26 de fevereiro de 2026
Politica

Lista mostra que aliados de Flávio pagaram para impulsionar posts nas redes contra Lula após desfile

O governo tem uma lista mostrando que 55 apoiadores da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto pagaram para impulsionar publicações contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais, após o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói. O levantamento é do PT e traz o nome do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), como o político que desembolsou o maior valor: de R$ 600 a R$ 699 pelos anúncios.

Senadores, deputados federais, estaduais e vereadores também são citados como participantes de uma ação coordenada para criticar Lula. Nesta quarta-feira, 25, uma pesquisa de intenções de votos da AtlasIntel, realizada logo depois do carnaval, revelou o avanço de Flávio na corrida eleitoral.

Lula no desfile da Acadêmicos de Niterói; escola homenageou o presidente e foi rebaixada para a segunda divisão do carnaval carioca
Lula no desfile da Acadêmicos de Niterói; escola homenageou o presidente e foi rebaixada para a segunda divisão do carnaval carioca

Pela primeira vez, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) aparece em situação de empate técnico com Lula em eventual segundo turno da eleição para o Planalto, chegando a ficar um décimo à frente do petista.

Embora a sondagem feita pela internet tenha causado apreensão no governo, a ordem é para que ministros minimizem esse resultado. O discurso oficial é de que o revés sofrido pelo chefe do Executivo depois do desfile que o homenageou, no último dia 15, será passageiro. Por essa avaliação, nada pode ser medido sob o impacto de um acontecimento e é preciso esperar os fatos decantarem.

Nos bastidores, porém, o Planalto e o PT preparam uma artilharia para desenterrar denúncias contra Flávio, como a do escândalo da “rachadinha”. Em 2020, o senador foi acusado pelo Ministério Público do Rio de chefiar uma organização criminosa que recolhia parte do salário dos funcionários de seu gabinete, quando era deputado estadual, para benefício próprio. Ele sempre negou as acusações.

Até agora, Flávio vinha sendo poupado pelos petistas, mas uma parte da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), majoritária no partido de Lula, considera que a estratégia de guardar os ataques para outra etapa foi um erro. O argumento para esse diagnóstico é que a tática acabou deixando o adversário crescer.

Na semana passada, o PT entrou com cinco ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sustentando que Flávio, o PL, o governador de Minas, Romeu Zema (Novo) e um grupo de aliados recorreram a conteúdos falsos contra o presidente para influenciar no resultado da disputa. Outra leva de representações será protocolada nos próximos dias. Trata-se de um contra-ataque a bolsonaristas que ingressaram no TSE acusando Lula de propaganda eleitoral antecipada por causa da homenagem promovida pela Acadêmicos de Niterói.

Com 70 páginas, a lista de nomes que chegou ao Planalto traz posts com publicidade paga criticando o desfile e associando o presidente à corrupção e a ironias direcionadas a grupos religiosos, como o dos evangélicos, já que uma ala da escola trazia latas de “família em conserva”.

Uma dessas publicações foi feita pelo deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (Solidariedade-SP), e usou inteligência artificial (IA) para exibir Lula fantasiado na Avenida Marquês de Sapucaí, no Rio, ao lado da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja.

“Eu sou o Lula, e você me conhece, prometi picanha e entreguei confete. Mas não se estresse. Sou Lula, me dá um dinheiro aí”, diz o refrão de um enredo feito especialmente para o vídeo, que mostra o presidente num carro alegórico onde estão fincadas bandeiras com os dizeres “mensalão”, “petrolão” e “roubo do INSS”. Lula samba na avenida recebendo dólares e reais.

Para impulsionar suas postagens nas redes, políticos e seus parentes desembolsaram valores que variam de R$ 100 a R$ 699, de acordo com o relatório ao qual o Estadão teve acesso. A faixa intermediária é de R$ 300. Irmão do ex-presidente e pré-candidato a deputado federal pelo PL, o empresário Renato Bolsonaro, por exemplo, consta da lista que circula no Planalto, além de vários influenciadores digitais.

Se eles pagaram o carnaval, por que a gente não pode pagar o impulsionamento de uma postagem na rede social?

