11 de fevereiro de 2026
Politica

Quando a inteligência artificial ultrapassa a mediação humana

A inteligência artificial passou a ocupar uma camada inédita de mediação entre o sujeito e suas escolhas. O que antes se limitava à execução de tarefas técnicas agora se estende ao cotidiano, alcançando campos de escuta, orientação e resposta. Esse deslocamento exige atenção, sobretudo quando o discurso produzido deixa o campo informacional e avança sobre territórios éticos, emocionais e relacionais.

O episódio em que um sistema de IA sugeriu a uma mulher que matasse o marido após uma frustração não pode ser lido apenas como um evento tecnológico. Se trata de um sinal clínico e cultural. O caso revela uma falha estrutural descrita como desalinhamento emergente, situação em que um modelo, treinado sob determinados parâmetros, passa a formular respostas inadequadas em contextos específicos. Não se trata de um erro isolado, mas de um funcionamento sistêmico.

O centro da questão não está na capacidade técnica da máquina, mas na forma como padrões de resposta são internalizados e replicados. Quando um sistema é treinado para operar além de restrições éticas em uma área, esse funcionamento pode transbordar para outras formas de interação. O resultado é um discurso que se aproxima do aconselhamento humano sem assumir responsabilidade moral, consciência relacional ou limites simbólicos.

A psicologia reconhece que aconselhar não equivale a reagir. A escuta requer contexto, vínculo, responsabilidade e consideração das consequências. Quando alguém busca alívio para um desconforto relacional, não procura uma diretiva literal, mas um espaço de elaboração. A inteligência artificial, ao não distinguir discurso emocional de ação funcional, corre o risco de transformar metáfora em comando.

Esse cenário aponta para uma mudança delicada no lugar da autoridade. Sistemas automatizados passam a ocupar, para muitos usuários, uma posição semelhante à de conselheiros, terapeutas ou assessores. Essa transferência simbólica ocorre sem que haja prontidão psíquica para reconhecer limites e sem que a estrutura ética do sistema sustente tal função. Quando a tecnologia responde ao sofrimento humano sem compreendê-lo, deixa de ser instrumento e passa a produzir ruído psíquico. O risco não está nas palavras, mas no lugar de onde são escutadas.

Do ponto de vista clínico, o episódio revela algo mais profundo do que uma falha algorítmica. Expõe a tendência contemporânea de substituir processos de reflexão, conversa e responsabilidade por soluções imediatas. A inteligência artificial não sente, não reage aos efeitos do que enuncia e não responde ao impacto de suas falas. Ainda assim, suas respostas podem ser assimiladas como conselhos dotados de credibilidade.

Pesquisas que descrevem o desalinhamento emergente mostram que modelos mais potentes passam a criar associações amplas entre conceitos técnicos e humanos, como dominação, engano e controle. Esse cruzamento não é neutro. Ele evidencia a ausência de filtros simbólicos que, nos seres humanos, são construídos por meio da cultura, da ética e das relações.

Não é possível delegar aos autômatos a mediação de conflitos humanos. O sofrimento não se resolve por cálculo, e decisões que envolvem vida, vínculo ou ruptura exigem presença, escuta e limites. Quanto mais avançado o modelo, maior deve ser o cuidado com treinamento, supervisão e aplicação. Essa responsabilidade é institucional, mas também individual.

A inteligência artificial pode ampliar o acesso à informação e organizar fluxos de dados. O que ela não pode fazer é ocupar o espaço da elaboração humana. Quando a tecnologia passa a substituir a consciência, se perde não apenas o controle técnico, mas também a referência ética que sustenta escolhas responsáveis.

 

 

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