18 de fevereiro de 2026
Politica

Ponto de inflexão da República

No viver — concessão permissiva do Criador —, o homem coletivo, que chamamos nação, também enfrenta paradoxos que se tornam enigmas históricos. O Brasil atual encontra-se precisamente nesse limiar. O Índice de Percepção da Corrupção (IPC) da Transparência Internacional, divulgado este mês, registrou 35 pontos e a 107ª posição entre 182 países — a segunda pior nota da série histórica, com estagnação em relação aos 34 pontos de 2024. Casos de macrocorrupção em escala inédita (fraudes no INSS, o esquema do Banco Master, a infiltração do PCC no mercado financeiro via Operação Carbono Oculto), a captura orçamentária por emendas parlamentares que bateram recorde de R$ 61 bilhões previstos para 2026 e a liberação acelerada de R$ 1,5 a 2,3 bilhões apenas nos primeiros meses do ano eleitoral, além da impunidade generalizada e das condutas institucionais questionadas em todas as esferas de poder, configuram não mero escândalo episódico, mas o esgotamento de uma trajetória. É o ponto de inflexão: o instante matemático e político em que a curva da erosão institucional inverte sua concavidade — ou se consolida na decadência irreversível, ou se abre para uma mutação qualitativa.

Esse instante corresponde precisamente ao conceito de ponto de inflexão, trasladado das ciências exatas para as humanas, que designa o momento em que uma tendência quantitativa se transforma em ruptura qualitativa. No Brasil atual, a acumulação de escândalos — da lavagem bilionária de recursos do crime organizado à “captura do orçamento” pelo Legislativo, passando pela fragilidade do Judiciário em garantir impessoalidade — não mais se explica como desvio pontual. Trata-se de uma virada sistêmica: o patrimonialismo, que Raymundo Faoro diagnosticou em *Os Donos do Poder* (1958) como marca estrutural do Estado brasileiro, onde o público e o privado nunca se separam de todo, atingiu o limite de sua sustentabilidade democrática. Morton Grodzins e Malcolm Gladwell já alertavam que os “tipping points” sociais ocorrem quando pequenas fissuras se tornam avalanches. Aqui, a fissura é a normalização da corrupção como “jeitinho” elevado à política de Estado. O cidadão brasileiro, confrontado com essa curva, não pode mais postergar a escolha: persistir na inércia ou abraçar a virada.

Contudo, essa escolha esbarra nos limites do ser humano — limites não apenas corporais, mas existenciais e éticos da própria pólis. O homem, como lembra Martin Heidegger em “Ser e Tempo” (1927), é Ser-para-a-morte, finito e lançado no mundo; a Nação, analogamente, é finita em sua capacidade de suportar a degradação moral sem perder a essência republicana. Friedrich Nietzsche, em “Assim Falava Zaratustra”, via no super-homem a vontade que transcende o limite, mas advertia: transcender não é negar a finitude, é afirmá-la criadoramente.

É nesse contexto que, no Brasil de 2026, o limite se manifesta na tolerância exaurida da sociedade: até onde o corpo social suporta a banalização do mal, para usar Hannah Arendt (“Eichmann em Jerusalém”, 1963), quando a corrupção deixa de ser exceção e torna-se rotina burocrática? Até onde o cidadão aceita que emendas recordes financiem clientelismo eleitoral enquanto o crime organizado infiltra fintechs e postos de gasolina com R$ 46 bilhões em transações ocultas? Pierre Bourdieu diria que o habitus patrimonial brasileiro revela, em momentos de crise, suas fissuras: o “capital simbólico” da impunidade esgota-se quando o custo social — desigualdade, violência, desconfiança — torna-se insuportável.

Da mesma forma, Victor Turner, antropólogo da liminaridade, veria no atual estado brasileiro uma sociedade em “antiestrutura”: normas corroídas, rituais republicanos esvaziados, o sujeito coletivo despojado de confiança nas instituições. O limite, portanto, não é fraqueza; é o chamado à autenticidade. Ultrapassá-lo sem ruptura significa dissolver a própria ideia de Brasil como projeto comum.

