Operação que mira propinas na Polícia de SP faz ressurgir contadora de Youssef, doleiro da Lava Jato
A Operação Bazaar – investigação que mira um grupo de delegados, investigadores e escrivães da Polícia Civil de São Paulo supostamente ligados a uma rede de propinas e lavagem de dinheiro – fez ressurgir dois personagens emblemáticos da extinta Operação Lava Jato, que implodiu sólido esquema de propinas e cartel de empreiteiras instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014 (Governos Lula e Dilma).
Meire Bonfim da Silva Poza, contadora do doleiro Alberto Youssef – delator da Lava Jato – e o empresário Leonardo Meirelles, que há dez anos dirigia um laboratório e mantinha negócios na área da saúde que caíram na malha daquela investigação. Na ocasião, Meirelles foi apontado como ‘testa de ferro’ de Youssef.

Meire e Meirelles, agora alvos da Operação Bazaar, tiveram a prisão decretada pelo juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 2.ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital. Em sua decisão, o juiz se reportou à representação dos promotores do Gaeco, unidade do Ministério Público estadual que combate o crime organizado.
“Conforme o Ministério Público, seria de conhecimento notório que Meire Poza atuaria juntamente com Leonardo Meirelles e Alberto Youssef, compondo um dos maiores grupos de lavagem de dinheiro do país. Diante disso, verifica-se que a ordem pública está seriamente ameaçada, caso a investigada (Meire) continue em liberdade, pois, ao menos em tese, pratica atos de lavagem de dinheiro para criminosos há décadas.”
Para o magistrado, Meire em liberdade ‘configura sério risco à instrução processual penal, eis que conhece diversos policiais e outros indivíduos que, segundo o Ministério Público, adulteram provas e destroem elementos que possam servir de convicção para uma futura denúncia’.
Paulo Fernando Deroma De Mello avalia que ‘não menos importante, demonstra a investigada, em tese, fazer parte de um complexo grupo de lavadores de dinheiro, com ramificações diversas, o que demonstra um evidente risco futuro de fuga durante a instrução processual penal e no caso de eventual condenação’.
A Operação Bazaar – gabinete integrado da Polícia Federal, promotores que combatem crime organizado (Gaeco) e Corregedoria da Polícia Civil – foi deflagrada nesta quinta, 5, e resultou na prisão do delegado João Eduardo da Silva, do 35.º Distrito Policial (Vila Guarani/Jabaquara), na zona sul da cidade. Outros policiais sob suspeita de estarem a ‘serviço’ de organização criminosa de lavagem de dinheiro também foram presos.

A atividade ‘paralela’ dos policiais paulistas foi descoberta casualmente, a partir da análise de celulares e computadores apreendidos em poder de integrantes da organização criminosa investigada no âmbito da Operação Recidere, deflagrada em 22 de novembro de 2023 pela Polícia Federal.
“Foram identificados diversos atos de corrupção policial praticados de forma reiterada”, aponta o juiz da 2.ª Vara de Crimes Tributários.
Inicialmente, a Operação Recidere teve por objetivo desarticular um núcleo de doleiros especializado em remessas ilegais ao exterior, valendo-se da simulação de importações e da criação de inúmeras empresas de fachada.
O grupo era composto pelos maiores doleiros do país, controlava pessoas jurídicas abertas em nome de ‘laranjas’, obtinha habilitação no Radar (credenciamento para importação e exportação) e fechava contratos de câmbio com base em faturas comerciais falsificadas, tudo de modo a ocultar remessas de terceiros interessados em manter anonimato e driblar controles estatais.
A extração de dados dos telefones confiscados com os alvos da Recidere revelou que a evasão de divisas apurada pela Justiça Federal ‘era apenas um dos ramos de atuação criminosa dos investigados, que se organizavam entre si e com terceiros para a prática de diversos outros crimes’.
A PF repassou ao Gaeco, unidade do Ministério Público estadual, as informações sobre o mapa da corrupção na Polícia Civil de São Paulo. Chegou-se, então, aos nomes de Meire Poza e Leonardo Meirelles, apontados como operadores de uma quadrilha que alimentava esquema de ‘investigações de gaveta’ instalado em pelo menos quatro delegacias e uma divisão.
Por meio de inquéritos abertos para forçar o pagamento de propinas de empresários e comerciantes, os policiais montaram ‘balcões de negócios’, segundo a Promotoria.
