26 de fevereiro de 2026
Politica

Caso Master: eleitor anticorrupção ressurge com novo alvo, a Justiça brasileira

Alcunhadas de ações pombalinas, as reformas adotadas por Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, homenageado em forma de estátua em um dos pontos mais icônicos da capital portuguesa, no desague da avenida da Liberdade, deram o prenúncio do que seria uma constante na história da colônia e a posteriori do independente Brasil: o convívio entranhado com a chagas da corrupção. Desde então, a malversação do dinheiro público é combatida de alguma maneira no solo do Novo Mundo. À época, até a mudança de capital de Salvador para o Rio de Janeiro foi determinada para que esquemas corruptos fossem desbaratinados.

O patrimonialismo e a venda de títulos de nobreza foram perenes durante todo o Império e talvez por uma falta de ordenamento jurídico que conseguisse imputar a corrupção como uma lesa ao estado, a fez recair como um problema de moralidade pessoal. O personalismo na corrupção pode ter sido um viés que moldou a percepção do brasileiro sobre o assunto. Ao deixar de ser visto como um mal comum a todos e mais como desvio de conduta, apenas os que entendiam o perjúrio de forma sistêmica abraçaram a pauta para tentar derrota-la.

Um novo capítulo de escândalos na república brasileira, que agora atinge em cheio o inimigo eleito pelo bolsonarismo, a cúpula da Justiça, pode gerar alguma comoção em um eleitor que ficou frustrado com os resultados do lavajatismo.
Um novo capítulo de escândalos na república brasileira, que agora atinge em cheio o inimigo eleito pelo bolsonarismo, a cúpula da Justiça, pode gerar alguma comoção em um eleitor que ficou frustrado com os resultados do lavajatismo.

Com um abismo educacional entre a elite e o lumpesinato, o tema ficou restrito aos letrados, fazendo com que até os dias de hoje, o impacto do assunto tenha muito mais peso nas classes mais abastadas da população. Pós Estado Novo, o surgimento da União Democrática Nacional, a UDN, que teve no político carioca Carlos Lacerda seu maior expoente, tinha como foco principal o combate ao getulismo e a defesa da moralidade nas instituições públicas. Não obstante, ao se colocar contra o maior líder popular, apelidado de Pai dos Pobres, a agremiação ficou conhecida como o Partido dos Ricos, reforçando a tese de que em um país com tantos problemas sociais graves, a discussão sobre corrupção era prioritária para a burguesia.

Mesmo sendo ponto adjacente para as classes mais baixas, o discurso anticorrupção tem um poder interessante de mobilizar a horda dos insatisfeitos. Vira ponto de argumentação e amparo de posição. Foi assim, que a primeira campanha política brasileira que teve o discurso moralizador no centro do debate saiu vitoriosa, em 1960. Com sua vassoura de limpeza ética, Jânio Quadros virou esperança após um final de governo conturbado de Juscelino Kubitschek, com inflação galopante e rompimento com o FMI. Caçador de Marajás, Fernando Collor assumiu esse protagonismo depois de um governo Sarney, que entrou pra história como o período da década perdida.

O Partido dos Trabalhadores, após a derrocada de Collor, virou esperança de ética para a burguesia brasileira, mas com o sucesso econômico do Plano Real, a massa populacional nem mesmo permitiu o PT sonhar com a presidência durante os anos 90, tendo sido Lula derrotado em primeiro turno, em 94 e 98. Entretanto, quando a crise do desemprego e a revogação do regime de bandas cambiais, que gerou desvalorização do real, até então praticamente pareado ao dólar, atingiram a estabilidade financeira das famílias, o PT virou opção com seu discurso de integridade, chegando ao poder em 2002.

Nem mesmo os escândalos do Mensalão e do Petrolão foram capazes de derrotar o PT nas eleições subsequentes. Com a economia indo de vento em popa, Lula se reelegeu e conseguiu fazer de Dilma Rousseff duas vezes eleita presidente da República, a segunda delas, em pleno processo de deflagração da Operação Lava Jato, que investigava os desvios da Petrobras. As classes mais altas, enfurecidas com o assunto corrupção, abandonaram o PT, desde 2005, quando o governo Lula foi acusado de comprar votos de parlamentares, dando uma mesada para que estivessem ao lado do governo. Os resultados eleitorais comprovam isso, mostrando as regiões de maior concentração de riqueza sempre votando nos candidatos antagonistas ao lulismo: Alckmin, em 2006, Serra, em 2010 e Aécio, em 2014.

Com o declínio econômico no segundo governo Dilma, que culminou em seu impeachment, apoiado por 68% dos brasileiros, segundo pesquisa Datafolha pouco antes da consumação e um cambaleante governo Temer, que tinha menos de 5% de aprovação popular, segundo o Ibope, de junho de 2018, Bolsonaro foi erguido com a incumbência de limpar o País. Diferente de Jânio, que num rompante renunciou, Collor, afastado após denúncias de seu próprio irmão e Lula, que viu seus principais assessores serem presos pelo Mensalão, Bolsonaro fez um governo de linha narrativa de enfrentamento ao sistema, e elegeu o Supremo Tribunal Federal e a Rede Globo como seus maiores inimigos.

Sua briga mudou de lado e deixou de ser no campo da política tradicional. Lula, seu oponente mais forte estava preso, e Bolsonaro apoiou-se no enfrentamento contra estruturas que eram de certa maneira periféricas na discussão. Com a soltura de Lula, após anulação de condenação pelo Supremo Tribunal Federal e uma repactuação editorial da maior emissora do País, Bolsonaro encontrou a dualidade necessária para ecoar seu discurso entre os eleitores que o apoiaram. Se do ponto de vista econômico Bolsonaro não conseguiu fidelizar o eleitor mais pobre, que recorreu a Lula, mostrando que o assunto corrupção não lhe era tão preponderante, a fidelização do eleitor de classe média e alta se cristalizou. É nesse quinhão, que segundo pesquisa da RealTime Big Data, seu filho Flávio Bolsonaro, já ultrapassa Lula, nas intenções de voto.

A baixa satisfação popular com o terceiro mandato de Lula, que dispersa a coesão de seus votantes, e um novo capítulo de escândalos na república brasileira, que agora atinge em cheio o inimigo eleito pelo bolsonarismo, a cúpula da justiça, pode gerar alguma comoção em um eleitor que ficou frustrado com os resultados do lavajatismo. Muitos dormiram com Lula preso e Bolsonaro presidente e acordaram com a situação absolutamente reversa. A implicação de ministros como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, vistos por esse eleitorado como aliados de primeira hora de Lula, um por ser um “perseguidor” de Bolsonaro e outro por ter sido advogado do Partido dos Trabalhadores, tem gerado uma linha de sustentação discursiva para o campo oposicionista.

Daniel Vorcaro, astro maior do caso Master, terá os holofotes apontados para ser o detrator de um complexo antro de corrupção, que envolve os mais diferentes atores da institucionalidade, função essa já exercida por alguns figurões, como Roberto Jefferson, ex-deputado, que denunciou o esquema do Mensalão e derrubou o ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu. O banqueiro é visto como esperança para o eleitor anticorrupção incorporar a deusa Minerva e causar a derrocada dos que detém o poder absoluto do sistema. Na busca por salvadores da pátria, o brasileiro às vezes precisa se contentar com Macunaíma, o anti-herói, imortalizado por Mário de Andrade.

 

 

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