11 de fevereiro de 2026
Politica

O ressentimento equivocado contra os pobres que não votam na esquerda  

Há de fato muitos dados econômicos atuais que podem ser comemorados por quem apoia o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O desemprego é o menor da série histórica, a renda, a maior. O valor do dólar é o menor em 21 meses. A bolsa de valores bate recordes. Apesar da sensação quase universal de insegurança, o índice de homicídios é o menor dos últimos 11 anos.

Para muita gente, esses dados, por si só, deveriam significar uma aprovação estrondosa ao governo e a reeleição garantida. Não é o que ocorre. Lula está longe da unanimidade. É desaprovado por mais da metade da população. Seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro, praticamente não tem méritos fora ser filho da maior liderança da direita da história do Brasil. Além disso, pesam sobre ele acusações de enriquecimento ilícito, as tais rachadinhas. Mesmo assim, em algumas sondagens, Flávio está em empate técnico com o atual presidente. Ameaça.

Lula e Flávio Bolsonaro vão disputar a Presidência em outubro
Lula e Flávio Bolsonaro vão disputar a Presidência em outubro

Lula só venceu nas eleições de 2022 nos extratos mais baixos da população, até dois salários mínimos. A partir da chamada classe-média baixa, o petista já começou a perder para o oponente – o que inclui milhões nessas profissões ligadas aos aplicativos, como motoristas de Uber, entregadores, profissionais autônomos do ramo dos serviços. Militantes e mesmo intelectuais de esquerda não pensam duas vezes em apontar culpados para certa pobre que não aprova o petismo. Entre eles, estão o “discurso de ódio das redes sociais”, como se a hostilidade fosse monopólio da direita, o que não é o caso.

Até a imprensa tradicional também seria culpada por tantos pobres votarem na direita. “A nossa imprensa dominada – e a serviço do saque elitista – não permite a compreensão do mecanismo social que reproduz as classes do privilégio”, afirma o sociólogo Jessé de Souza, em sua obra “O pobre de direita – a vingança dos bastardos”, na página 133. Jessé vai além: “A imprensa existe para blindar qualquer referência aos ricos e poderosos como causa da verdadeira pobreza”, afirma, na mesma página – ignorando que a direita extremada afirma que essa mesma imprensa é dominada por certo complô esquerdista.

Ou seja, na incompreensão de como se dão os fenômenos, apela-se a argumentos algo conspiratórios. Como se hoje a imprensa não fosse apenas um dos vetores de formação da sociedade, que, além da experiência direta da vida, possui diversos canais de informação. Aliás, conspirações parecem ser a especialidade desse sociólogo, ironicamente badalado pela mesma imprensa que condena, agora envolvido em declarações antissemitas.

O fenômeno do voto do pobre da direita está ainda aberto a interpretações e segue enigmático. Mas não comporta análises reducionistas como a de Jessé. Outra obra, “Brasil no espelho”, do cientista político Felipe Nunes, joga mais luz. Mostra que os valores da chamada população carente, muitas vezes, estão longe dos ideais de esquerda. Por exemplo, segundo a obra, a “ajuda” aos pobres não é vista com bons olhos. Para 56% dos brasileiros, os pobres não se esforçam para melhorar sua renda (está na página 76). Entre os que ganham até 1 salário mínimo, 70% concordam com a frase segundo a qual “programas do governo para os mais pobres fazem com que pessoas trabalhem menos” (página 79). Há muitos outros exemplos de desconexão entre visões tradicionais da esquerda e posições majoritárias da população na obra.

O presidente Lula insinuou há pouco que o público evangélico pode ser conquistado ao ser lembrado que 90% deles recebe ajuda do governo. Frase que revela certa incompreensão em relação a uma população que acredita que seus ganhos são resultados de mérito próprio, não de benesses do governo A ou B. É algo mais profundo, mais complexo. Culpar a imprensa ou as redes pela dissociação é apenas a explicação mais simples e insuficiente do processo.

 

 

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