6 de março de 2026
Politica

Abertura da janela partidária preocupa partidos menores e acende alerta no União; veja movimentações

BRASÍLIA E SÃO PAULO – A janela partidária, que foi aberta nesta quinta-feira, 5, causa desânimo em partidos pequenos no Congresso, que projetam baixas em suas bancadas, o que deve comprometer a sobrevivência dessas próprias legendas por causa da cláusula de barreira após as eleições em outubro.

O cenário é mais pessimista entre os partidos de esquerda, como o PDT e PSOL. Integrantes da legenda trabalhista projetam uma redução de cinco parlamentares, enquanto o PSOL teme a saída de militantes caso não seja formada uma federação com o PT, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O PT inclusive corre risco de atrair poucos nomes.

Principais movimentações da janela partidária ocorrem na Câmara dos Deputados
Principais movimentações da janela partidária ocorrem na Câmara dos Deputados

No Centrão, partidos como União Brasil estão sob risco de verem uma diminuição dos quadros. Enquanto isso, em outras legendas, especialmente aquelas mais alinhadas à direita, como Podemos e o PL, se vislumbra um reforço de suas bancadas.

O vaivém entre partidos deve acontecer até dia 3 de abril, quando a janela se fecha. Em 2022, 120 dos 513 deputados mudaram de partido.

Desde o começo da semana, as portas dos gabinetes de líderes parlamentares e presidentes de partidos registram um vaivém acima do normal, marcando o início da janela partidária, período em que políticos podem trocar de partido sem perder o mandato.

Em razão da janela, os trabalhos da Câmara ficarão majoritariamente remotos em março.

O PDT tem integrantes preocupados com o saldo da janela. Nos bastidores, alguns dão como certa a saída de cinco deputados da bancada de 16 parlamentares. Eles também relatam dificuldade para atrair congressistas para seu grupo.

É um problema que pode causar dano ainda maior em outubro, quando o partido precisará superar a cláusula de barreira para continuar tendo acesso ao Fundo Partidário, crucial para a sua própria sobrevivência.

Os pedetistas reclamam também de alocação ruim do Fundo Eleitoral para candidaturas fracas, além de pouca valorização dos quadros. Sairão, em sua maioria, deputados do PDT cearense, que resolveram deixar o partido após a briga entre os irmãos Ciro Gomes e Cid Gomes – ambos hoje ex-pedetistas.

Integrantes do PDT já dão como certa as partidas de Eduardo Bismarck (CE), Idilvan Alencar (CE) e Robério Monteiro (CE). Também podem abandonar o barco Leo Prates (BA) e Flávia Morais (GO).

Do lado do PSOL, uma ala do partido teme as movimentações do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, que deseja formar uma federação com o PT. O tema não está pacificado e pode provocar uma debandada.

Os psolistas dizem temer que, caso o PSOL – que hoje tem 11 deputados – decida não formar a federação, parlamentares alinhados a Boulos, como Luciene Cavalcante (SP) e Erika Hilton (SP), deixem a legenda. O único deputado psolista no Norte, Paulo Lemos (AP), já é dado como certo no PT. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) trabalha para formar uma mega chapa de petistas no Estado neste ano e tenta atrair aliados que estão na Rede Sustentabilidade e no PSOL.

Há preocupação também em outras legendas, como PSB e PRD, que sinalizam para um cenário de zero a zero. No segundo caso, há dúvidas sobre se será possível cumprir a cláusula de barreira, regra eleitoral que estabelece uma performance mínima de desempenho eleitoral nas eleições para assegurar que partidos possam ter acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda no rádio e na televisão.

Em 2026, para vencer essa cláusula, os partidos precisarão ter ao menos 2,5% dos votos válidos distribuídos em pelo menos nove Estados, com um valor mínimo de 1,5% em cada um desses Estados, ou eleger 13 deputados federais, distribuídos em pelo menos nove Estados.

No Centrão, partidos pretendem aproveitar debandada do União Brasil para aumentar bancada. Na sigla, a projeção de debandada não é nova. Deputados que faziam parte do antigo Democratas, descontentes com os rumos que o partido tomou desde a fusão com o PSL, deverão sair. Outros dissidentes podem migrar em razão da perda de controle da política em seus Estados após a formação da federação com o PP.

A Coluna do Estadão mostrou que há um clima de insatisfação com o presidente do partido, Antônio Rueda. Parlamentares calculam que pelo menos 20 nomes, entre deputados e senadores, devem abandonar o barco.

Deve sair o senador Efraim Filho (PB) e os deputados Pauderney Avelino (AM), Coronel Assis (MT), Eduardo Velloso (AC), Felipe Francischini (PR), Padovani (PR), Danilo Forte (CE) e Mendonça Filho (PE), entre outros. Eles negociam com partidos como o PL, PSD, Novo e PSDB.

A janela mal começou e o União já perdeu pelo menos três deputados: Saullo Vianna (AM) e Zacharias Calil (GO) já participaram de atos de filiação ao MDB; Eduardo Velloso (AC) deve ir ao Solidariedade.

