Em 2020, o banco abriu duas unidades no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Possivelmente, o investimento tem relação com o patrocínio de R$ 32 milhões anuais da empresa ao clube carioca, iniciado no mesmo ano e em vigor até agora.
Rombo do BRB pode passar R$ 5 bilhões, diz diretor do BC
O diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou à PF que as perdas do BRB com a compra de ativos do Master podem ultrapassar os R$ 5 bilhões.
Segundo as investigações, o BRB pagou R$ 12,2 bilhões por falsas carteiras de crédito consignado vendidas pelo Master, fabricadas pela empresa Tirreno.
Após o BC ter detectado problemas nessas carteiras, houve uma substituição por outros ativos do Master. No ano passado, BRB informou que cerca de R$ 10 bilhões haviam sido recuperados.
Além de rombo no BRB, governo do DF enfrenta falta de dinheiro em caixa
Em 2025, o governo do Distrito Federal registrou um déficit de R$ 926,5 milhões nas contas, como informou o Estadão. O resultado mostra que o Executivo gastou mais do que arrecadou e piorou as contas em relação a 2024, quando o déficit foi de R$ 644,7 milhões.
Em 2026, último ano do mandato do governador Ibaneis Rocha, o orçamento está sob pressão devido a despesas que não foram quitadas no ano passado e que disputarão espaço com os gastos deste ano.
A gestão distrital herdou R$ 1,7 bilhão em recursos empenhados em anos anteriores que não foram liquidados — ou seja, que não tiveram o serviço executado — e que precisarão ser cumpridos ou cancelados.
