16 de fevereiro de 2026
Politica

Após ação de Trump na Venezuela, Exército muda projetos estratégicos e acrescenta defesa antiaérea

O lançamento de foguetes pelo Sistema Astros; Marinha já lança mísseis Mansup pelo Astros e agora Exército inclui antiaérea em seu programa estratégico de fogos
O lançamento de foguetes pelo Sistema Astros; Marinha já lança mísseis Mansup pelo Astros e agora Exército inclui antiaérea em seu programa estratégico de fogos

O documento saiu do Estado-Maior do Exército (EME) como portaria nº 1.693, assinada pelo gabinete do general Francisco Humberto Montenegro Júnior, chefe do EME. E ocupava duas páginas e meia do Boletim do Exército publicado no último dia 13. Ali estava a primeira grande resposta do Exército Brasileiro à indagação feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na reunião com os comandantes militares de 15 de janeiro: os americanos podem fazer a mesma coisa aqui? Lula se referia à ação que aprisionara, no dia 3 de janeiro, o ditador Nicolás Maduro.

O sistema de mísseis antiaéreo EMADS, da MBDA, que o Brasil deve adquirir da Itália por R$ 4 bilhões
O sistema de mísseis antiaéreo EMADS, da MBDA, que o Brasil deve adquirir da Itália por R$ 4 bilhões

Por meio da portaria, o Exército atualiza o programa estratégico Astros, tornando-o programa estratégico Astros-Fogos, com o redimensionamento e a inserção nele das iniciativas para a defesa antiaérea. Durante a ação em Caracas, as forças americanas não perderam uma única aeronave apesar de o exército da Venezuela contar com equipamento russo de defesa antiaérea de média altura.

Lula questionou o comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, sobre esse fato e ouviu como resposta que as razões para que isso tivesse acontecido ainda não estavam claras. O que os militares explicaram é que, se a presença de uma artilharia antiaérea torna incerto o desenlace de uma ação como a feita pelos EUA, a sua ausência, certamente, faria com que o resultado fosse parecido ao obtido pelo governo de Donald Trump na Venezuela.

A portaria do EME não muda apenas o nome do projeto, mas também permite que recursos extraordinários para a Defesa sejam usados para a construção da artilharia antiaérea de médio alcance no Brasil. A equipe atual desse projeto terá um prazo de 90 dias para fazer um relatório sobre “as entregas realizadas, os recursos empenhados e outros aspectos julgados relevantes, desde a implantação como Programa Estratégico do Exército até a atualização do Programa Estratégico Astros”.

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado do Comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva durante cerimônia do Dia do Exército: Lula questionou sobre capacidade do Brasil de se defender de ataque semelhante ao dos EUA na Venezuela
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado do Comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva durante cerimônia do Dia do Exército: Lula questionou sobre capacidade do Brasil de se defender de ataque semelhante ao dos EUA na Venezuela

Essa mudança deve levar ainda à adoção de uma doutrina unificada para os mísseis e foguetes, além de facilitar a obtenção de recursos. Em 2025, o Exército já havia transformado o 12.º Grupo de Artilharia de Campanha, em Jundiaí (SP), na primeira unidade antiaérea da Força Terrestre, que deverá receber os lançadores de mísseis de média altura. Além disso, pouco depois do ataque à Venezuela, o Exército publicou a portaria nº 1.686 do EME, que aprovara a diretriz de obtenção do sistema de artilharia antiaérea de média altura.

Isso abriu abriu espaço para um acordo entre os governos do Brasil e da Itália para a compra do sistema antiaéreo EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions, ou Solução de Defesa Aérea Modular Aprimorada), um equipamento fabricado pela multinacional MBDA, que permitirá a integração de radares de diferentes origens, inclusive equipamentos nacionais. Esse sistema usa mísseis CAMM-ER, semelhante aos das fragatas da classe Tamandaré, da Marinha.

Ao todo, o Exército prevê adquirir, ao custo de R$ 4 bilhões, quatro viaturas de radar kronos e seis lançadores óctuplos de mísseis, além de diversos veículos de apoio para compor três baterias, uma de comando, para coordenação dos disparos e duas lançadoras de mísseis. Pelo acordo com a Itália, a fabricante deverá fornecer 60 mísseis por grupo de bateria, sendo que 48 deles serão operacionais e outros 12 para o treinamento das guarnições – 20 militares receberão treinamento no exterior para operar o equipamento.

Uma bateria do sistema Astros, do Exército, prepara-se para lançar foguetes durante a Operação Perseu, em dezembro de 2024, em Resende, no Rio
Uma bateria do sistema Astros, do Exército, prepara-se para lançar foguetes durante a Operação Perseu, em dezembro de 2024, em Resende, no Rio

O documento sobre o acordo para aquisição do EMADS foi publicado no Boletim do Exército de 9 de janeiro, mas ele era datado de 22 de dezembro, ou seja, a Força Terrestre já se preparava para a compra do equipamento antes mesmo do ataque americano à Caracas. Agora, a nova portaria iguala ainda a defesa antiaérea a outras nove áreas estratégicas para o Exército:

1) As forças blindadas; 2) O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron); 3) A Aviação do Exército, que precisa de helicópteros de ataque; 4) A defesa cibernética e o uso de inteligência artificial; 5) A Defesa Cibernética Nacional, 6) O Programa Sentinela; 7) O Sistema Operacional Militar Terrestre; 8) O Sistema Logístico Militar Terrestre e (9) o aprimoramento do sistema de ensino e cultura da Força.

Essa lista contém mais uma novidade. É que, além da mudança da inclusão da artilharia antiaérea entre os seus programas estratégicos, o Exército criou o Programa Estratégico Sentinela, com a fusão dos programas da Amazônia Sentinela com o Sentinela da Pátria. A ideia é reforçar a ação de vigilância na região da Amazônia, sem a qual nenhuma dissuasão é possível.

O blindado Centauro em teste em um campo de provas do Exército: canhão de 120 mm na torre: as forças blindadas são um dos dez programas estratégicos
O blindado Centauro em teste em um campo de provas do Exército: canhão de 120 mm na torre: as forças blindadas são um dos dez programas estratégicos

Por fim, o programa Lucerna, do Centro de Inteligência do Exército (CIE), perdeu a classificação de estratégico e passou a ser um programa setorial. O rebaixamento pode ter implicações orçamentárias. Na reunião do dia 15 com Lula, os chefes das Forças Armadas apresentaram os custos para que o Brasil tenha capacidade de dissuasão diante de potências extrarregionais em razão da nova realidade geopolítica mundial.

De acordo com os comandantes, seriam necessários investimentos de R$ 800 bilhões em 15 anos para impedir que a força de uma potência estrangeira passeie impunemente pelo País sem sofrer baixas. Só o Exército precisaria de investimentos de cerca de R$ 200 bilhões, que incluem todas as suas áreas estratégicas, além da aquisição de equipamentos como mísseis táticos de cruzeiro, radares e satélites que não dependam de outras potências. Pode parecer muito. Mas depois que a casa é invadida, toda economia sempre parece estúpida.

 

 

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