5 de março de 2026
Politica

Notas de Flávio sobre chapas mostram aliados rifados por pragmatismo e força de família Bolsonaro

BRASÍLIA – De pé diante de uma plateia de deputados e senadores, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) procurou os olhares de alguns aliados que estavam sentados no canto da mesa disposta no palco.

“Eu queria agradecer ao Portinho. Ele é a pessoa que, entendendo o jogo nacional, assim como o Marinho fez dando exemplo, abrindo mão do seu projeto pessoal. Quero deixar meu compromisso que preciso de você na minha campanha”, discursou Flávio, citando os senadores Carlos Portinho (PL-RJ) e Rogério Marinho (PL-RN), para em seguida procurar por outro aliado.

PL monta palanque para Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro, com definição de nomes ao Senado e governo estadual
PL monta palanque para Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro, com definição de nomes ao Senado e governo estadual

“Em Goiás… Gayer, eu vou fazer o que tiver que fazer, eu vou quantas vezes que tiver que ir a Goiás, eu vou fazer entrevista ao seu lado, você vai ser eleito senador”, prometeu ao deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), sob aplausos dos outros presentes.

Flávio aproveitou a reunião a portas fechadas, feita na sede do Partido Liberal na quarta-feira, 25, para enaltecer os aliados que haviam aberto mão de concorrer aos cargos que gostariam ou sido prejudicados em detrimento de um arco de alianças mais amplo para as eleições de outubro.

“A gente vai para essa campanha com um cenário muito mais favorável, acreditem se quiserem, que 2022. O presidente Bolsonaro optou na época por não participar efetivamente da tomada de decisão nos Estados porque isso geraria inevitavelmente consequências para a base dele no Congresso. Porque a gente tem que tomar decisões que vão desagradar as pessoas, agradar outras”, disse o senador na ocasião.

As anotações feitas por Flávio sobre as alianças eleitorais nos Estados – documento foi deixado em sala após coletiva do senador e fotografado pelo Estadão e outros veículos de imprensa – confirmam a preferência da cúpula do PL por acordos pragmáticos acima do apoio a políticos leais ao bolsonarismo. Assim como Portinho, Gayer e Marinho, outros aliados foram rifados – movimento que gera insatisfação na direita, algo que Bolsonaro tentou evitar em 2022.

O comentário de Flávio em direção a Gayer se deve ao fato de o deputado goiano ter se incomodado com a chancela do partido à pré-candidatura de Wilder Morais (PL) ao governo de seu Estado. Para Gayer, Wilder driblou a orientação anterior de Bolsonaro de não arranjar briga com o governador Ronaldo Caiado (PSD), que tenta fazer o vice Daniel Vilela (MDB) como seu sucessor. O deputado precisa do apoio dos prefeitos de Goiás, a grande maioria alinhados a Caiado, para pavimentar seu caminho ao Senado.

Marinho, por sua vez, que diz ter o sonho de se eleger governador do Rio Grande do Norte, abandonou o projeto eleitoral para coordenar a campanha de Flávio à Presidência, a pedido de Bolsonaro. Já Portinho trabalhava para se reeleger no Senado, e cogitou mudar de partido para concorrer se não tivesse apoio do PL – a cúpula do partido o convenceu a ficar depois que o governador Cláudio Castro (PL) e Márcio Canella (União), prefeito de Belford Roxo, ficaram com as vagas.

No Ceará, o bolsonarista Eduardo Girão (Novo) deve ser preterido pelo ex-presidenciável Ciro Gomes (PSDB) – mesmo após anos de críticas e ataques ao bolsonarismo. A negociação com o ex-ministro (e hoje desafeto) de Lula, que é popular e já foi governador do Estado e pode aumentar as chances de o PL compor o governo cearense, foi motivo do racha entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os enteados no fim de novembro.

Girão diz ver essa articulação pró-Ciro como um projeto de poder pessoal, e que bolsonaristas no Ceará não gostaram da associação do PL com “um projeto de esquerda, que durante tantos anos falou mal, votou de forma diferente ao que sempre defendemos”. Ele afirma acreditar numa reviravolta que una PL e Novo na disputa.

“A nossa candidatura até agora é a única conservadora no Ceará. Vamos seguir esperando a adesão daqueles que realmente são de direita. Eu espero que nos próximos meses a gente possa estar juntos”, disse o senador.

Em Pernambuco, as anotações de Flávio trazem o nome da governadora Raquel Lyra (PSD) como opção, mas aliados dela relatam ao Estadão surpresa com a notícia. Uma pessoa próxima a Raquel afirma que a lista parece uma “lista de desejos”, porque o PL não tem opção à direita para enfrentar o prefeito de Recife, João Campos (PSB), que reúne mais apoio da esquerda.

Enquanto isso, a direita está rachada em Pernambuco: o ex-ministro do Turismo, Gilson Machado, que pretendia se lançar, perdeu espaço para a família Ferreira, que controla o partido no Estado, e se filiou ao Podemos. Hoje Raquel é mais próxima do PT do que do PL.

A exceção à estratégia pragmática é a família Bolsonaro, tornada prioridade mesmo em relação a bolsonaristas com redutos eleitorais consolidados. A escolha de apoiar as candidaturas ao Senado do ex-vereador Carlos Bolsonaro em Santa Catarina e de Michelle no Distrito Federal acabou por escantear nomes importantes da política local – na contramão do que tem sido feito nos demais Estados.

Trata-se dos casos do senador Esperidião Amin (PP-SC) e o governador Ibaneis Rocha (MDB-DF). Amin tinha acordo com o PL para ter apoio à reeleição, mas terá a vida dificultada pela dobradinha Carlos e Caroline de Toni (PL-SC). E Ibaneis corre o risco de ficar sem a vaga no Senado em razão da chapa pura bolsonarista, com Bia Kicis (PL-DF) ao lado de Michelle.

Algumas lideranças políticas saem queimadas das anotações de Flávio. A mais gritante nota indica que o deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) pediu R$ 15 milhões para não ser candidato no Mato Grosso do Sul.

O senador disse na quinta-feira, 26, que anotou um comentário para avisar ao aliado que uma acusação falsa circula sobre ele, e Pollon afirmou que a informação foi plantada para manchar seu nome.

Outros comentários indicam os políticos que podem sofrer resistência da cúpula do PL em eventuais alianças. É o caso do vice-governador Mateus Simões (PSD) em Minas Gerais (“me puxa para baixo”), Cristina Graeml (Podemos) no Paraná (“não dá, atrapalha Filipe Barros”) e o vice-governador paulista Felício Ramuth (PSD), marcado com um cifrão (“$”) em meio a rumores de investigações contra ele no exterior.

 

 

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