Você pode me vender uma hora do seu tempo?
A vida é uma bênção singular e única. Desequilibrá-la significa contrariar os próprios princípios da natureza, que sempre se inclinam à preservação, à ordem e à harmonia. Conheço profissionais bem sucedidos que conseguem manter uma vida harmoniosamente organizada, pois conciliam as exigências de suas funções como executivos(as) ou líderes com o exercício responsável dos papéis de pais e mães, cônjuges e cidadãos. Qual é o segredo? Sabem compartimentalizar, com lucidez, cada uma dessas dimensões.
Entre essas responsabilidades, destaca-se a dedicada aos filhos — missão e dever dos quais não se pode fugir. É uma tarefa nobre, embora esteja entre as mais desafiadoras que nos foram confiadas pelo Criador. É preciso nutri-los afetivamente, pois a segurança do amor paterno e materno é o fulcro de uma boa educação. Ainda assim, veem-se nas escolas crianças órfãs de pais e mães vivos, enquanto a falta de tempo se converte, com frequência, em argumento automático e cômodo, quando quase sempre se trata apenas de reorganizar prioridades.
A vida profissional, apesar de suas elevadas exigências, pode, sim, ser compatibilizada com uma vida familiar equilibrada. É evidente que cada família enfrenta desafios distintos (longas jornadas, deslocamentos, múltiplos empregos, pressões emocionais), mas, dentro das possibilidades de cada um, o equilíbrio é uma construção diária. Trata-se, em essência, de estabelecer prioridades e administrar o tempo com discernimento e pragmatismo.
E nem tudo se limita apenas ao tempo, pois, mais importante que a quantidade de horas, é a qualidade do afeto: abraços, palavras, beijos, estar presente por inteiro e não apenas fisicamente. O diálogo adequado à idade, o acompanhamento do rendimento escolar, a presença nos momentos de lazer ou de doença e a transmissão — pela palavra e pelo exemplo — de valores éticos e de cidadania são benfazejas ações que podem ser praticadas diariamente, com maior intensidade nos fins de semana, mesmo por pais ou mães que trabalham ou estudam mais de oito horas por dia.
Da mesma forma, quando exercida com equilíbrio, a autoridade é manifestação de afeto e traz segurança para a vida adulta. É fundamental que pais, mães e responsáveis compreendam que a imposição de limites é uma das mais importantes e difíceis expressões de amor, pois, quando bem dosados, oferecem estrutura e proteção. São pertinentes as palavras de Marilda Lipp, doutora em Psicologia pela Unicamp: “O comportamento frouxo não faz que a criança ame mais os pais. Ao contrário, ela os amará menos, porque começará a perceber que eles não lhe deram estrutura, se sentirá menos segura, menos protegida para a vida. Quando os pais deixam de punir convenientemente os filhos, muitas vezes pensam que estão sendo liberais. Mas a única coisa que estão sendo é irresponsáveis.”
Permita-me, caro leitor ou leitora, recontar uma pequena história que ouvi há muitas décadas:
Todos os dias, a família vivia o mesmo ritual: o pai, extenuado, chegava à noite, após um duro dia de trabalho. O filho, com os olhos cheios de admiração, abraçava-o. Trocavam algumas palavras sobre a escola e se despediam com beijos na face, o boa noite e o tradicional “durma com os anjos”.
Certo dia, com a voz tímida, o garoto perguntou ao pai, que acabara de chegar:
— Papai, quanto você ganha por hora?
Surpreso, o pai desconversou. O menino insistiu:
— Sim papai, mas quanto você ganha por hora?
O sempre ocupado pai prometeu responder ao filho no dia seguinte, mas a pergunta o inquietou. Passado algum tempo, dirigiu-se ao quarto do filho e o encontrou deitado.
— Filho, você está dormindo?
— Ainda não, papai! — respondeu o garoto.
— Querido, eu ganho 60 reais por hora.
O menino levantou-se, abriu a gaveta e separou seis notas de dez reais.
Abraçou o pai com ternura e perguntou:
— Você pode me vender uma hora do seu tempo?
Essa singela e conhecida história convida à reflexão sobre o tempo que dedicamos a nossos filhos e filhas. Mais cedo do que imaginamos, eles compreenderão a árdua luta de pais e mães pela sobrevivência profissional, o necessário cumprimento dos deveres no papel de provedores e o fato de que a dedicação ao trabalho é fator de realização pessoal e modelo de responsabilidade. Mas também podem sentir-se relegados a segundo plano, ou até negligenciados, quando a gestão do tempo em família não traduz, na prática, o valor e a prioridade que eles têm em nossa vida.
Busca-se, evidentemente, a prevalência do bom senso, da medida e do equilíbrio entre a vida profissional e a vida familiar. Quando trabalho e vida pessoal se equacionam, estabelece-se um natural ganha-ganha de bem estar, propósito e organização. Um(a) profissional realizado(a) e uma vida financeira estável proporcionam paz, prosperidade e tranquilidade que são usufruídas por toda a família.
Não se trata, portanto, de dividir o tempo ao meio, mas de construir um ritmo que permita crescer na carreira sem sacrificar aquilo que nos faz humanos: saúde, descanso, boas relações e os deveres familiares e sociais.
Essa sabedoria está enraizada na cultura italiana, sintetizada na expressão “vivere per lavorare, o lavorare per vivere?”: viver para o trabalho ou trabalhar para viver?
