26 de fevereiro de 2026
Politica

El Mencho: por que a morte de líderes do crime organizado raramente derruba sua estrutura?

A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, “El Mencho”, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), projeta uma imagem social e política de vitória que, embora relevante do ponto de vista operacional, exige uma leitura mais cautelosa.

A eliminação de uma liderança criminosa não equivale necessariamente à desarticulação da organização que ela comandava. A máquina criminosa permanece: as cadeias logísticas continuam operando, os fluxos financeiros permanecem ativos e as estruturas de comando se reorganizam rapidamente. Os líderes são substituídos, mas o sistema criminoso permanece organicamente funcional e eficaz, especialmente quando baseado no narcotráfico e na lavagem de dinheiro. A resposta imediata do CJNG após a operação expôs essa realidade.

Bloqueios de estradas, veículos incendiados, ataques coordenados, confrontos armados em vários estados, cidades paralisadas e uma população submetida ao medo coletivo. Não houve improvisação. Houve estratégia da organização criminosa, que opera com métodos de guerra de guerrilha.

Nesse contexto, a violência brutal operada pela organização cumpre um claro papel de demonstração social baseada na coerção, buscando reafirmar o poder, testar os limites institucionais e impor o terror como mecanismo de controle.

Organizações criminosas brasileiras que atuam na mesma linha dos cartéis mexicanos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), há muito ultrapassaram o modelo clássico de criminalidade. Operam como estruturas hierárquicas e financeiramente robustas, com ramificações interestaduais, conexões internacionais, sofisticadas redes de lavagem de dinheiro e significativa capacidade de mobilização coordenada. São sistemas organizados.

Prisões de chefes, operações de impacto e neutralizações estratégicas são instrumentos indispensáveis ​​para a atuação do Estado. Mas revelam limites evidentes diante de organizações resilientes, adaptáveis ​​e profundamente enraizadas em fluxos econômicos ilícitos. O problema central é menos visível e mais profundo.

O crime organizado contemporâneo não depende exclusivamente da violência. Ele se sustenta, sobretudo, pelo poder econômico, pela infiltração em setores formais, pela sofisticada ocultação patrimonial e pela diversificação de atividades ilícitas. Muitas operam segundo a lógica do controle territorial de comunidades pouco desenvolvidas, sem a presença do Estado, o que lhes permite desenvolver uma capacidade de influenciar grupos sociais setorizados. Quando essas estruturas conseguem lavar recursos em larga escala, manter cadeias logísticas complexas e coordenar ações simultâneas, o impacto vai além da dimensão da Segurança Pública. Ele atinge a própria percepção da autoridade estatal e constitui um desafio à soberania do Estado.

México e Brasil, cada um em seu próprio contexto, compartilham uma adversidade estrutural. A eliminação da liderança produz efeitos táticos relevantes, mas raramente efeitos sistêmicos duradouros de natureza estratégica. O tráfico de drogas e armas não entra em colapso e as operações ilícitas não cessam, pois o fluxo financeiro que sustenta as organizações criminosas não desaparece. Confrontar organizações dessa magnitude exige mais do que respostas emergenciais ou vitórias simbólicas. Exige um sufocamento financeiro eficaz, inteligência integrada, desarticulação logística, rigor penal consistente e continuidade estratégica por parte dos Estados.

O verdadeiro desafio, portanto, é desmantelar as estruturas que garantem a sobrevivência dessas redes, grupos e organizações delinquentes, cada vez mais insurgentes, infiltrados no Estado e em instituições socialmente dominantes.

 

 

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