Meire fazia parte dessa estrutura da organização por meio de ligações com o Departamento de Polícia de Proteção à CIdadania (DPPC) e empresas de fachada, das quais ela ‘era incumbida de fazer a contabilidade, ciente da ilicitude das ações’.
“O método era conhecido dos integrantes do grupo criminoso, sendo certo que Leonardo Meirelles e Meire Poza são reincidentes em crimes desta natureza, personagens conhecidos dentre os lavadores de dinheiro do Brasil”, pontua o juiz.
A extração de dados dos celulares de policiais investigados na Operação Bazaar revela detalhes de um acordo dentro da organização criminosa formada por policiais civis, doleiros e advogados, ‘para possivelmente livrar Meire Poza de algum procedimento instaurado no DPPC’.
Os promotores do Gaeco resgataram um diálogo atribuído a Meire Poza em que o empresário Robson Martins de Souza se comprometeu a escalar um advogado para acompanhar a contadora em um depoimento na polícia. “Robson seria o elo entre criminosos e policiais corruptos dentro da Polícia Civil”, destaca o juiz. “Além disso, ainda segundo o Ministério Público, Robson atuaria para destruir provas.”
Os investigadores consideram que a proximidade de Meire com o esquema fica nítida a partir de ‘conversas comprometedoras entre ela e outros indivíduos investigados’. Meire e seu parceiro Leonardo Meirelles operavam como uma espécie de ‘intermediários’ da organização criminosa e policiais civis. As relações de Meire Poza e Meirelles com o núcleo de policiais ganharam força depois que a organização resolveu para ambos um ‘problema do DPPC’.
Pouco tempo após o pagamento de uma propina, Meirelles e a contadora foram ouvidos na 1ª Delegacia da Divisão de Investigação de Crimes Contra a Administração, Combate à Corrupção e Lavagem de Capitais do DPPC, a quem se incumbia as investigações da Operação Fractal.
m diálogo recuperado, o empresário Robson Martins afirma à contadora que ‘já está tudo acertado com os caras lá dentro’ – suposta referência ao procedimento que teria sido instaurado pelo DPPC e a ‘policiais corrompidos pelo grupo criminoso e sua confiança na garantia da impunidade’.
“O método, aliás, era conhecido dos integrantes do grupo criminoso, sendo certo que Leonardo Meirelles e Meire Poza, que atuara como contadora de Alberto Youssef, são reincidentes em crimes desta natureza, sendo personagens conhecidos dentre os lavadores de dinheiro do Brasil”, indica o juiz Paulo Deroma De Mello.
Para o magistrado, ‘verifica-se que a ordem pública está seriamente ameaçada, caso a investigada continue em liberdade, pois, ao menos em tese, ela pratica atos de lavagem de dinheiro para criminosos há décadas’. “Configura-se sério risco à instrução processual penal (Meire solta), eis que a investigada conhece diversos policiais e outros indivíduos que, segundo o Ministério Público, adulteram provas e destroem elementos que possam servir de convicção para uma futura denúncia.”
O juiz da Vara de Crimes Tributários argumenta, também, que ‘não menos importante, demonstra a investigada, em tese, fazer parte de um complexo grupo de lavadores de dinheiro, com ramificações diversas, o que demonstra um evidente risco futuro de fuga durante a instrução processual penal e no caso de eventual condenação’.
Ao decretar a prisão de Meire, o juiz reforçou. “Aliado à periculosidade da organização criminosa, em tese, integrada pelos agentes, a decretação da prisão preventiva de Meire Bonfim da Silva Poza é mais do que necessária, é imperiosa.”
A investigação reserva um capítulo ao empresário Leonardo Meirelles, a quem a Operação Lava Jato atribuiu o papel de ‘testa de ferro’ do doleiro Youssef. O juiz está convencido de que ‘restou demonstrado que Guilherme Sacomano Nasser, em nome de sua amizade com o delegado João Eduardo da Silva, concorreu para o pagamento de vantagem indevida de ao menos R$ 100 mil visando evitar a investigação de empresas e pessoas físicas Robson Martins de Souza, Claber Azevedo dos Santos, Paulo Rogério Silva, o ‘Paulo Barão’, Leonardo Meirelles, dentre outros’.
Os investigadores estão convencidos de que a análise dos autos do inquérito demonstram que, em decorrência do pagamento da vantagem indevida, o delegado João Eduardo e o escrivão Ciro ‘deixaram de praticar ato de ofício’.
