‘Balcão de negócios’ de R$ 33 milhões: o que o Gaeco descobriu sobre a corrupção na Polícia de SP
Destruição de provas, fraude processual e manipulação de investigações em quatro delegacias e uma divisão da Polícia Civil de São Paulo não ocorreriam sem um alto volume de transações financeiras suspeitas, segundo promotores do Gaeco que conduziram a Operação Bazaar nesta quinta, 5 – investigadores, doleiros, advogados e um delegado foram presos. Para o Ministério Público estadual, seis policiais alvos da operação transformaram as unidades policiais em um verdadeiro ‘balcão de negócios’, que teria movimentado, ao menos, R$ 33 milhões em propinas.
O Estadão busca contato com a defesa de todos os investigados. O espaço está aberto.
Os indícios da dimensão financeira do esquema foram encontrados preliminarmente nos diálogos entre o advogado Guilherme Sacomano Nasser e o empresário Cleber Azevedo dos Santos, apontado como um dos líderes do esquema.

‘Delegado parceiraço meu, tá?
‘Clebinhô, beleza? Clebinho, chegou essa intimação lá na ‘mercado jovem’, na verdade, chegou no endereço deles, mas é referente àquela questão da BLZ. Eu fui até a delegacia, tá? É referente a uma transferência de trinta e três milhões para a SPICY, que foi feita da BLZ para lá. Chegou em nome do “MONACA” também. Ali naquela delegacia o delegado é ‘parceiraço’ meu, tá? Você quer que eu faça alguma coisa lá? Tô…Vou aguardar a orientação tua, tá bom?”, disse o advogado em áudio no WhatsApp.
Cleber Azevedo foi preso nesta quinta, 5. Ele é suspeito de comandar, junto a Leonardo Meirelles e Paulo Rogério Silva, o Paulo Barão, o esquema desmantelado pelo Gaeco e pela Corregedoria da corporação.
O advogado Guilherme Nasser, que intermediava o contato dos líderes do esquema com os policiais, segundo a Promotoria, foi alvo de medidas cautelares diversas da prisão e teve seus bens bloqueados pela Justiça.





Segundo o Gaeco – braço do Ministério Público que persegue o crime organizado – os inquéritos que foram transformados em “balcões de negócios” e objeto de ofertas e solicitações de vantagens indevida compõe uma ‘epidemia’ de Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) na Polícia Civil de São Paulo, que são engavetados em série mediante propina a delegados, escrivães e investigadores.
Para a Corregedoria da Polícia, que atuou na operação ao lado da Polícia Federal e do Gaeco, as diligências desta manhã “batem no coração do uso criminoso dos RIFs”.
Não há suspeitas sobre envolvimento de analistas do COAF com o esquema. Mas investigadores verificaram que os documentos do órgão de controle financeiro se tornaram ‘uma torneira aberta’ para a corrupção na Polícia paulista.
‘Ah, é setecentos pau’; ‘Dá cenzinha pros cara…mata na raiz’
Alvos da Operação Bazaar e presos preventivamente nesta quinta, 5, o delegado do 35º DP, João Eduardo da Silva, e o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz teriam recebido ao menos R$ 100 mil do advogado Guilherme Nasser para frear investigações sobre empresas, além de apurações envolvendo Robson Martins de Souza, Cleber Azevedo dos Santos, “Paulo Barão”, e Leonardo Meirelles – todos apontados como lideranças do esquema.

“Clebinho, esses caras dão aula comigo. Então comigo eles não achacam, entendeu? Comigo é na real, então tira já na base, ranca na raiz, entendeu? Dá um troquinho lá pros cara, tira aí cinquentinha do rodrigo, cinquentinha teu, aí dá cenzinha pros cara e acabou… mata na raíz! Porque não tem inquérito, não tem nada… e eu acho que isso aí eu vi o RIF dos cara lá e alguma coisa tem, entendeu!? Então se os caras quiserem pentelhar, vão encher o saco. Então, quando eu conversei com o escrivão, o escrivão falou também “ah é setecentos pau’ … falei “cara, sai fora” e aí eu baixei pra um valor pequeno, entendeu? E foi um cenzão lá e aí ele falou “cara, beleza, porque é pra você!. É que eu conheço os caras lá, entendeu? O delegado, na verdade, é o doutor João, então, assim, cara, eu vou tentar conversar com eles lá, vou tentar dar uma matada nisto daí, tá?”, enviou Guilherme.
Segundo a investigação, o advogado afirmou que “o delegado do caso se chamava João e que ‘os caras’ (policiais) dão aula com ele e o conhecem bem, motivo pelo qual “não se criam” para cima dele, o que lhe permitiria solucionar a questão com maior facilidade”.
“No decorrer da conversa, Cléber menciona que, naquela mesma delegacia, já haviam solicitado o pagamento de R$ 700 mil, referência que situa o episódio dentro do padrão de corrupção e interferência identificado ao longo das comunicações analisadas”, arremata a promotoria.
Segundo a análise dos telefones apreendidos com os alvos da operação “Recidere”, a evasão de divisas apurada pela Justiça Federal era apenas um dos ramos de atuação criminosa dos investigados. “Em verdade, parte considerável da atuação dos investigados consistia em operacionalizar a lavagem de capitais mediante a criação de empresas de fachada, bem como valendo-se de compra e venda de créditos de tickets de alimentação”, afirmam os promotores.
Foi durante a investigação desses crimes, que se descobriu o amplo esquema de corrupção que garantiria a impunidade dos doleiros. “Integrantes daquela organização criminosa eram alvos constantes de outras investigações e operações policiais, em sua maioria realizadas pela Polícia Civil do Estado de São Paulo, destacando-se, dentre elas, a Operação Fractal, deflagrada em diversas fases e contando inclusive com apoio da Receita Federal”, relatam os promotores.
Nesta quinta, 5, a Operação Bazaar cumpriu 25 mandados de busca e apreensão, incluindo unidades policiais, além de 11 mandados de prisão e seis mandados de intimação relativos a medidas cautelares diversas da prisão, direcionados a integrantes da organização criminosa, advogados e policiais civis.
