5 de março de 2026
Politica

De que vale um diploma?

O descuido com a educação fundamental, o desaparecimento dos alfabetizadores, com a extinção do curso que era chamado “Normal”, coincide com a ilusória multiplicação de cursos universitários. Como se a outorga de um diploma de nível “superior” suprisse a falta de letramento básico.

É o que parece ocorrer no Brasil, com milhares de Faculdades de Direito que persistem na formação jurídica de Coimbra, compartimentada e baseada na capacidade de memorização do educando. Sem investir nas competências socioemocionais, produz-se uma legião de bacharéis incapazes de passar por um Exame de Ordem, mal sucedidos nos concursos públicos – que também replicam o método mnemônico – e ressentidos por haverem passado cinco anos a aprender algo de que não tiram proveito em sua vida prática.

A reforma do Curso Jurídico deveria preceder a reforma dos concursos públicos para provimento dos cargos das inúmeras carreiras jurídicas estatais, que têm de acolher os milhões de formandos em direito. Mas o mais importante seria “ressuscitar” o curso Normal, pagar melhor as alfabetizadoras, adotar táticas de ensino que fizessem o educando vibrar, em lugar de provocar a evasão crescente, principalmente no Ensino Médio.

De que vale um diploma que não é senão o resultado de uma venda a crédito? Adquirir um canudo mediante pagamento de sessenta prestações?

As carreiras jurídicas públicas insistem num recrutamento anacrônico. Basta que o candidato decore todo o conhecimento enciclopédico abrigado na legislação, na doutrina e na copiosa jurisprudência pátria. Tanto é verdade que os concursos são idênticos, que os “Cursinhos” de Preparação converteram-se no verdadeiro recrutador-mor da Magistratura, Ministério Público, Defensoria Pública, Procuradorias, Auditorias, Polícia Civil e setor extrajudicial.

O livro “Global Workers”, escrito por Gustavo Sèngès, é um testemunho de que não é suficiente um diploma para obter um emprego satisfatório. Ele é um headhunter que recruta profissionais brasileiros para atuar no exterior. É o sonho de muitos jovens: trabalhar em casa, sem sair do Brasil, atuando remotamente em companhias estrangeiras e com salário pago em dólar.

O “global worker” é um profissional que vive em seu próprio país, valoriza a sua cultura, também estar perto da família e dos amigos e ganhar em moeda forte. São pessoas que podem oferecer o seu talento e a sua força de trabalho para empresas que estão em qualquer lugar do mundo.

Muitos países recorrem a essa estratégia, como os Estados Unidos, a Colômbia, o México e a Argentina. A Índia também, com o seu próspero desenvolvimento eletrônico. E o “global worker” que trabalha para uma empresa americana, vive bem no Brasil com um salário de três ou cinco mil dólares, enquanto em Nova Iorque isso não seria suficiente para sobreviver.

O profissional de tecnologia é aquele que ocupa cerca de dois terços das vagas. Mas há espaço para profissionais de diferentes formações, como psicólogos, pessoas de marketing, vendas e outras áreas. A vantagem do profissional de tecnologia é que ele é mais versátil.

Quanto à formação universitária, ela não é pressuposto obrigatório. O importante é ser bom profissional no setor que a empresa está buscando. O fator que realmente define esse perfil é o domínio do inglês. Falar inglês é uma condição inegociável.

Já o diploma universitário não é tudo. A Universidade não deveria cuidar apenas de entregar diploma. Ela precisaria ensinar responsabilidade, ética, habilidades socioemocionais relegadas nas primeiras fases do ensino. O diploma não é comprovação única de competência. E o inglês não é mais aquele de há algumas décadas: certificado básico, intermediário e avançado. O inglês precisa funcionar. Não basta dizer “entendo, mas não falo”. O objetivo é se comunicar e desempenhar bem.

Enfim, há um novo mundo do trabalho. As pessoas já não pensam em ingressar num grupo e ali fazer carreira, permanecer até à aposentadoria. Hoje é preciso ser curioso. Carreira não é chegada, mas é jornada. Não existe ponto final. Sempre haverá outra montanha a escalar. O segredo é se divertir no processo. Ser bom em sua área, falar bem inglês, dominar ferramentas de comunicação e colaboração. Desnecessitar de tutoria permanente. Um bom profissional é aquele que não precisa ser microgerenciado. É alguém que, se tiver diploma, tudo bem. Se não tiver, mas suprir essa falta com outras competências, melhor ainda.

 

 

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