18 de fevereiro de 2026
Politica

Planalto age para estancar crise com evangélicos após homenagem a Lula citar ‘família em conserva’

BRASÍLIA – Os ataques dos evangélicos ao governo após o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocaram preocupação no Palácio do Planalto, que tenta contornar a crise. A escola de samba ficou em último lugar e, na apuração desta quarta-feira, 18, foi rebaixada do Grupo Especial do carnaval do Rio. Além de ser criticado, Lula ainda foi chamado por adversários de “pé-frio” nas redes sociais.

Pesquisas que chegaram ao Planalto indicam que evangélicos reagiram de forma negativa à apresentação da escola, tentando vincular o PT e o governo com a sátira aos conservadores. O mal-estar detectado nesses levantamentos e entrevistas dadas por políticos evangélicos desencadearam uma operação para impedir que as críticas respinguem na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Ala da escola Acadêmicos de Niterói retrata 'família em conserva'
Ala da escola Acadêmicos de Niterói retrata ‘família em conserva’

Ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Messias é evangélico e passou o carnaval em um retiro espiritual, em Brasília. Ainda assim, senadores da oposição contrários a Messias para o STF buscam associá-lo ao desgaste, mesmo depois de a AGU ter dado orientações jurídicas para que ministros não participassem do desfile.

O principal ponto de insatisfação dos evangélicos com o desfile que homenageou o presidente no domingo, com o enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, foi a ala “Neoconservadores em conserva”.

O livro que detalha o enredo explica que a fantasia traz elementos que representam os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo, como o agronegócio, os mais ricos, os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos.

A ala foi classificada como preconceituosa por opositores de Lula, em um cenário em que o presidente tenta fazer acenos ao grupo de olho nas eleições de outubro. A última pesquisa Genial/Quaest, divulgada neste mês, mostrou que 61% dos evangélicos desaprovam a gestão Lula.

Desde o desfile, lideranças religiosas vieram a público criticar o governo, a quem acusam de ter dado aval ao desfile da escola de Niterói.

Ao mesmo tempo, aliados de Lula passaram a atuar para desvincular o governo da agremiação.

O presidente do PT, Edinho Silva, afirma que tentar desgastar politicamente o governo por causa das escolhas de alegorias da Acadêmicos de Niterói “chega às raias do ridículo”.

“Lula sempre teve uma relação de muito respeito com a comunidade evangélica e os líderes das igrejas sempre tiveram no presidente um aliado na construção de políticas públicas para o fortalecimento das famílias brasileiras”, disse Edinho.

Coordenador do grupo jurídico Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho endossa o petista e destaca que Lula tem compromissos “absolutamente inabaláveis” com os evangélicos.

“Nós não tivemos gestão sobre isso. O presidente Lula simplesmente não se meteu. Esse é o fato. E essa discussão é absolutamente artificial, inoportuna, inconveniente. Estão tentando manipular o enredo. Estão tentando fabricar fake news. É a nova mamadeira de piroca”, argumenta.

O Planalto havia adotado algumas precauções para evitar que o desfile pudesse ser associado ao governo. A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, tinha confirmado participação em um carro alegórico da Acadêmicos de Niterói, mas desistiu de desfilar depois que a AGU e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, a alertaram para os riscos.

Mesmo assim, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, o partido Novo e outros parlamentares da oposição acusam o governo de “propaganda eleitoral antecipada” e prometem entrar com novas representações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra Lula e o PT.

No Congresso, a oposição também sinaliza com impacto na candidatura de Messias ao STF. Ex-ministra de Jair Bolsonaro, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) admite que o advogado-geral da União, “como eu e todo evangélico, deve estar sofrendo muito com esse episódio”.

Para ela, a Presidência da República tinha acesso ao roteiro da escola de samba. “Dizer que não sabiam chega a soar como mais uma zombaria a nós”, diz.

“Então, o presidente Lula pagará um preço muito alto por isso. E aí é possível, sim, que isso respingue na indicação do ministro Messias”, complementa. “O ministro Messias vai ser um efeito colateral desse desastre que foi essa homenagem ao Lula homologada, patrocinada e pactuada com a Presidência da República”, conclui.

Também evangélico, o senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR) avalia que houve alinhamento do governo federal com o enredo da Acadêmicos de Niterói. “Quando se coloca a família ‘em conserva’ em um contexto claramente associado ao conservadorismo, não estamos diante de arte neutra”, afirma. “Trata-se de uma provocação direcionada a milhões de brasileiros que defendem a fé, a família e a liberdade.”

Para o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), no entanto, não há risco de a controvérsia provocada pelo desfile afetar a indicação de Messias. “Eu não acredito que isso afete. Até porque eu acredito muito na maturidade dos senadores evangélicos em separarem o que foi esse desastre do PT ou do governo no Sambódromo com esta indicação de um irmão nosso”, diz. “O que é muito importante para nós equilibrarmos o pleno do STF, que é majoritariamente progressista.”

 

 

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