Vorcaro diz que jamais quis ameaçar jornalistas após afirmar querer ‘dar um pau’ em Lauro Jardim
A assessoria de imprensa do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirmou que ele declarou, no momento de sua prisão nesta quarta-feira, 4, que jamais teve intenção de intimidar ou ameaçar jornalistas e que as mensagens atribuídas a ele foram retiradas de contexto.
A nota foi divulgada após a repercussão de mensagens, reveladas no âmbito das investigações da Polícia Federal (PF), em que ele pede a um homem que o jornalista Lauro Jardim, colunista de O Globo, fosse agredido em um assalto forjado.
Segundo o comunicado, o empresário declarou que “sempre respeitou o trabalho da imprensa” e que, ao longo de sua trajetória empresarial, manteve relacionamento institucional com diversos veículos e profissionais de comunicação. Ele também afirmou não se lembrar das conversas por telefone citadas nas investigações e disse que, caso tenha se exaltado em mensagens no passado, isso ocorreu em tom de desabafo privado, sem qualquer objetivo de intimidar terceiros.

“Jamais determinei ou determinaria agressões ou qualquer espécie de violência”, afirmou, segundo a nota.
A defesa acrescentou que Vorcaro segue colaborando com as autoridades e confia que a análise completa das informações esclarecerá o que classificou como “interpretações equivocadas” divulgadas até o momento.
O caso ganhou repercussão após a PF identificar, em troca de mensagens, Vorcaro solicitando a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas e ao monitoramento de pessoas, que Lauro Jardim fosse agredido em um assalto forjado.
“Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, disse o banqueiro.
Em seguida, Mourão reage com dois símbolos de sinal positivo à mensagem em que Vorcaro manifesta a intenção de “quebrar todos os dentes” do jornalista. Na sequência, escreve: “Estamos em cima de todos os links negativos, vamos derrubar todos e vamos soltar positivas”.
Ainda em referência à mensagem de Vorcaro – “quero dar um pau nele” – Mourão questiona: “Pode? Vou olhar isso…”. Em resposta, Vorcaro confirma: “Sim”.
As revelações motivaram manifestações públicas de entidades representativas do jornalismo. A Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o o grupo Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgaram notas de repúdio classificando o episódio como um ataque à liberdade de imprensa e cobrando a apuração rigorosa dos fatos. As entidades também manifestaram solidariedade ao jornalista e destacaram que ameaças ou tentativas de intimidação contra profissionais da imprensa atingem o direito da sociedade à informação.
Prisão de Vorcaro
A PF prendeu Vorcaro nesta quarta-feira, 4, na terceira fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de irregularidades na gestão do Banco Master.
Ele foi preso em sua residência em São Paulo no início da manhã e encaminhado à Superintendência da PF na capital paulista. Também foram cumpridos outros três mandados de prisão e 15 mandados de busca e apreensão.
A defesa de Vorcaro afirmou que o banqueiro colaborou “de forma transparente com as investigações desde o início e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça”.
Mourão, destinatário das mensagens com as ameaças, também foi preso, além do policial aposentado Marilson Silva.
A Polícia Federal afirmou que o banqueiro Daniel Vorcaro faz parte de uma “organização criminosa” formada por “profissionais do crime”, chamada de “A Turma”, que utilizaria violência e coação como uma espécie de “milícia privada”.
Segundo as investigações, o esquema criminoso ligado ao Banco Master tinha quatro núcleos de atuação.
Havia um “núcleo financeiro”, responsável pela estruturação das fraudes contra o sistema financeiro; um “núcleo de corrupção institucional”, voltado à cooptação de servidores públicos do Banco Central; um “núcleo de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro”, com utilização de empresas interpostas; e um “núcleo de intimidação e obstrução de Justiça”, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades.
Esta foi a primeira ação autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, depois que assumiu a relatoria do caso.
O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria das investigações no dia 12 deste mês após uma reunião dos dez ministros da Corte.
O encontro ocorreu após a PF enviar ao tribunal um documento em que lista menções ao ministro no celular de Daniel Vorcaro e também conversas entre o banqueiro e o magistrado. Toffoli posteriormente afirmou ter recebido valores de um fundo ligado ao Banco Master, mas negou manter relação com Vorcaro.
Não houve declaração de impedimento ou suspeição do ministro. Como Mendonça integra a Segunda Turma do STF, assim como Toffoli, ele continua apto a votar no processo em caso de julgamento.