“Ao menos desde outubro de 2022, os investigados Robson Martins, Cleber Azevedo, Paulo Barão e Leonardo Meirelles, com concurso necessário dos advogados Antonio Carlos Ubaldo Júnior, Marlon Antonio Fontana e Guilherme Nasser, realizaram diversos pagamentos a policiais do DEIC a quem se incumbia investigar os representados e as pessoas jurídicas por eles utilizadas para lavagem”, ressalta o juiz em sua decisão que autorizou a Operação Bazaar.
Ainda no contexto de corrupção policial no DEIC, a investigação confere atenção a uma conversa de outubro de 2023 – ‘Marcello solicitou o agendamento de uma reunião com Leonardo Meirelles, afirmando que ele e Jayme tinham ideia para conduzir a vida ‘fora da polícia’.
Em novembro de 2023, Marcello encaminhou diversas imagens de um casarão situado em grande propriedade, contendo academia, sauna, campo de futebol, lagos, dentre outros recursos. Ele afirmou ter adquirido o imóvel em leilão e acrescentou que ‘não estava fazendo dinheiro na polícia’, razão pela qual pretendia deixar a corporação e precisava vender o terreno, que, segundo sua própria informação, estaria avaliado em R$ 4,5 milhões.
“Ocorre que o valor atribuído ao imóvel mostra-se incompatível com a atividade de policial e, sobretudo, contradiz com a alegação de dificuldades financeiras, o que sugere a utilização de recursos de origem ilícita para aquisição do bem”, sustentam os promotores.
Presa pela PF em 2018
Alvo da Operação Encilhamento em 12 de abril de 2018, Meire foi presa por suposto envolvimento em um esquema de fraudes bilionárias contra o sistema de previdência de pelo menos 28 municípios de sete Estados.
Ela trabalhava na GFD Investimentos, uma das empresas de fachada do doleiro, usada para lavar dinheiro ilícito e encaminhar propinas a políticos.
Meire não fez delação premiada, mas colaborou com as investigações e se tornou testemunha importante da Lava Jato.
Na época, avaliou que era hora de dar publicidade a informações que preservou. O título ainda estava em aberto. Uma ideia era ‘Os bastidores da Lava Jato’. Outra, ‘O crime compensa’. Mas o que seduz Meire Poza é ‘Lava Jato por amor’ – porque o texto irá revelar que ela ‘entrou nisso tudo por amor’.
Enigmática, não dava pistas do homem que roubou seu coração. “Não é o Beto”, diz, em referência a Alberto Youssef, o doleiro que fez delação premiada e para quem ela trabalhou como contadora. “Não é o juiz também’, emenda, com um sorriso maroto, em alusão a Sérgio Moro, o magistrado mão-de-ferro que jogou pelos ares o sólido esquema de corrupção e propinas que se instalou na Petrobrás entre 2004 e 2014. “Vocês sõ irão saber quem é esse amor nas páginas do livro.” A obra nunca foi publicada.
‘Testa de ferro’
Alvo da Bazaar, Leonardo Meirelles declarou em 2014 à Justiça Federal que o doleiro Alberto Youssef operava também para o PSDB. Ele disse que testemunhou conversa do doleiro, por telefone, com um interlocutor, que sugere ser o tucano Sérgio Guerra, morto em março de 2014.
Meirelles é apontado como “testa de ferro” do esquema de lavagem do dinheiro comandado por Youssef, que seria, segundo a Polícia Federal, o verdadeiro dono do Labogen. No depoimento, o laranja afirmou acreditar que o doleiro tinha ainda relação com “outro parlamentar” que era um “padrinho antigo com origem na mesma região” que a do doleiro – Londrina, interior do Paraná.
“Em uma das ocasiões eu estava na sala, teve um contato telefônico do Alberto Youssef quando do qual surgiu o nome (Sérgio Guerra)”, declarou Meirelles ao juiz Sérgio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato.
Meirelles foi ouvido na condição de réu no caso de suspeitas sobre a refinaria Abreu e Lima, empreendimento da Petrobrás que está em fase de obras em Pernambuco. Em seus depoimentos, no mesmo processo, Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmaram que PT, PMDB e PP lotearam as diretorias da estatal para cobrar até 3% de propina nos grandes contratos a fim de abastecer o caixa 2, em especial da campanha de 2010.
