25 de fevereiro de 2026
Politica

Polilaminina: as pessoas não querem a ciência, querem o milagre

A imagem da polilaminina, a que se atribui poderes divinos de fazer os tetraplégicos voltarem a andar, possui a forma de cruz, confirma sua maior pesquisadora, a bióloga brasileira Tatiana Sampaio. Na cacofonia das redes, a substância é denominada “proteína de Deus”. Remete aos nossos mais profundos desejos e aspirações, de recuperação dos desvalidos, como quando Jesus Cristo fez andar um homem após 38 anos de paralisia, numa história narrada em João (5), que ficou conhecida como o “Enfermo de Betesda”: “Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito e anda. Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava”.

Soma-se a esse ambiente fantástico um país com baixa autoestima que está à eterna procura de heróis. Em que políticos procuram surfar sobre qualquer assunto que lhes renda popularidade. Em se tornar uma celebridade tornou-se uma espécie de objetivo socialmente hiperestimulado.

Tatiana Sampaio lidera a pesquisa com a polilaminina
Tatiana Sampaio lidera a pesquisa com a polilaminina

Nesse panorama, sobra pouco espaço para a chamada ciência dura. Com seus mecanismos de controle, de rechecagem, de aferições lentas e cuidadosas. Com a necessidade de testar cada passo dado e ainda produzir papers públicos a respeito. Com a obrigação de ser cética a todo momento, de testar todas as hipóteses contrárias até chegar a um resultado aferível objetivamente.

Por óbvio, seria extraordinariamente benéfico que a ciência brasileira chegasse a uma das mais espetaculares descobertas da humanidade: fazer os gravemente acidentados, sem esperança, recuperarem seus movimentos. Uma conquista da mesma dimensão do encontro dos novos continentes pelos espanhóis e portugueses, da energia elétrica, das vacinas. É compreensível, portanto, todo o furor em torno da molécula. Uma ansiedade em deixar os processos de lado, vistos como meramente protocolares, para os que sofrem voltem a andar. Ser contra isso é se posicionar como um incorrigível estraga prazeres, um sádico.

O problema é que a ciência real é inimiga das certezas. Todo seu conhecimento acumulado por séculos é provisório, mesmo tendo nos levado tão longe. Está na dúvida? Leia um livro qualquer sobre a história da medicina, ou da física, da astronomia. O saber consagrado em uma época passou a ser desprezado na época seguinte, como ingênuo e até mesmo perigoso. É preciso ter muito cuidado em cada passo para não cair em armadilhas. É difícil chegar à verdade na ciência e nada garante que se manterá assim pela eternidade.

É certo que muitos cientistas jamais foram reconhecidos por seus pares em seu tempo, muito menos pelos poderosos. Galileu quase foi para a fogueira porque disse que a Terra se movia, para dar o exemplo mais óbvio. No século passado, o alemão Alfred Wegener nunca teve aval sobre sua teoria de que todos os continentes do planeta antes formavam uma só massa – a hipótese da deriva continental. Ele estava certo pelos dados que temos hoje.

Ou seja, é comum cientistas pioneiros enfrentarem muita oposição e mesmo caírem em desgraça por sua ousadia. O terreno, portanto, é pantanoso. Um dos fenômenos mais difíceis de se provar na ciência é o de causa e consequência. Um filósofo chamado David Hume, do século 18, um dia escreveu que se uma coisa acontece antes de algo, nem sempre essa coisa é responsável pelo algo que seguiu. Traduzindo para uma linguagem mais ordinária: se seu despertador toca às cinco da manhã e depois o sol se levanta, não significa que seu despertador seja o responsável pelo sol surgir. Ou, se alguém ingeriu polilaminina e depois voltou a se movimentar, é necessário provar se de fato estamos numa situação de causa e consequência ou se há outro fator envolvido. Esse árduo esclarecimento é fazer ciência.

A verdade é que, neste momento das discussões, ainda não sabemos o que ocorrerá com as pesquisas. Se Tatiana Sampaio será de fato um grande vulto da nossa história; se a polilaminina irá se revelar um fracasso, ou mesmo um êxito modesto. A única saída para essa dúvida honesta ainda reside nos rígidos e muitas vezes frustrantes métodos científicos, que não temos muita paciência ou empenho para seguir. É mais fácil e existencialmente bem mais estimulante apostar em milagres.

 

 

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