Lula conversa com Campos e saída de Alckmin da chapa é tratada como ‘balão de ensaio’
O Palácio do Planalto e a cúpula do PT se movimentam para apagar um incêndio político e contornar o ruído causado por uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a permanência do vice Geraldo Alckmin (PSB) na chapa da reeleição. A iniciativa foi tomada pelo próprio Lula, que se reuniu nesta terça-feira, no Planalto, com o prefeito do Recife, João Campos, presidente do PSB e candidato ao governo de Pernambuco.
“Alckmin será o que ele quiser nas eleições de 2026”, disse à Coluna a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann. A mesma frase foi repetida pelo presidente do PT, Edinho Silva, após sessão solene na Câmara para comemorar os 46 anos do partido, completados nesta terça-feira. “Nós temos imenso carinho e respeitamos o vice-presidente”, afirmou Edinho. “Sem chance de Alckmin sair”, insistiu o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE).

A operação “apaga incêndio” foi desencadeada depois que o presidente disse em entrevista ao portal UOL, na semana passada, que tanto Alckmin como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sabem ter um “papel a cumprir” em São Paulo.
Pragmático, Lula quer Haddad como candidato ao governo paulista, mas, diante da resistência do ministro, sacou intencionalmente o nome de Alckmin, que já esteve quatro vezes à frente do Palácio dos Bandeirantes.
A partir daí, o mundo político entendeu que o presidente rifou o vice para atrair um partido de centro para a chapa, como o MDB, ou até mesmo o PSD de Gilberto Kassab, secretário de Governo da gestão de Tarcísio de Freitas.
A articulação política feita por Lula tem como objetivo enfraquecer a candidatura ao Planalto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que enfrenta muitos senões no Centrão.
Interlocutores de Lula dizem, porém, que os últimos lances não passaram de um “balão de ensaio”. Tanto é assim que, durante a festa de aniversário do PT no sábado, em Salvador, o próprio presidente afagou Alckmin. “Eu tenho muita sorte na vida e uma delas é saber escolher meu vice”, elogiou. “Duvido que algum presidente tenha tido a sorte de ter o vice que eu tenho.”
O vaivém do presidente, no entanto, abriu a corrida pelo posto de vice na chapa do PT. E João Campos quis ter um têtê-à-tête com Lula, dizendo a ele que, para o PSB, manter a dobradinha nas eleições de 2026 era uma prioridade.
Em conversas reservadas, ministros observam que a vice só iria para o MDB se o partido se unisse como um bloco monolítico no apoio a Lula, uma hipótese considerada remota. Além disso, desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, Lula chama Michel Temer de “golpista”. Como explicar agora para o eleitor esse novo casamento?
De qualquer forma, seja ou não um “balão de ensaio”, o fato é que Lula arregaçou as mangas para montar os seus palanques e tenta atrair a centro-direita, ainda que apenas nos Estados.
Negociações passam por CPI do Master
Em 22 de dezembro de 2025, por exemplo, o presidente se reuniu com o senador Ciro Nogueira (PI), que comanda o PP, e com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). A informação foi revelada pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmada pelo Estadão.
A conversa foi uma tentativa de reaproximação do governo com Ciro, que ainda não se convenceu sobre a viabilidade eleitoral de Flávio, mas também girou sobre a CPI do INSS e o escândalo do Banco Master. Ao que tudo indica, todos os lados estão interessado em um “acordão”, neste ano eleitoral, para tirar de cena a crise do INSS e engavetar pedidos de CPI do Master. Detalhe: Motta é aliado de primeira hora de Ciro Nogueira e, segundo consta, não adota nenhuma estratégia sem aval do padrinho político. Não por acaso, a relação do Planalto com o Congresso, ao menos por enquanto, melhorou.
Em janeiro, Edinho Silva também conversou com Ciro e com o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, sobre os palanques regionais. O PP e o União formam a federação União Progressista.
Reunidos em Brasília, na semana passada, Ciro, Rueda e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, avaliaram que toda essa movimentação pela vice de Lula não é à toa. A portas fechadas, os três dirigentes disseram acreditar que, apesar do discurso do PSD de candidatura própria ao Planalto – seja com o governador Ratinho Junior (Paraná), Ronaldo Caiado (Goiás) ou Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) – Kassab quer mesmo é levar o PSD para a vice de Lula. E, de preferência, com ele. Como se vê, a intriga no Centrão está feita.
