Planalto age para estancar crise com evangélicos após homenagem a Lula citar ‘família em conserva’
BRASÍLIA – Os ataques dos evangélicos ao governo após o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocaram preocupação no Palácio do Planalto, que tenta contornar a crise. A escola de samba ficou em último lugar e, na apuração desta quarta-feira, 18, foi rebaixada do Grupo Especial do carnaval do Rio. Além de ser criticado, Lula ainda foi chamado por adversários de “pé-frio” nas redes sociais.
Pesquisas que chegaram ao Planalto indicam que evangélicos reagiram de forma negativa à apresentação da escola, tentando vincular o PT e o governo com a sátira aos conservadores. O mal-estar detectado nesses levantamentos e entrevistas dadas por políticos evangélicos desencadearam uma operação para impedir que as críticas respinguem na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Messias é evangélico e passou o carnaval em um retiro espiritual, em Brasília. Ainda assim, senadores da oposição contrários a Messias para o STF buscam associá-lo ao desgaste, mesmo depois de a AGU ter dado orientações jurídicas para que ministros não participassem do desfile.
O principal ponto de insatisfação dos evangélicos com o desfile que homenageou o presidente no domingo, com o enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, foi a ala “Neoconservadores em conserva”.
O livro que detalha o enredo explica que a fantasia traz elementos que representam os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo, como o agronegócio, os mais ricos, os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos.
A ala foi classificada como preconceituosa por opositores de Lula, em um cenário em que o presidente tenta fazer acenos ao grupo de olho nas eleições de outubro. A última pesquisa Genial/Quaest, divulgada neste mês, mostrou que 61% dos evangélicos desaprovam a gestão Lula.
Desde o desfile, lideranças religiosas vieram a público criticar o governo, a quem acusam de ter dado aval ao desfile da escola de Niterói.
Ao mesmo tempo, aliados de Lula passaram a atuar para desvincular o governo da agremiação.
O presidente do PT, Edinho Silva, afirma que tentar desgastar politicamente o governo por causa das escolhas de alegorias da Acadêmicos de Niterói “chega às raias do ridículo”.
“Lula sempre teve uma relação de muito respeito com a comunidade evangélica e os líderes das igrejas sempre tiveram no presidente um aliado na construção de políticas públicas para o fortalecimento das famílias brasileiras”, disse Edinho.
Coordenador do grupo jurídico Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho endossa o petista e destaca que Lula tem compromissos “absolutamente inabaláveis” com os evangélicos.
“Nós não tivemos gestão sobre isso. O presidente Lula simplesmente não se meteu. Esse é o fato. E essa discussão é absolutamente artificial, inoportuna, inconveniente. Estão tentando manipular o enredo. Estão tentando fabricar fake news. É a nova mamadeira de piroca”, argumenta.
O Planalto havia adotado algumas precauções para evitar que o desfile pudesse ser associado ao governo. A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, tinha confirmado participação em um carro alegórico da Acadêmicos de Niterói, mas desistiu de desfilar depois que a AGU e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, a alertaram para os riscos.
Mesmo assim, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, o partido Novo e outros parlamentares da oposição acusam o governo de “propaganda eleitoral antecipada” e prometem entrar com novas representações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra Lula e o PT.
No Congresso, a oposição também sinaliza com impacto na candidatura de Messias ao STF. Ex-ministra de Jair Bolsonaro, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) admite que o advogado-geral da União, “como eu e todo evangélico, deve estar sofrendo muito com esse episódio”.
Para ela, a Presidência da República tinha acesso ao roteiro da escola de samba. “Dizer que não sabiam chega a soar como mais uma zombaria a nós”, diz.
“Então, o presidente Lula pagará um preço muito alto por isso. E aí é possível, sim, que isso respingue na indicação do ministro Messias”, complementa. “O ministro Messias vai ser um efeito colateral desse desastre que foi essa homenagem ao Lula homologada, patrocinada e pactuada com a Presidência da República”, conclui.
Também evangélico, o senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR) avalia que houve alinhamento do governo federal com o enredo da Acadêmicos de Niterói. “Quando se coloca a família ‘em conserva’ em um contexto claramente associado ao conservadorismo, não estamos diante de arte neutra”, afirma. “Trata-se de uma provocação direcionada a milhões de brasileiros que defendem a fé, a família e a liberdade.”
Para o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), no entanto, não há risco de a controvérsia provocada pelo desfile afetar a indicação de Messias. “Eu não acredito que isso afete. Até porque eu acredito muito na maturidade dos senadores evangélicos em separarem o que foi esse desastre do PT ou do governo no Sambódromo com esta indicação de um irmão nosso”, diz. “O que é muito importante para nós equilibrarmos o pleno do STF, que é majoritariamente progressista.”
