Direita retoma atos de rua com foco em grudar Lula e STF ao Master e teste para Flávio
BRASÍLIA E SÃO PAULO – Sem o pastor Silas Malafaia na organização, a direita volta a realizar atos de rua por todo o País no próximo domingo, 1º, com o esforço de desgastar o governo Lula e o Supremo Tribunal FederaL (STF) com o escândalo do caso Master.
O ato na Avenida Paulista também será um teste para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). É sua primeira participação num evento do tipo após lançar a sua pré-candidatura à Presidência da República, cada vez mais consolidada nas pesquisas.

Sob o mote genérico de “Acorda, Brasil”, os protestos foram convocados pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) com o intuito de desgastar a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
As fraudes do Banco Master, liquidado por determinação do Banco Central, vêm proporcionando uma sucessão de desdobramentos – o principal deles acertou em cheio a mais importante Corte do País. O Estadão mostrou a ligação de um empreendimento de familiares de Toffoli com fundos ligados ao Master, e o Globo revelou um contrato de R$ 129 milhões entre o banco e o escritório da esposa de Moraes, Viviane Barci, por exemplo.
Ao contrário dos protestos bolsonaristas do ano passado, a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, não está entre os motes da convocação. Apesar de parlamentares do PL pregarem um tema genérico como o “reequilíbrio dos Poderes” como motivo para o evento, o Master aparece como o grande propulsor da convocação nos discursos deles.
“A gente tem 129 milhões de motivos para pedir a queda de um ministro do Supremo, e isso é democrático”, diz a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), em referência ao valor do contrato.
O ato ocorre em meio a críticas de alas próximas aos irmãos Bolsonaro acerca de uma suposta tentativa de promoção pessoal de Nikolas. A iniciativa do deputado desagrada aqueles para quem o protagonismo no momento deveria recair unicamente sobre Flávio, ungido sucessor do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Lideranças do PL vêm tentando pacificar os ânimos na direita, que tem presenciado uma troca de artilharia entre o grupo dos irmãos Bolsonaro e aquele mais próximo de Nikolas, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
As críticas tratam de uma suposta falta de engajamento desse grupo na pré-candidatura de Flávio. A liderança do deputado mineiro na organização do evento, no entanto, reforça a percepção de seus críticos de que ele segue carreira independente, longe da área de influência dos Bolsonaro.
Na quarta-feira, 25, o partido se reuniu a portas fechadas para pregar união em torno de Flávio, depois que o irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, alfinetou Nikolas e Michelle. No encontro, o senador criticou aqueles que querem “separá-lo” da dupla, e o deputado mineiro prometeu se empenhar na campanha do aliado. A ex-primeira-dama faltou ao evento.
Aliados do senador veem vantagens e desvantagens na realização do ato de Nikolas. Por um lado, insufla o eleitorado contra o governo Lula e o STF. Isso porque o noticiário vem trazendo uma série de motivos para ajudar a direita a desgastar o presidente, da crise com a Acadêmicos de Niterói no carnaval às suspeitas envolvendo o filho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no escândalo do INSS.
Por outro, no entanto, focar demais no caso Master pode ser perigoso, uma vez que muitos políticos da órbita do bolsonarismo estão e podem ser implicados na crise. “É um tiro no escuro”, resume uma pessoa próxima a Flávio.
Um dos exemplos é o governador bolsonarista do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Daniel Vorcaro, dono do Master, afirmou em depoimento à polícia que conversou “algumas vezes” com Ibaneis sobre a venda da empresa ao Banco Regional de Brasília (BRB) e citou que o governador esteve pessoalmente em sua casa. Ibaneis nega ter tratado do assunto Master.
Outro caso é do governador fluminense, Cláudio Castro (PL). A Rioprevidência, autarquia pública responsável por gerir o Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro, aportou R$ 960 milhões no Master. No mês passado, Castro exonerou o presidente do fundo, Deivis Marcon Antunes, depois que ele foi alvo da polícia numa investigação sobre supostas irregularidades.
“Se você é brasileiro, eu tenho uma pergunta para você: qual escândalo precisa acontecer para que você diga ‘chega’? É inacreditável o limite que o brasileiro aguenta de impunidade”, declarou Nikolas num vídeo de convocação para o ato, com 1 milhão de visualizações, antes de listar as últimas notícias do caso Master ligadas ao governo Lula e ao Supremo. A publicação é intitulada “Fora Lula, Moraes e Toffoli – 01.03 – Acorda, Brasil”.
Da manifestação de 25 de fevereiro de 2024, a primeira com Bolsonaro no carro de som após deixar a Presidência da República, até o 7 de Setembro do ano passado, quando manifestantes estenderam uma bandeira gigante dos Estados Unidos em meio ao tarifaço do presidente americano, Donald Trump, Malafaia vinha organizando os principais atos de rua da direita.
Agora, com Bolsonaro cumprindo a pena de 27 anos de prisão no presídio da Papudinha, em Brasília, o pastor passou o bastão. Ele vai comparecer ao evento, mas a organização do ato em São Paulo ficará a cargo do deputado estadual Tomé Abduch (Republicanos), que herdou da ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) a liderança com o grupo NasRuas.
“Eu organizei todos os outros atos porque foram um pedido do Bolsonaro. Nunca organizei porque eu quis. Agora tomaram a frente, não tem nenhum problema, não sou dono dos eventos, não sou político”, diz Silas Malafaia.
Os governadores do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), e de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidatos a presidente, e Tarcísio não devem comparecer – o que pode transformar o protesto num ato de pré-campanha de Flávio. Eles compareceram a manifestações a favor de Bolsonaro na capital paulista no ano passado, mas faltaram nas últimas duas edições, em agosto e setembro de 2025.
