17 de fevereiro de 2026
Politica

Machismo acadêmico

Não satisfeitos com a recusa firme à pretensão de Amélia Bevilacqua tornar-se a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras, os “imortais” à época também não perdiam a oportunidade de criticá-la.

O “Diário Secreto” de Humberto de Campos é um repertório de maldades, na verdade mesquinhas malvadezas, perpetradas contra a esposa do jurista Clóvis Bevilacqua.

Assim é que ele reproduz um diálogo com João Elísio, deputado por Pernambuco.

– “Então, vocês, na Academia, não quiseram a Amélia?”

E depois que Humberto conta o que sucedeu na sessão em que sua inscrição foi indeferida, ouve do parlamentar:

– “Eu acho que a Amélia já está de miolo mole… Ela é mais velha do que eu…”

Continua com o relato que segue:

– “Eu não sei se você sabe que o meu pai foi Juiz de Direito no Codó, no Maranhão, no tempo em que o pai da Amélia, o Dr. João Antônio de Freitas, era juiz em Caxias. Transferido para o lugar deste, que se havia aposentado, meu pai foi para Caxias, e levou a família. E datam daí as nossas relações com a família da Amélia”.

E prosseguiu:

– “Eu era menino ainda, e a Amélia já era mocinha. Aos catorze anos eu fui para São Luís estudar, e voltei aos dezessete. Embora o Dr. João Antônio de Freitas tivesse filhos, não havia baile em Caxias em que a Amélia não me mandasse pedir à minha mãe, para que eu a acompanhasse. Minha mãe aborrecia-se com isso, mas meu pai intervinha, e mandava que eu fosse. Até que um dia, ao chegar na casa do Dr. Freitas, encontrei a Amélia debulhada em lágrimas”.

– “O que é que você tem?”

– “Meu pai quer me casar, contra a minha vontade!”

– “Casar você, com quem?”

– “Com o Lustosa Paranaguá (que depois foi Barão e Senador da República).

Amélia não parava de soluçar:

– “Mas eu já disse a papai que, casar, eu só caso com uma pessoa!”

– “Com quem?

– “Com você!”.

Nisso, João Elísio interrompe o relato, e exclama:

– “Seu Humberto, eu fiquei frio. Eu era um menino de dezessete anos e a Amélia andava já pelos vinte e dois ou vinte e três. Ela não era feia, não; mas eu estava longe de pensar em casamento. E desde esse dia, comecei a fugir, até que embarquei para o Recife, onde fui encontrá-la anos depois, com a mudança da família do Dr. João Antônio de Freitas para Pernambuco”.

E pediu reserva, para concluir:

– “Mas não vá pensar que a Amélia da mocidade é essa que aí está, que fez um chiqueiro da casa do Clóvis. Não. A casa do João Antônio de Freitas era limpa, asseada, direitinha. Eu não sei como é que a Amélia ficou assim”.

Na sessão seguinte da Academia Brasileira de Letras, João Ribeiro conta a Coelho Neto e a Humberto de Campos o motivo pelo qual estava a dar risada:

– “Hoje, eu dei em casa uma boa gargalhada. A D. Amélia, a Amélia Bevilacqua, completou anos hoje. E como eles são gentis com as minhas filhas, e gostam muito de presentear, minha gente hoje foi lá à casa deles, levar uma lembrança qualquer. E você não imagina o que aconteceu. A Amélia chamou minha mulher à parte e disse-lhe andar alarmadíssima com uma carta anônima que recebeu. E sabem o que o sujeito dizia na carta? Dizia-lhe que, se ela continuasse a ser candidata à Academia, ele escreveria uma carta ao Clóvis, contando-lhe que ela, antes de se casar com ele, havia sido gueixa e dançarina de um cabaré!”.

João Ribeiro não consegue parar de rir:

– “Foi bom eu não ter ido lá; porque se ela me conta o caso, eu tinha soltado uma gargalhada ali mesmo diante dela. E isso não é tudo: o melhor é que ela tem medo de que o sujeito escreva mesmo a carta, porque o Clóvis pode acreditar…”.

Gente ingênua, ou realmente privada de discernimento?

O certo é que Clóvis Bevilacqua ficou extremamente ressentido com a não acolhida de sua mulher e nunca mais apareceu na Academia Brasileira de Letras, rompendo com os amigos que tinha lá.

Mas morreu acadêmico, pois a “imortalidade” nas Academias de verdade é vitalícia. Pode-se ameaçar a renúncia, pode desaparecer, pode difamar, pode manter uma artilharia contra a Academia e contra os acadêmicos. Mas continuará “imortal” até que morra. Sim, os “imortais” morrem. Como dizia Lygia Fagundes Telles, são imortais porque não têm onde cair mortos…

 

 

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