7 de março de 2026
Politica

Exército entrega a Lula plano de R$ 456 bilhões para defesa do País enfrentar a ‘era dos drones’

O Exército entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um plano que prevê serem necessários R$ 456 bilhões para que o País possa se defender de ameaças de potências estrangeiras criadas pelo novo cenário geopolítico mundial e pelas inovações do campo de batalha na era dos drones. Hoje, o Brasil não tem como se defender de um enxame de drones como o que foi lançado contra o Irã pelos EUA.

Disparo de foguete do sistema Astros: programa estratégico incorporou a futura  artilharia antiaérea de média altura do Exército
Disparo de foguete do sistema Astros: programa estratégico incorporou a futura artilharia antiaérea de média altura do Exército

Diante disso, a Força Terrestre decidiu redefinir seu portfólio estratégico, reduzindo de 14 para sete os programas considerados fundamentais. Um terço dos R$ 456 bilhões do plano representa os investimentos necessários entre 2026 e 2040 nos sete programas, segundo dados aos quais o Estadão teve acesso – o restante se refere aos gastos com custeio.

Desse total, R$ 90 bilhões seriam para a aquisição de uma nova capacidade para o Exército: a defesa antiaérea de média altura, hoje inexistente na Força Terrestre – a defesa de alta altura ficará a cargo da Força Aérea Brasileira (FAB). Pelo plano do Estado-Maior do Exército (EME), para que o País tenha capacidade de dissuasão seriam necessários três grupos de artilharia antiaérea com três baterias cada.

No fim do ano passado, o País fez o primeiro movimento para fechar um acordo com o governo da Itália para a aquisição do primeiro grupo com duas baterias ao custo de R$ 3,7 bilhões (cerca de US$ 400 milhões). Ele equiparia o antigo 12.º Grupo de Artilharia de Campanha, agora Antiaérea, em Jundiaí. Outro grupo de artilharia que deve receber o sistema antiaéreo EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions, ou Solução de Defesa Aérea Modular Aprimorada), um equipamento fabricado pela multinacional MBDA.

Um sistema de artilharia antiaérea RBS 70, de baixa altura, usado pelo Exército Brasileiro; Força quer adquirir com urgência artilharia antiaérea de média altura
Um sistema de artilharia antiaérea RBS 70, de baixa altura, usado pelo Exército Brasileiro; Força quer adquirir com urgência artilharia antiaérea de média altura

Ele deve permitir a integração de radares de diferentes origens, inclusive equipamentos nacionais. Esse sistema usa mísseis CAMM-ER, semelhante aos das fragatas da Classe Tamandaré, da Marinha. Um terceiro grupo deve ficar na região Norte e baterias seriam ainda colocadas para a proteção de infraestruturas críticas. A compra dos grupos incluiria a aquisição de mais de 500 mísseis. Ao todo, só o investimento seria de R$ 23,5 bilhões, podendo chegar aos R$ 90 bilhões com o custeio.

Além da antiaérea, o Exército aposta na retomada da produção da Avibrás para dar andamento ao projeto de seu míssil tático de cruzeiro com alcance mínimo de 300 quilômetros. De acordo com dados do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), 90% do projeto está pronto – falta apenas a campanha de tiros. A Força ainda está desenvolvendo o Míssil Tático Balístico S+100, que deve aproveitar o conhecimento adquirido com o projeto S-80. O míssil deverá ter interoperabilidade com outros sistemas da Avibrás.

Os planos para os drones

O segundo programa prioritário do Exército é corrigir a quase ausência de drones da Força Terrestre. O tema está sendo tratado como uma emergência nacional, pois sem eles o País pode estar indefeso diante de qualquer ação estrangeira. O plano do EME tem duas vertentes: uma que privilegia a compra de material pronto nacional ou estrangeiro e outra que visa o desenvolvimento nacional para garantir a autonomia do País.

