Ex-marqueteira do PT que fez negócio com Careca movimentou R$ 69 mi e cobrou dívida do partido
BRASÍLIA – A publicitária Danielle Miranda Fonteles, que trabalhou em campanhas do PT, movimentou R$ 69,4 milhões entre 2020 e 2025 em contas mantidas em três bancos, revelam informações encontradas na quebra de sigilo dela e obtidas pelo Estadão. Metade desse montante é referente a pagamentos feitos no período e a outra, a recebimentos.
Os dados mostram novos detalhes de transações entre ela e o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como o principal operador do suposto esquema de descontos associativos ilegais em aposentadorias, e ilustram um atrito da publicitária com o PT da Bahia.
Procurada, a defesa de Danielle Fonteles afirma que todas as transações são legítimas, que a maior parte dos valores recebidos do Careca do INSS estão relacionados à venda de uma casa e que todas as explicações foram apresentadas ao Supremo Tribunal Federal (STF). (Leia mais abaixo.)

As informações bancárias fazem parte dos dados revelados com a quebra de sigilo da publicitária, que tem a relação com o Careca do INSS investigada pela CPI do INSS.
Em 13 de abril de 2023, ela recebeu em uma conta no Banco de Brasília (BRB) R$ 240 mil do diretório do PT da Bahia. A transferência é anotada como “DOACOES PARTIDO PT 2014”.
Em 2014, Danielle Fonteles trabalhou, por meio da sua agência Pepper Interativa, na campanha vitoriosa de Rui Costa (PT-BA) ao governo baiano e recebeu R$ 633,3 mil, segundo a Justiça Eleitoral.
Apesar do pagamento, ela foi à Justiça em 2016 alegando que não recebeu tudo o que lhe era devido. O PT baiano aceitou um acordo extrajudicial, conforme registrado no processo de cobrança da dívida encerrado em 2024, e pagou os R$ 240 mil que aparecem na conta do BRB.
O relatório indica que Fonteles recebeu, em dezembro de 2024, R$ 1 milhão da ACCA Consultoria, firma suspeita de ter sido usado pelo Careca do INSS para movimentar e ocultar dinheiro obtido ilicitamente no esquema.
Ela também recebeu, entre outubro de 2024 e abril de 2025, oito pagamentos via Pix de Camilo Antunes que somam R$ 5,08 milhões. Há ainda outros R$ 200 mil pagos via Spyder Consultoria, empresa de fachada ligada ao Careca do INSS.
Esses repasses já haviam sido revelados pela CPI do INSS e foram justificados por ela como pagamento de uma casa em Trancoso (BA) vendida ao empresário.
Agora, o levantamento do sigilo bancário mostra que ela recebeu do Careca, ao todo, R$ 6,28 milhões.
A defesa de Danielle Fonteles afirma que todo o pagamento está relacionado com uma casa que ela tinha em Trancoso e vendeu ao Careca do INSS. O imóvel custaria cerca de R$ 13 milhões, mas os pagamentos foram interrompidos depois que a Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, bloqueou contas dele e houve um rompimento do acordo de compra e venda.
Ainda segunda a defesa, Danielle chegou a transferir a posse da casa para Antonio Camilo. Em depoimento à CPI do INSS, Aline Bárbara Mota de Sá Cabral, ex-secretária do Careca do INSS, confirmou a negociação da casa e disse que ela mesma chegou a ir ao local para treinar a governanta a pedido do chefe.
Danielle e Antonio criaram uma relação comercial depois que ela mudou-se do Brasil para Portugal, em 2019, e começou a trabalhar na gestão de empresas de brasileiros que queriam empreender no país europeu.
Ela prestou consultoria à World Cannabis, negócio criado por Antonio Antunes e para o qual também atraiu a empresária e lobista Roberta Luchsinger e o filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Os valores recebidos por ela por essa consultoria não aparecem na quebra de sigilo porque a transação teria sido para um banco de Portugal.
A quebra de sigilo bancário também revela duas transações financeiras de Danielle com o ex-deputado e ex-ministro das Cidades Alexandre Baldy. Em setembro de 2023, ela pagou a ele R$ 148,7 mil. Dois meses depois, recebeu R$ 13 mil.
A defesa dela diz que os repasses são referentes ao aluguel da casa de Trancoso para temporadas de fim de ano e que a regularidade dos pagamentos também foi demonstrada ao STF.
A reportagem também procurou o diretório do PT da Bahia, mas não houve retorno até a publicação deste texto.
