18 de fevereiro de 2026
Politica

Auditor da Receita acessou dados de enteada de Gilmar; ‘fiz burrada’

O auditor da Receita Federal, Ricardo Mansano de Moraes, alvo de buscas da Polícia Federal nesta terça-feira, 17, sob suspeita de acessar e vazar dados fiscais de ministros do Supremo Tribunal Federal e parentes, alegou a investigadores e a colegas do Fisco que por ‘acidente’ e ‘infelicidade’, acabou acessando nos sistemas fechados da Receita dados de uma enteada do ministro Gilmar Mendes, filha da mulher do decano do STF, Guiomar Feitosa.

O Estadão pediu manifestação do auditor e do ministro Gilmar.

Demonstrando estar assustado com a ação ostensiva da PF, que às 6 horas da manhã chegou à sua residência, em São José do Rio Preto, a 433 km da capital, Mansano é auditor de carreira há 19 anos e compõe a Equipe de Gestão do Crédito Tributário e do Direito Creditório (Eqrat) – braço técnico da Receita que faz análise, auditoria e gestão dos créditos que os contribuintes possuem a receber da União, e também o controle de créditos tributários devidos ao Fisco.

Quando foi acessar a declaração de imposto de renda, Mansano esbarrou no 'Alerta', base de dados de pessoas politicamente expostas, como ministros do STF e familiares
Quando foi acessar a declaração de imposto de renda, Mansano esbarrou no ‘Alerta’, base de dados de pessoas politicamente expostas, como ministros do STF e familiares

O auditor, que trabalha na Delegacia da Receita em Presidente Prudente, foi afastado de suas funções e teve o sigilo quebrado (bancário, fiscal e telemático) por ordem do ministro do Supremo Alexandre de Moraes.

Mansano está proibido de sair da cidade onde reside e obrigado ao recolhimento domiciliar no período noturno e aos finais de semana. O passaporte do auditor foi recolhido e ele não pode deixar o País, nem mesmo ingressar nas dependências da Receita.

Além de Mansano, outros três servidores públicos foram alvo da Polícia Federal nesta manhã de terça: Luiz Antônio Martins Nunes, Luciano Pery Santos Nascimento e Ruth Machado dos Santos, que não são funcionários da Receita. Luiz Nunes é servidor do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados).

Mansano relatou a investigadores que leu uma reportagem publicada na Revista Piauí, meses atrás, sobre suposta venda de sentenças no Superior Tribunal de Justiça. Um sobrenome a partir da leitura chamou sua atenção: Feitosa.

O auditor diz que achou que poderia se tratar de um parente de um colega que é de Cuiabá, que não vê há muitos anos, e que já se teria desligado da Receita.

Com o sistema do Fisco aberto em seu computador ele resolveu pesquisar o nome Feitosa. Quando foi acessar a declaração de imposto de renda do CPF, Mansano esbarrou no ‘Alerta’, base de dados de pessoas politicamente expostas, como ministros do STF e familiares.

Ele constatou que o sobrenome Feitosa se tratava de uma enteada de Gilmar após buscas no Google.

Auditor acessou nos sistemas fechados da Receita dados de uma enteada do ministro Gilmar Mendes
Auditor acessou nos sistemas fechados da Receita dados de uma enteada do ministro Gilmar Mendes

Em janeiro, provocada pelo ministro Alexandre de Moraes, a Corregedoria da Receita pediu esclarecimentos a Mansano sobre a tentativa de acesso a dados confidenciais. Ele apresentou sua versão. “Fiz burrada”, disse a investigadores quando a Polícia Federal chegou à sua casa. Garantiu que não vazou nenhuma informação.

Colegas do auditor ouvidos pelo Estadão criticaram o que chama de desproporção da ação da PF. Para eles, a nota da Receita é clara ao usar a expressão preliminarmente, ou seja, não há ainda conclusão da investigação interna. Eles avaliam que a operação da PF foi ‘truculenta’.

Outros observaram que não há suspeitas de que Ricardo Mansano tenha vazado dados sigilosos da enteada do ministro.

COM A PALAVRA, O SINDICATO DOS AUDITORES-FISCAIS DA RECEITA

O Sindifisco Nacional (Sindicato dos Auditores-Fiscais da Receita Federal) afirma que acompanha de perto os desdobramentos da operação da Polícia Federal que resultou nos mandatos de busca e apreensão contra servidores ligados à Receita Federal. Vemos com preocupação o suposto vazamento, visto que o dever de proteção das informações tributárias constitui garantia legal do contribuinte e é pilar essencial da confiança na Administração Tributária.

Vale ressaltar, porém, que o acesso devidamente motivado aos dados dos contribuintes não constitui quebra de sigilo e faz parte da rotina de trabalho dos Auditores-Fiscais da Receita Federal, sendo prática essencial para a realização de auditorias e fiscalizações. Já a divulgação de tais dados é crime, sendo um desvio incomum que deve ser punido. O sindicato reforça que todos os envolvidos devem ter seu direito ao contraditório e à ampla defesa preservado e espera que o caso seja esclarecido o quanto antes.

 

 

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