Paulo Pereira da Silva, deputado e presidente do Solidariedade

“Se eles pagaram o carnaval, por que a gente não pode pagar o impulsionamento de uma postagem na rede social?”, perguntou Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, numa referência aos R$ 12 milhões destinados pelo governo às escolas de samba. “O PT vai entrar na Justiça falando o quê? O dinheiro usado foi meu, não foi dinheiro público”, disse.

As postagens do deputado alcançaram 187,5 mil visualizações. Mas o maior volume de interações, segundo o levantamento, foi obtido por Ricardo Nunes (de 375 mil a 400 mil). Procurado, o prefeito não quis se manifestar.

“Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei. Acorda, Brasil”, afirma a mensagem de Nunes que, no dia 17, trouxe o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), falando em dois pesos e duas medidas para Bolsonaro e Lula.

“Se o desfile (…) não foi propaganda antecipada, o que será, então? Por que não haverá o mesmo rigor agora? E, não havendo, quanto elásticas serão as interpretações a partir deste momento?”, questionou Tarcísio, que já teve o nome cotado para disputar o Planalto, mas, com Flávio no páreo, deve concorrer à reeleição. O governador classificou o desfile da escola de Niterói como “propaganda política descarada” e “desrespeito aos evangélicos”.

Prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, impulsionou publicação com vídeo do governador Tarcísio de Freitas criticando Lula
Prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, impulsionou publicação com vídeo do governador Tarcísio de Freitas criticando Lula

No ranking das postagens que têm Lula como alvo, Paulinho da Força ficou em segundo lugar, somente atrás do prefeito. A análise do PT indica que, depois das publicações do presidente do Solidariedade, os posts com mais interações foram os do deputado estadual do PL fluminense Renan Jordy (112,5 mil) e do secretário de Governo de Minas Gerais, Marcelo Aro (110 mil).

Em vídeo nas redes sociais, Aro disse que o jingle das campanhas de Lula foi cantado “70 vezes” na passagem da Acadêmicos de Niterói pela Sapucaí. “Para piorar tudo, a escola de samba ainda fez uma ala chamada de Neoconservadores. E sabe quem eles colocaram lá? O pessoal do agronegócio (…), os evangélicos, os católicos e os conservadores em geral”, destacou Aro. “Zombaram de quem conserva valores e princípios. Para eles, quem presta são os revolucionários, os comunistas e os que querem destruir a família.”

Relator da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública (PEC), o deputado Mendonça Filho (União Brasil-PE), por sua vez, pagou para impulsionar um vídeo intitulado “O PT sambando na cara dos brasileiros com dinheiro público”. O nome dele é outro que aparece na lista produzida pelo partido.

“Essa lista parece coisa de partido totalitário que quer intimidar adversários, mas não me intimidam. Aqui não é ditadura”, reagiu Mendonça Filho. “Eu sustento a minha posição. Quem está errado é quem usou o dinheiro público para essa aberração e agora vem com essa atitude autoritária”, afirmou.

Mendonça disse que “todo político” impulsiona suas postagens. “É uma prática cotidiana”, observou. Atualmente, a lei proíbe impulsionamento pago de propaganda eleitoral negativa. O TSE propôs, no entanto, que críticas aos governos, mesmo aquelas pagas nas redes sociais, não caracterizem mais propaganda antecipada negativa, desde que não façam referência às eleições.

A proposta consta de resolução preparada pela presidente do TSE, Cármen Lúcia. As normas que vão orientar a atuação da Justiça Eleitoral neste ano precisam ser aprovadas até 5 de março.

“Após as convenções partidárias, todos obedecem as regras eleitorais. Quem quer interditar manifestações nas redes sociais agora não aceita a democracia plena”, insistiu Mendonça.

Os deputados Eduardo Pazzuello (PL-RJ), ex-ministro da Saúde no governo Bolsonaro, e Júlia Zanatta (PL-SC) e o senador Dr. Hiran (PP-RR) também aparecem no relatório sobre os políticos que investiram em impulsionamentos contra Lula depois do carnaval. Nenhum deles, porém, quis comentar o assunto.

Deputada Júlia Zanatta (PL-SC) impulsionou publicação com críticas a Lula relacionadas ao desfile da Acadêmicos de Niterói
Deputada Júlia Zanatta (PL-SC) impulsionou publicação com críticas a Lula relacionadas ao desfile da Acadêmicos de Niterói

 

 

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