14 de fevereiro de 2026
Politica

Disputa pelo governo de Pernambuco será marcada por embate entre capital e interior

A disputa pelo Governo de Pernambuco indica polarização entre as duas principais candidaturas: Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB). Mas, diferentemente de outros Estados, as forças políticas não estão assentadas no embate do lulismo contra o bolsonarismo — fato que torna as alianças políticas mais imprevisíveis e, por vezes, pouco intuitivas. Em cena, um duelo de estratégias na capital e no interior.

A um ano das eleições, a expectativa é de uma corrida acirrada pelo Palácio do Campo das Princesas, sede do Executivo pernambucano. Segundo o último Datafolha (PE-09595/2026), divulgado na última sexta-feira, 6, o prefeito do Recife tem 47% das intenções de voto contra 35% da governadora, que tenta a reeleição. Desde outubro, a distância entre os dois caiu de 22 para 12 pontos. A pesquisa ouviu 1.022 pessoas entre os dias 2 e 5 de fevereiro, e foi encomendada pela CBN. O nível de confiança é de 95% e a margem de erro é de 3 pontos percentuais

Apesar da vantagem do pessebista na pesquisa estimulada, as intenções de voto se invertem nas respostas espontâneas — isto é, quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados. Neste cenário, Raquel Lyra aparece com 24%, contra 18% de João Campos.

João Campos e Raquel Lyra, prováveis adversários na disputa de 2026 em Pernambuco
João Campos e Raquel Lyra, prováveis adversários na disputa de 2026 em Pernambuco

Doutor em Ciências Políticas na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ernani Carvalho acredita que a disputa não passará por paixões ideológicas. “Ambos se direcionam ao centro”, aponta o cientista político. Com isso, espera-se um debate mais qualificado por parte das duas campanhas, que devem mexer com a opinião dos eleitores até as vésperas do pleito.

A atual governadora guarda fortes laços com o interior do Estado: entre 2017 e 2022, Raquel Lyra foi prefeita de Caruaru, cidade natal de seu pai, João Lyra Neto (PSD). Este, por sua vez, esteve à frente da Prefeitura entre 1989 e 1993 e, depois, de 1997 a 2001.

O vínculo com o município, a 134 quilômetros da capital, Recife, é ainda mais longevo: João Lyra Filho, o avô de Raquel, também foi prefeito de Caruaru por duas vezes. A presença da família na região ajuda a explicar a popularidade — 62% de aprovação ante 41% na capital.

A aliança costurada com prefeitos, Estado adentro, pesa a favor da atual gestão, que anunciou investimento de R$ 5,7 milhões para a segurança pública, em municípios do Agreste e do Sertão.

A construção de estradas tem sido outra estratégia que ajuda a explicar o arco de alianças entre Lyra e os municípios: dos 184 prefeitos no Estado, ao menos 140 apoiam a governadora.

Ernani Carvalho, que também é coordenador do Programa de Políticas Públicas da UFPE, diz que essa aproximação “é função tradicional dos governadores”. Mas isso não basta. O cientista político enfatiza que o apoio pode ser volátil: “O prefeito pode trair, se perceber que o barco está virando para o outro lado”.

A relação com Álvaro Porto (PSDB), deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa (Alepe), ilustra como alianças políticas podem se inverter. O parlamentar recebeu apoio de Raquel Lyra para presidir a Casa. Mas, desde 2024, se tornou desafeto e ferrenho oposicionista.

Vantagem na capital e nas redes

Na capital, Recife, o filho do ex-governador Eduardo Campos tem a seu favor números expressivos: no ano passado, o prefeito foi reeleito com 78% dos votos válidos, no primeiro turno. Na ocasião, Gilson Machado (PL), ex-ministro do Turismo de Jair Bolsonaro, ficou em segundo lugar, com apenas 13% dos votos.

Pessoas próximas ao governo estadual, por outro lado, entendem que os números de intenção de voto para João Campos refletem uma queda de popularidade do prefeito, e isso tende a se reverter em ganhos eleitorais para Lyra.

Para neutralizar a vantagem de Campos na capital, a governadora deve buscar votos na Região Metropolitana do Recife (RMR) com o apoio de Mirella Almeida (PSD), de Olinda; Mano Medeiros (PL), de Jaboatão dos Guararapes; e Severino Ramos (PSDB), de Paulista.

Os três prefeitos foram apoiados por Raquel Lyra nas eleições municipais e devem retribuir o apoio neste ano. As três cidades concentram cerca de 1,5 milhão de habitantes.

Já na corrida pela atenção dos eleitores nas redes sociais, Campos larga à frente da governadora, com sobras. A atividade nas plataformas já rendeu ao prefeito do Recife 2,9 milhões de seguidores no Instagram — mais que o dobro dos 1,3 milhão de Lyra. O bom desempenho digital não se traduz só em números no perfil, mas tem sido decisivo nas urnas.

“A forma como a imagem é construída se alia a um material aprazível para o público”, aponta Leon Queiroz, vice-diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE, sobre a produção de conteúdo do jovem prefeito.

Longe de ser novidade, a comunicação direta com os eleitores continua sendo uma poderosa estratégia política e é avaliada pelos especialistas como o grande trunfo de João Campos na corrida pelo palácio do governo.

Aposta de Lyra para crescer em Recife

Raquel Lyra aposta em ações na capital para alavancar a aprovação junto aos recifenses, que representam 43% da população pernambucana. A mobilidade urbana é uma das frentes de atuação do governo estadual.

Lyra endossa a privatização do metrô em Recife — serviço que desagrada os usuários do modal há muito tempo. “A população está cansada. Só quer que funcione”, avalia Ernani Carvalho. A Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), que atua na capital pernambucana, é vinculada ao Ministério dos Transportes.

Se bem sucedida, a transferência para a iniciativa privada pode render dividendos eleitorais a Lyra, com baixo risco de desgaste. “A batata quente está na mão do governo federal”, destaca o cientista político da UFPE.

A segurança pública na capital pernambucana é outra preocupação dos habitantes e tem sido uma das frentes de atuação do governo estadual. Lyra anunciou investimento de R$ 2 bilhões no setor, além de novos batalhões da Polícia Militar.

Como revelado pela Coluna do Estadão, aliados no governo federal, o PT e o PSB protagonizam uma relação marcada por rasteiras, intrigas e briga pelo poder em Pernambuco. Agora, a ala petista que vive em pé de guerra com o prefeito João Campos (PSB), defende uma aliança estratégica com a governadora Raquel Lyra (PSD).

Disputa pelo Senado ganha forma

Para aumentar a popularidade no interior, João Campos deve buscar uma aliança com Miguel Coelho (União), ex-prefeito de Petrolina. Nos bastidores, a dúvida é se Coelho entra na chapa disputando o Senado Federal ou como vice. Isso porque a federação União Progressista deve priorizar Eduardo da Fonte (PP) ao Senado.

Com isso, o PSB não deve formar uma chapa 100% de esquerda. Esse tipo de aliança purista tende a ser pouco vantajosa, especialmente no contexto da corrida em Pernambuco: “A ideia é ser eclético para atingir um eleitorado maior”, explica Leon Queiroz, vice-diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE.

Do outro lado, informações de bastidores indicam a aliança entre Lyra e o deputado federal Eduardo da Fonte como a mais provável. Anderson Ferreira (PL) e o próprio Miguel Coelho seriam outras duas possibilidades de composição para a chapa situacionista.

 

 

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