26 de fevereiro de 2026
Politica

Ricardo Nunes está dinamitando o Carnaval de rua de São Paulo

Carnaval também é política. O desfile-comício sobre Lula da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí, que resultou no rebaixamento da escola, é o exemplo mais óbvio e recente. Além da bajulação ao presidente, os carros alegóricos e as fantasias foram elaboradas para ridicularizar uma parcela importante da sociedade brasileira — com viés político. À parte a hipótese de que se tratou de propaganda eleitoral antecipada, uma dessas leis que ninguém se importa em cumprir, é dada aos carnavalescos a liberdade de fazer críticas ou elogios a quem bem entenderem.

O Carnaval de rua, marcado pela espontaneidade, também transborda para a política com frequência. Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro fez críticas aos blocos, tomando a atitude isolada de alguns foliões como uma prova da degradação moral do Carnaval. Seu filho Flávio, que como pré-candidato à presidência tenta vender uma imagem mais moderada do que a do pai, na semana passada tratou de enaltecer o Carnaval, inclusive os cortejos de rua, como “uma das festas mais populares do planeta” e “um exemplo de como o Brasil pode ser criativo e fazer muito, mesmo com pouco”.

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes

Os donos e frequentadores de blocos de rua de São Paulo que o digam. Há tempos não se fazia tanto com tão pouco, ou melhor, com tanta falta de estrutura, de organização e de boa vontade do poder público. Sempre houve reclamações, algumas justas, outras nem tanto.

Mas este ano foi pior. A prefeitura da capital paulista, sob a gestão de Ricardo Nunes, por incompetência ou desinteresse, está dinamitando a festa. A verba para a infraestrutura caiu de 42,5 milhões para 30,2 milhões de reais. Tudo bem que a totalidade dos recursos venha de patrocinadores. O problema é a redução de 29% e o que isso representa na prática. Por exemplo, uma diminuição de 39% no número de banheiros químicos. No sábado, 14, a Rua dos Pinheiros, um dos lugares com maior concentração de blocos da cidade, dispunha de apenas meia dúzia de cabines. A mesma coisa no domingo, 15, no Bloco Ritaleena, em Santo Amaro. Além das filas, os reservatórios das cabines não davam conta. Alguns estavam prestes a transbordar.

A falta de organização era ainda mais impressionante. Este ano, a prefeitura terceirizou o planejamento do Carnaval para a Agência Quarter, uma empresa com mais de 180 milhões de reais em contratos com o setor de turismo do município e que, segundo divulgou o site Metrópoles, está registrada em nome de laranja. Em diversos momentos, foi um caos. Fruto de mau planejamento, um tumulto ocorrido no fim de semana de pré-Carnaval, no encontro dos públicos de dois megablocos, o do DJ Calvin Harris e o do Acadêmicos do Baixo Augusta, resultou em medidas excessivas nos dias seguintes, prejudicando blocos menores.

Na terça-feira de Carnaval, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) valeu-se de desnecessária truculência para dispersar os foliões após o encerramento — no horário marcado, às 18h — do bloco Vai Quem Qué, no Butantã. Foram usadas bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta, que afetaram inclusive adultos e crianças que estavam dentro de bares e restaurantes. No sábado, 21, o bloco Te Amo Mas Só Como Amigo foi impedido de seguir o trajeto registrado com antecedência, supostamente porque havia outro desfile algumas quadras adiante. O coordenador do bloco tentou negociar, em vão, com três funcionárias uniformizadas da Quarter, que pareciam perdidas. Não é por acaso que, a cada ano, cai o número de blocos pequenos e médios em São Paulo. O que se exige para o Carnaval é uma boa política pública. Não que a política pública se torne um Carnaval.

 

 

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