O sistema Guepard, de artilharia antiaérea, adotado pelo Exército Brasileiro e usado na guerra na Ucrânia
O sistema Guepard, de artilharia antiaérea, adotado pelo Exército Brasileiro e usado na guerra na Ucrânia

Ao todo, 26 empresas com capacidade para produzir drones das modalidades 0, 1, 2 e 3 armados, com capacidade de combate, apresentaram-se ao Exército. No caso dos drones de tipos 0 e 1, os mais simples, há empresas nacionais capazes de fornecer de imediato o equipamento. Ao todo, fontes do Exército informaram ao Estadão que seriam necessários investir R$ 3,7 bilhões nessa área – os gatos globais chegariam a cerca de R$ 10 bilhões entre 2026 e 2040.

O comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, e o chefe do EME, general Francisco Humberto Montenegro Júnior, levaram o plano do Exército a Lula na reunião em que os chefes das Forças Armadas tiveram com o presidente após a ação americana que capturou o ditador Nicolás Maduro. A urgência de equipar a Força com drones foi reforçada pelo uso desse tipo de equipamento para neutralizar as defesas do Irã durante o ataque americano-israelenses ao regime dos aiatolás.

O plano do Exército prevê ainda R$ 90 bilhões – sempre um terço em investimentos e dois terços gastos com custeio – com a modernização das forças blindadas para dotá-las de defesa antidrone e torná-las capazes de usar inteligência artificial. Outros R$ 20 bilhões seriam necessários para a defesa cibernética e para o desenvolvimento militar da inteligência artificial.

O sistema de mísseis antiaéreo EMADS, da MBDA, que o Brasil deve adquirir da Itália por R$ 4 bilhões
O sistema de mísseis antiaéreo EMADS, da MBDA, que o Brasil deve adquirir da Itália por R$ 4 bilhões

O plano do Exército respondeu à indagação de Lula sobre o que seria preciso para garantir a defesa do País no cenário atual. Ele está agora nas mãos do Ministério da Defesa. Os investimentos sequem a lógica de uma guerra multidomínio, com o uso de armas não cinéticas para a defesa de infraestruturas críticas e impedir que alvos mapeados no Brasil sejam atingidos em uma fase inicial de um conflito, mas também que o País seja capaz de sustentar sua defesa após um primeiro ataque.

Generais ouvidos pelo Estadão defendem a necessidade de se garantir, além da pronta resposta e da capacidade de proteção, os meios para manter o comando e controle das forças a fim de que seja possível enfrentar ameaças. Parte desses recursos deve vir nos próximos anos da Lei Complementar 221, que autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em despesas com projetos estratégicos de defesa nacional do arcabouço fiscal até 2031.

Aos críticos do valor total do plano, os generais respondem que eles significam 1/15 do orçamento americano de Defesa para o próximo ano. A China, eles dizem, anunciou na quarta-feira, dia 4, que vai gastar US$ 277 bilhões com seus militares só em 2026. Os generais lembram ainda que o País usa apenas 1,1% de seu PIB em gastos com a Defesa, em um momento em que todos as principais economias do mundo estão aumentando seus gastos.

Disparo de foguete do sistema Astros: programa estratégico incorporou a futura  artilharia antiaérea de média altura do Exército
Disparo de foguete do sistema Astros: programa estratégico incorporou a futura artilharia antiaérea de média altura do Exército

Os números colocam diante dos governantes civis um desafio: é necessário levar em consideração a nova realidade geopolítica mundial quando se pensa na defesa do Brasil antes que seja tarde demais, antes que alguém anuncie que deseja tomar a Amazônia ou o petróleo da margem equatorial para “defender a sua segurança nacional”. Mas isso também significa gastar novos recursos com muito rigor, com critérios claros para evitar não só todo tipo de desvio e desperdício, mas também para garantir a eficiência e a transparência.

O resultado desse sacrifício deve ser visível às lideranças civis e, ao mesmo tempo, romper as barreiras de possíveis interesses corporativos: isso significa garantir não só a interoperabilidade dentro da Força Terrestre, mas também com as demais Forças. Esse é um mundo em que não parece mais possível apostar que o Brasil e seu entorno estratégico continuarão distantes das convulsões que ameaçam envolver os demais continentes em conflitos regionais cada vez maiores e imprevisíveis, diante dos quais muitos Estados reaprenderam, rapidamente, que a melhor maneira de garantir sua sobrevivência é negar vantagens estratégicas ao inimigo.

 

 

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