27 de fevereiro de 2026
Politica

Cajá contra a Hiena

Hélio Pellegrino, preso em 1969, acusado de subversão pelo regime militar, escreveu que “a tortura, quando vitoriosa, opera no sentido de transformar sua vítima numa desgraçada – e degradada – espectadora da própria ruína”. No recente livro publicado pela Editora Rocco, intitulado “A burrice do demônio”, podemos encontrar, coligidos, textos publicados pelo psicanalista mineiro na imprensa nacional, do final da década de 1960 até pouco antes de sua morte, em 1988. Dentre eles “A tortura política”, de 1982, que dialoga com esse escrito.

Quando o integrante do movimento estudantil e ainda militante pela democracia Cajá se encontra com o historiador Yussef para escreverem sobre as memórias que perpassam a vida do primeiro com as pesquisas do segundo (e também com a memória herdada de seu pai, também participante do movimento estudantil durante os anos de chumbo), algumas feridas são revisitadas, à medida que aquele que lembra as permite, as acessa, as divulga, num cuidado ético aliado a um compromisso democrático, que demonstra que Edival Cajá não saiu derrotado do sofrimento imposto pelos militares a seu corpo e a seu espírito.

Ao buscar pelo cliente dentre possíveis presídios e cadeias usados pelo aparato militar, nos dias seguintes ao sequestro feito pelos agentes da repressão, às 20h do dia 12 de maio de 1978, o advogado Eduardo Chaves Pandolfi encontrou Cajá, ao ouvir de outros presos: “Ele está sim, está sendo muito torturado, vão matar de tanto espancamento. Dá para a gente ouvir os uivos, os berros, está sendo torturado. Está aqui, sim”.

O homem que coordenava as ações de Pandolfi: Dom Hélder Câmara. O estudante era membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, que tinha à frente Câmara como arcebispo emérito. O religioso teria sido responsável não só pela libertação de Edival, como teria contribuído para o início do fim da repressão, segundo as memórias de Cajá, e para o pontapé inicial da abertura política. Para Cajá, sua prisão teria sido fruto de “uma operação conjunta do Exército com a Polícia Federal. Foi a última operação do DOI-CODI, do Brasil, porque, com esta mobilização e com as denúncias que Dom Hélder fez no exterior, ficou o governo pressionado por todos, interna e internacionalmente, para ter que explicar aquele sequestro e aquelas torturas e apresentar o preso, reconhecer que eu estava preso e que eles não podiam mais me eliminar, nem me incluir, posteriormente, na tristemente famosa lista dos desaparecidos políticos”.

Não ter sucumbido e insistir na divulgação de sua luta pelo aprofundamento e alargamento da democracia faz de Cajá um revés do torturado apresentado por Pellegrino. Cajá acusa, livre, os crimes cometidos pelo Estado brasileiro. Brada. Grita. Recompõe a relação com seu corpo e suas memórias, esfacelados pela tortura, e reintegrados, como um processo de anastilose, em sua constituição subjetiva.

Apesar de a tortura ter o condão de fazer com que o torturado negue sua condição de sujeito humano, Cajá não cede e, no dia 28 de julho de 1980, inicia um processo na Justiça comum contra seus torturadores, julgado e arquivado pela 7ª Auditoria Militar do Exército “por falta de prova testemunhal”, mesmo havendo prova material: o laudo médico do IML.

Nele, afirmou-se que Cajá foi “ferido com instrumento contundente”, na mesma Auditoria Militar que o condenou. Assim, Cajá se aproxima do segundo exemplo de torturado ilustrado pelo psicanalista. O necrófilo torturador, que “à semelhança da hiena” busca “alimentar-se de um cadáver” capitula, pois o torturado não só “se nega a morrer”, como denuncia, e, na pior expectativa do carrasco, vive!

Então, adormece o Estado torturador.

[Mas fale baixo, pois ele tem o sono leve!]

Nota: Essas são algumas linhas sobre trabalho que tenho desenvolvido, junto à Cajá, a partir de suas memórias e das de meu pai, falecido em janeiro de 2024, junto a um arquivo documental, e a relação de ambos com Dom Hélder Câmara durante a ditadura militar

 

 

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