O recuo de Janja no desfile foi um bom sinal em meio ao caos
Convenhamos que a situação estava bastante fora de controle. Após o desmantelamento da operação Lava Jato, a direção na história oficial ia para o seguinte sentido: nunca houve aquela corrupção toda e quem ousava dizer algo ao contrário não passava de um fascista, ou algo pior. A consequência é que o vale-tudo irresponsável parecia ter voltado.
Advogados bajuladores do governo reuniram-se em associação formal. Multiplicaram-se os eventos em que juízes e partes se confraternizaram aqui e no exterior. Enriquecer por meio de patrimonialismo e tráfico de influência se tornou o lugar-comum e ai de quem reclamasse. Taxavam-lhe na cara: “Lavajatista” ou “golpista”.
No nosso País maniqueísta e bipolar, inclusive, ficou impossível, ao mesmo tempo, ser bastante crítico aos reiterados erros e desatinos políticos do ex-juiz Sérgio Moro e do ex-procurador Deltan Dallagnol e ainda ter consciência de que houve bilhões de recursos públicos desviados.
Se não fosse o escândalo do Banco Master a mostrar que, infelizmente, as coisas continuavam como antes, talvez a sequência de desvarios continuasse. Mas a realidade tragou o cinismo. Os esquemas continuavam e eram muito maiores do que qualquer pessoa que estivesse de fora imaginasse. Envolviam gente do Executivo, do Legislativo, do Judiciário, de todas as ideologias.
Esse triunfalismo de que “nunca houve a corrupção apontada na Lava Jato e sambamos na cara de quem diz o contrário” teria sua espécie de ápice na noite de ontem, quando uma escola de samba de Niterói com enredo bajulador da história do presidente Lula desfilou na avenida com a primeira-dama Rosângela Janja da Silva como um dos destaques.
Seria um tempero em tanto para tudo o que pesa contra os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes da vida — o exercício do poder direcionado para o autobenefício e o deboche contra quem acha que “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Antes que os binaristas de plantão protestem, é possível, sim, ao mesmo tempo, sustentar que o ex-presidente Jair Bolsonaro tentou um malsucedido golpe de Estado e os ministros do STF passaram muito da conta em vários aspectos.

Tida — justa ou injustamente — como deslumbrada, Janja adorou aparentemente o papel de estrela de carro alegórico. Tanto que chegou a participar dos ensaios. A questão é que o Brasil já é um pouco diferente de pelo menos um semestre atrás. O momento não é mais de triunfalismo frívolo. Haveria risco de vaias, prejuízo eleitoral, e o receio falou mais alto. Por isso, quando se vislumbra que houve consciência de um limite de pessoa poderosa, é de se comemorar discretamente o recuo da primeira-dama de desfilar na avenida. A conferir se os outros influentes terão um pouco mais de pudores ou freios.
