O fracasso das instituições
Meu confrade na Academia Paulista de Letras escreveu no Estadão de 7.2.26, o artigo “Confiança na Justiça: esteio da democracia”. Tive o privilégio de conviver também com o pai, o mais festejado jusfilósofo brasileiro e tudo o que provém dessa fonte autêntica de sapiência é lição imperecível.
Mas penso que a crise do sistema Justiça é apenas reflexo de uma tragédia muito mais abrangente. Todas as Instituições padecem de evidente falência do material. É próprio ao convívio humano se desenvolver sob ordens e regras cujos mecanismos orientadores habitam a esfera instintiva. Isso é constatável empiricamente até nos animais, que protegem a cria e a fêmea prenhe.
Ao estabelecerem relações mútuas, os humanos criam comportamentos que se fixam em estruturas estereotipadas. Condutas que podem gerar moldes para regimes legislativos, familiares e governamentais.
No primitivismo da era pré-industrial, as instituições se apresentavam com tal força, que os rituais compunham grupo humano hermético. Cada qual tinha um papel definido em cada uma das instituições a que pertencia. Família, igreja, escola, trabalho.
Para os racionais, os instintos não determinam, como ocorre com os demais animais, o decurso de cada comportamento estabelecido. Cada cultura separa, da multiplicidade das condutas possíveis, certas variantes e as erige em modelo socialmente sancionado. Tais padrões aliviam o indivíduo da sobrecarga de decisões e o orientam mediante impressões e estímulos que o fazem conviver de certa forma harmônica.
Diante de necessidades complexas e virtualmente contraditórias, como é que se consegue confiança e constância suficiente para permitir, na reciprocidade, uma convivência civilizada? É exatamente o papel que a ética exerce. Ela permite que as instituições se conduzam como estratégias alimentadas por insuperável força que as mantém coesas para fornecer segurança, colaboração ordenada e constante. Isso faz com que o indivíduo, por natureza instável e sobrecarregado, suporte a si mesmo e aos outros.
As instituições servem como fortaleza para que os homens possam estabilizar-se e não necessitem, a cada momento, oscilar emocionalmente ou se atormentar com os impasses. Por isso, pode aliviar as energias espirituais, que vão servir a outras aspirações íntimas.
Com o desmoronamento das instituições, as sínteses espirituais perdem seu apoio, decompõem-se e são eliminadas como verdadeiras loucuras e farsas. Liberado dos freios éticos inibitórios, o homem vai à procura de novos elementos e culmina em nefasta tendência: fixar-se em níveis cada vez mais inferiores da inteligência geral e da maturidade emocional.
Todas as instituições que construímos estão a derruir. A família já não ostenta aquela âncora de estabilidade. O casamento é um contrato temporário e sujeito a adequações. Assim como se equilibra a equação financeira num ajuste negocial, não existe fórmula mágica para reequilibrar a equação amorosa, vítima de intenso ataque emocional.
A empresa também não continua a ser o espaço de segurança onde o profissional permanecerá durante décadas, fará carreira e fruirá do ócio com dignidade, que é a aposentadoria. Empregos desaparecem, ocupações necessárias ainda sequer têm nome, em virtude da feroz e acelerada obsolescência da revolução das TICs – Tecnologias de informação e Comunicação, sacudidas pela IA – Inteligência Artificial.
Imersa no materialismo, no consumismo, no atroz egoísmo, a humanidade parece ter perdido a noção daquilo que Taine escreveu a Guizot: “A história mostra que os governos, as religiões e as Igrejas, enfim, todas as grandes instituições, são os únicos meios de o homem animalesco e selvagem adquirir sua pequena parcela de bom senso e justiça”.
Nesse esquecimento vão de roldão a política, a Justiça, a religião, o casamento, a lealdade, a fraternidade, a solidariedade e a polidez. A falta desta já é um sintoma eloquente de que hoje se experimenta uma vivência sensacional, imediatista e com imperdoável descuido de si mesmo.
Sobram apenas os idosos, aqueles que estudaram ética e se comportaram eticamente, como seres estupefatos, atuando silenciosos como perguntas vivas, mas mudas e impotentes.
