Afastamento de Marco Buzzi é ‘o mínimo do mínimo’, diz fundadora do Me Too Brasil
“É o mínimo do mínimo”. Foi assim que a advogada Marina Ganzarolli, fundadora da organização não governamental Me Too Brasil, definiu, em entrevista à Coluna do Estadão, o afastamento do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Marco Buzzi, acusado por duas vítimas de assédio sexual.
Apesar de comemorar a decisão dos magistrados da Corte de afastarem Buzzi de suas funções, Ganzarolli criticou o fato de o ministro continuar recebendo o salário integral, no valor de R$ 44 mil.
“Isso não é uma pena. É um prêmio”, disse a advogada. “A expectativa máxima é ele ser premiado com férias remuneradas para o resto da vida. Triste e temerário, para dizer o mínimo”.
Denúncias foram feitas por filha de amigos e por uma secretária
A primeira denúncia contra o ministro veio a público no início de fevereiro. Buzzi teria tentado agarrar à força uma jovem de 18 anos, filha de um casal de amigos. Ela passava férias, com os pais, no imóvel do ministro, localizado em Balneário Camboriú (SC).
Os fatos que motivaram a segunda denúncia contra o magistrado, por assédio sexual, ocorreram em 2024. A vítima é uma secretária que trabalhava no gabinete de Buzzi como funcionária terceirizada do STJ. O ministro nega todas as acusações.
Advogada chama Buzzi de ‘predador sexual’
A fundadora da Me Too Brasil, instituição que dá apoio a mulheres vítimas de violência sexual desde 2020, chamou Buzzi de “predador sexual”. Ganzarolli observou que, apesar de não conhecer detalhes do caso, tem “absoluta certeza” de que há mais vítimas do que as duas que já denunciaram o ministro do STJ.
“Uma coisa que eu posso afirmar, com absoluta certeza, é que existem outras vítimas. Ele é um predador sexual”, avaliou a advogada. “É um comportamento cuja característica intrínseca é a reincidência, um modus operandi reproduzido com diversas vítimas. Eu coloco a minha mão no fogo”.
Código de conduta para o Judiciário poderia ter ‘controle externo’
Ganzarolli lamentou o fato de não haver punições concretas para os condenados por esse tipo de crime e insistiu que a falta de penas mais duras passa uma clara mensagem de impunidade.
“O que isso diz para as mulheres brasileiras, para as vítimas de violência sexual que deveriam ver no Judiciário um parceiro para romper o silêncio?”, questionou. Ela mesmo respondeu: “O que diz é: ‘Não confie em nós, aqui você não será bem-recebida; o seu agressor não sofrerá as consequências e você não será respeitada’”.
A criação de um código de conduta para a magistratura, que investigue de forma imparcial esse tipo de caso – como costuma ocorrer no setor privado –, também foi cobrada pela fundadora da Me Too Brasil.
“Cadê o código de conduta da magistratura? Cadê a política de compliance em que se tem uma controladoria externa à entidade? Por que o controlador é o próprio controlado? Isso não funciona em nenhuma outra esfera. Então, por que funciona para a magistratura?”, cobrou Ganzarolli.