É precisamente nesse ponto que se impõe a ruptura. Gaston Bachelard, em “A Formação do Espírito Científico” (1938), ensinou que o conhecimento avança por cesura radical: “Entre o conhecimento comum e o conhecimento científico existe uma ruptura tão estrita que esses dois tipos de conhecimento não poderiam ter a mesma filosofia”. Transposta à política, a ruptura não é violência, mas quebra epistemológica com o “conhecimento comum” da corrupção como inevitável. Karl Marx via nas crises o momento em que as relações de produção se tornam entraves; Hannah Arendt, em “Sobre a Revolução” (1963), celebrava o caráter inaugural da ruptura: não destruição cega, mas ato de fundação de um novo espaço público.

No Brasil, a ruptura necessária é com o patrimonialismo que Faoro descreveu e com o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda (“Raízes do Brasil”, 1936), que prefere o favor pessoal à impessoalidade jurídica. A Operação Carbono Oculto, ao desarticular o “banco paralelo” do PCC, mostrou que ruptura é possível quando o Estado age com inteligência e coordenação. Mas ela permanece incompleta enquanto delações bilionárias tramitam travadas e emendas recordes recompensam o fisiologismo. A ruptura criativa exigida é institucional e cultural: reforma profunda do financiamento político, transparência radical das emendas, responsabilização efetiva em todas as esferas — sem exceção partidária. Ruptura que não nega o passado, mas o supera, abrindo espaço para o novo sem perda da continuidade republicana.

Aqui entra o dissenso como motor dessa transformação. Jacques Rancière, em “A Desavença” (1995), distingue-o do mero desacordo: o dissenso não é opinião divergente dentro do consenso; é a manifestação da “parte dos sem-parte”, a interrupção da partilha policial do sensível que naturaliza a exclusão.

No Brasil de 2026, o consenso dominante é o da governabilidade negociada pela corrupção: elites de todos os espectros que pactuam com a captura orçamentária, a impunidade seletiva e a infiltração criminosa em nome da “estabilidade”. O dissenso autêntico surge quando o cidadão comum — o trabalhador, o empresário honesto, o jovem periférico, o intelectual — declara: “Eu não faço parte dessa partilha”. Chantal Mouffe complementa: a democracia não aspira ao consenso deliberativo ilusório, mas ao agonismo que converte antagonismo em confronto regulado. O dissenso brasileiro não pode ser o ódio cego ou o messianismo autoritário; deve ser o desacordo produtivo que revela o escândalo: o povo soberano foi reduzido a espectador de sua própria espoliação. Sociologicamente, impede a anomia durkheimiana; antropologicamente, recria a communitas turneriana nas ruas, nas redes, nas urnas e nos tribunais da opinião pública.

Dessa forma, ponto de inflexão, limite, ruptura e dissenso formam, no Brasil atual, uma constelação que impõe responsabilidade. O momento é crítico: 2026 é ano eleitoral, as emendas batem recordes, o crime organizado testa os limites do Estado, a percepção de corrupção estagna no fundo do poço. Não há mais espaço para a inércia cordial. O brasileiro deve reconhecer o ponto de inflexão — e escolher a curva ascendente. Deve medir o limite ético da nação — e recusar ultrapassá-lo pela resignação. Deve ousar a ruptura — pacífica, institucional, profunda. E deve sustentar o dissenso — não como barulho, mas como voz da igualdade que Rancière exige.

Nietzsche nos lembra que o homem é corda sobre abismo; Heidegger, que a morte autentica; Arendt, que o agir político funda; Rancière, que a política começa no desacordo. No Brasil de 2026, a concessão do viver coletivo exige que cada cidadão exerça, no cotidiano e no voto, essa dialética: medir o limite, identificar o ponto, consumar a ruptura, encarnar o dissenso. Não por ódio a pessoas ou partidos, mas por amor à República que ainda pode ser. O futuro não está escrito na curva descendente da corrupção; está na decisão humana de inflexioná-la. O chamado é claro, direto, inadiável: brasileiros, este é o momento. Reajam.

 

 

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