Há a possibilidade de uma performance negativa. Em 2022, a legenda perdeu 30 parlamentares, passando de 81 deputados para 51 após a migração de Bolsonaro do antigo do PSL para o PL.

União tenta conter redução da bancada

O líder do União Brasil na Câmara, deputado Pedro Lucas Fernandes (União-MA), afirma a aliados que trabalha ativamente para reverter o cenário e atrair o máximo de adesões possíveis para impedir que o partido saia ferido da janela partidária. “Vamos recompor bem”, diz. O União tem hoje 58 deputados e cinco senadores.

Outros partidos do Centrão têm melhores projeções. O MDB já se move com intensidade nesta semana e aposta na articulação do líder na Câmara, Isnaldo Bulhões Jr. (AL), e no trabalho de suas lideranças estaduais. A bancada de 42 deputados já contará com pelo menos mais três parlamentares.

Na quarta-feira, 4, o partido fez um ato de filiação de dois deputados federais no Amazonas: Saullo Vianna, que estava no União Brasil, e Adail Filho, que estava no Republicanos.

Esse evento teve a presença do senador Eduardo Braga (AM), candidato ao governo do Estado, do presidente do MDB, Baleia Rossi (SP), e de Isnaldo.

O PP estima que a bancada de 49 deputados deve aumentar para, no mínimo, 55. “Devemos crescer”, diz Ciro Nogueira (PI), presidente da sigla.

O PSD também faz aposta na força de suas principais lideranças nos Estados para atrair deputados. As movimentações ocorrem especialmente no Rio Grande do Sul, onde o pré-candidato à Presidência Eduardo Leite tenta atrair políticos para sua nova base; em São Paulo, núcleo do presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab; em Pernambuco, com a governadora Raquel Lyra, e na Paraíba, com Pedro Cunha Lima. O PSD tem 49 deputados.

O Republicanos, que tem 45 deputados, também faz suas articulações e espera terminar a janela com 50 integrantes na Câmara que preside. O líder da legenda na Câmara, Augusto Coutinho (PE), conduz as negociações. “Eu tenho uma convicção de que vamos aumentar a nossa bancada. Mas não tenho condições de quantificar, ainda. É muito cedo”, diz.

O mais otimista entre esse grupo é o Podemos, que deverá ter maior alinhamento à direita nessa eleição. A legenda estima um crescimento de algo em torno de 10 a 15 deputados. O partido trabalha em cima do racha no União Brasil para atrair deputados que procuram uma legenda que dê maior poder e também busca atrair deputados do PL menos alinhados ao bolsonarismo.

Já o PL pretende crescer apelando aos bolsonaristas dispersos entre outros partidos do Centrão. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), é o mais otimista entre os líderes partidários. Ele projeta um aumento da bancada de 87 para mais de 100 deputados.

“Estamos trabalhando para superar 100 parlamentares. Acho que ficaremos entre 100 até 107 deputados federais”, diz Sóstenes.

“(Nossa estratégia é) trazer aqueles que votam conosco. Tem vários parlamentares de vários partidos que votam conosco 100%”, afirma Cabo Gilberto Silva (PL-PB), líder da oposição na Câmara, que também trabalha para convencer deputados a migrarem para o partido. “Estou trabalhando muito lá no plenário, pedindo para os parlamentares para virem ao PL.”

Seria uma repetição da boa performance que o PL teve na janela partidária de quatro anos atrás. Naquele ano, a bancada passou de 43 para 75 deputados. A sigla ainda elegeu, naquele ano, 99 parlamentares. Hoje, são 87.

Em 2022, o PP também teve boa performance e ganhou 21 deputados. O pior desempenho foi do União Brasil, que perdeu 30 parlamentares. Naquele ano a debandada aconteceu após Bolsonaro trocar o antigo PSL pelo PL.

Especialistas apontam termômetro para disputa presidencial

Para especialistas ouvidos pelo Estadão, a movimentação de deputados nas próximas semanas funciona como um termômetro antecipado da disputa presidencial. Ao escolher a legenda pela qual pretendem disputar a reeleição, explicam, parlamentares sinalizam em qual projeto político acreditam ter mais chances de vitória em 2026. O saldo final, portanto, pode indicar não apenas como ficará a configuração da próxima Câmara, mas também quais forças chegarão mais competitivas à corrida pelo Palácio do Planalto.

Na avaliação do professor do Insper Leandro Consentino, esse movimento tende a revelar o grau de confiança da classe política em cada campo da disputa. Para ele, um crescimento do PL, por exemplo, seria interpretado como sinal de confiança na força do bolsonarismo, hoje orbitando em torno do senador Flávio Bolsonaro. Já o avanço de partidos alinhados ao governo indicaria uma aposta na competitividade da reeleição de Lula. “ É um momento muito importante que tende a indicar para onde os ventos estão indo na classe política”, diz.

 

 

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