7 de março de 2026
Politica

Lições de Kongjian Yu

Esse nome não pode desaparecer de nossa realidade presente, nem de nosso horizonte. É aquele arquiteto, paisagista e planejador urbano chinês que criou e executou os projetos de “Cidade Esponja”. Foi professor na Universidade de Pequim e fundador da Turenscape, uma empresa de design especializada em arquitetura paisagística, planejamento urbano e restauração ecológica. Ainda jovem, pois nascido aos 12 de maio de 1963, em Zheijiang, China, infelizmente veio morrer no Brasil, em pleno pantanal matogrossense, quando se inspirava para mais ousados e criativos projetos. Faleceu em 23 de setembro de 2025.

Tive o privilégio de conversar com ele quando visitou a Prefeitura de São Paulo e participou de produtivo diálogo com o Secretário Marcos Monteiro e com o jovem Pedro Fernandes, Presidente da SP-Urbanismo. Ainda tenho anotado o que me impressionou em sua conversa franca, simpática e muito interessante.

Para nós, serviu bastante a sua advertência: temos de aprender com os erros. A ocupação do território da capital paulista foi uma secular sequência de erros. Em lugar de respeitar a natureza exuberante, generosa e pronta para o turismo, teimamos em “brincar de Deus” e em retificar cursos d’água que serpenteavam, sinuosamente, por suas várzeas.

O resultado é que hoje são condutores de imundície, que supera o conteúdo aquático. Os demais córregos, riachos, nascentes, nós enterramos ou canalizamos, para construir uma cidade que mais serve ao automóvel do que aos humanos. Kongjian se impressionou com a beleza do Vale do Anhangabaú, que deveria ter preservado o rio e deixado margens imunes ao concreto. Enquanto o restante do planeta, na sua parte realmente civilizada, adota as soluções de acordo com a natureza, nós ficamos durante muitas décadas – na verdade, durante séculos – a adotar soluções baseadas no concreto.

Para o criador do conceito de “Cidade Esponja”, a melhor receita é eliminar ao máximo o concreto. Ele conversava e projetava inúmeros de seus projetos na China e em toda a Ásia. Falou de seu trabalho em Sarya Don g’ai Westland Park, o Parque do Pântano de Sarya, dos tanques de Dangian, que manteve o sistema vivo, tudo verde azul. Muitos outros parques ele planejou e executou. Em outubro de 2025, estive na China e pude constatar a beleza de um desses projetos.

A natureza é respeitada. A água causa inundações porque não tem por onde escoar. Daí o benéfico trabalho de devolver à natureza, ainda que em doses homeopáticas, um pouco do muito que dela subtraímos. Sob a forma de jardins de chuva, de vagas verdes, de bosques urbanos, de micro florestas (pocket forests), e de muitas outras iniciativas que pensem no resgate da relação de São Paulo com suas águas.

Confio muito no Projeto Hidroviário de Pedro Fernandes e sua equipe, como forma de ajustar São Paulo com sua história e de fazer a população usufruir, em todos os sentidos, desse dom imprescindível que é a água. Kongjian fez vias verdes ao longo dos rios, um deles o fio Meishe. Criou muitos outros parques. Talvez um dos mais famosos seja o Parque da Cauda de Peixe de Nachag, que ostenta uma verdadeira floresta flutuante.

Quando se respeita a natureza, não há incompatibilidade em uso racional de seus recursos. Ela só precisa responder, e o faz como sabe, que às vezes é uma linguagem violenta, quando também violentada. Se as depressões naturais forem conservadas com vegetação, as cheias desaparecerão com rapidez e felicidade maior do que os sistemas de escoamento em obras duras, de concreto, ferro e aço.

A água deve ser utilizada de forma inteligente e holística. Soluções como as do Vale do Anhangabaú não são as melhores. Nas recentes chuvas, houve rápida inundação. Quem verificava o rio que ali se formou, dizia: “O Anhangabaú retomou seu curso! Tomou de volta o que era dele!”.

Ali seria necessário esverdear a imensa superfície de concreto. Fazer parques verticais, moradias em edifícios verdes. Mais espaços verdes por toda a cidade. uso mínimo de concreto e uso racional da topografia. Um potencial imenso em São Paulo, que tem mais de oitocentos rios. Mas quantos deles estão disponíveis à população? E destes, quantos são os que têm água potável ou se prestam ao turismo fluvial?

Muito a aprender com Kongjian Yu, que não morreu de verdade, pois seu legado haverá de servir a gerações. Conscientizemo-nos de que temos responsabilidade muito peculiar em relação à sua perda física. Estava aqui para nos ajudar a nos relacionar melhor com nossa luxuriante natureza. Honremos seu compromisso.

 

 

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