O Brasil corre o risco de virar uma colônia digital?
Nos últimos meses, uma expressão começou a aparecer com mais frequência nos debates sobre inteligência artificial no Brasil: colônia digital. À primeira vista, o termo parece exagerado. Alarmista. Quase retórico demais. Mas ele aponta para um incômodo real que merece ser tratado com mais seriedade do que temos visto até agora.
O problema é que a discussão sobre Inteligência Artificial no país tem sido conduzida de forma fragmentada. Fala-se de regulação sem falar de infraestrutura. De soberania sem falar de data centers, chips e energia. De inovação sem considerar dependência tecnológica, riscos sistêmicos e estratégia de longo prazo.
E quando o debate é feito em pedaços, a chance de errar aumenta.
Inteligência Artificial não é apenas software. Ela é, antes de tudo, infraestrutura econômica. Modelos avançados não “vivem na nuvem” de forma abstrata. Eles rodam em data centers físicos, que exigem energia estável, conectividade, chips especializados, refrigeração, segurança e operação contínua. Tudo isso demanda investimentos bilionários e planejamento de longo prazo.
É por isso que países líderes em IA não tratam o tema apenas como inovação tecnológica, mas como questão estratégica.
Os Estados Unidos saem na frente não só porque inovam mais, mas porque a maior parte da infraestrutura crítica de IA está dentro do seu território. As grandes empresas de cloud são americanas, os centros de decisão estão lá, o capital está integrado ao ecossistema e os dados estratégicos, em grande medida, também.
A China, por sua vez, entendeu cedo que depender de infraestrutura externa era um risco geopolítico. Investiu pesado em parques computacionais, controle da cadeia de suprimentos e desenvolvimento de hardware próprio, mesmo diante de sanções e restrições internacionais.
A Europa adotou um caminho diferente, mas igualmente estratégico. Reconhecendo que não venceria apenas replicando os gigantes, passou a investir em infraestrutura local, processamento interno de dados, contratos com múltiplos fornecedores e um arcabouço regulatório que cria previsibilidade e reduz dependência excessiva.
E o Brasil?
O Brasil não possui, hoje, infraestrutura crítica de IA em escala. Não produz chips de ponta. Depende majoritariamente de hardware importado e de provedores estrangeiros para processamento e armazenamento de dados. Isso não é, por si só, um problema imediato. O problema surge quando essa dependência não é acompanhada de estratégia.
Para atrair investimentos pesados em data centers, energia e infraestrutura computacional, é preciso previsibilidade jurídica e regulatória. Nenhuma empresa investe bilhões em ambientes onde não sabe quais regras valerão daqui a cinco ou dez anos. Nesse contexto, tratar qualquer tentativa de regulação como censura ou entrave à inovação é um erro de diagnóstico.
Regulação, quando bem desenhada, não freia inovação. Ela cria trilhos. Ela sinaliza estabilidade. Ela reduz risco.
O verdadeiro risco para o Brasil não é regular a Inteligência Artificial. É não fazê-lo de forma coerente com o nosso estágio de desenvolvimento. É manter um ambiente de improviso, no qual grandes decisões de investimento ficam em suspenso, enquanto o país avança apenas como consumidor de tecnologia estrangeira.
E aqui vale um esclarecimento importante: soberania digital não significa isolamento, nem autossuficiência total. Nem todo país precisa criar um foundation model do tamanho dos gigantes globais para capturar valor com IA. Essa é uma falsa dicotomia.
O risco real não é não ter um modelo próprio.O risco é não ter estratégia.
Países capturam valor em diferentes camadas da cadeia da inteligência artificial: aplicações setoriais, uso estratégico de dados locais, produtividade empresarial, eficiência do setor público, especialização em nichos específicos e governança tecnológica.
Quando um país não escolhe conscientemente qual papel quer ocupar nessa cadeia, ele aceita o papel que sobra. E isso, sim, é o que pode nos levar a uma condição de dependência estrutural, aquilo que muitos chamam, de forma intuitiva, de colônia digital.
A pergunta que deveríamos estar fazendo não é se o Brasil vai ou não virar uma colônia da inteligência artificial. A pergunta correta é: qual papel o Brasil quer ocupar na economia da IA e que decisões precisam ser tomadas agora para viabilizar esse papel no médio e longo prazo.
Essa é uma discussão de país. E ela exige menos slogans e mais estratégia.
