Secreto, mas nem tanto…
Delicio-me com a leitura do “Diário Secreto” de Humberto de Campos. Começou a ser escrito em maio de 1906. Mas sofreu interrupções. As anotações praticamente diárias reiniciam em 1915. Foi publicado em 1954 pelas edições “O Cruzeiro”. Humberto de Campos não economiza nas críticas. Não poupa sequer os amigos.
Assim é que, em 5 de janeiro de 1915, anota: “Há dias, anda o Carlos de Vasconcelos a perseguir-me para que escreva sobre o seu livro “Tragédia Divina”. O livro é mau, e tem como único mérito o de ser escandaloso. Um jornal de São Paulo já disse que o livro era muito bom… por fora. O autor não me deixa, entretanto, como nunca me deixou, sempre que se trata de fazer elogios à sua pessoa. Não sei de amigo meu que mais insistentemente rufe tambor chamando a atenção para a sua própria pessoa. E o melhor é que, no Norte, se supõe que ele tem, realmente, todo o mérito que se lhe empresta à força! O último bilhete que o Carlos me mandou, ontem, fica arquivado sob o número 2, na pasta que acabo de instituir com o título de “Feira das Vaidades”.
Ele não diz quem ocupa o primeiro lugar dessa pasta. Mas ele não deixa de entrever que é muito propenso a aceitar elogios. Assim é que, em 5 de janeiro de 1915, escreveu: “Há dias, quando ocorreu o aniversário do Bilac, os seus amigos foram à sua casinha das Laranjeiras, onde se fez literatura e arte em geral. No dia seguinte, o Oscar Lopes me contava terem sido feitas ali referências elogiosas a mim e aos meus versos, alguns dos quais foram recitados, havendo o Bilac estranhado que eu lhe não tivesse remetido um exemplar do meu livro”.
Ele faz referência a Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, um dos príncipes da poesia brasileira, eleito em 1913, por votação popular, em concurso realizado pela revista “Fon Fon”. Sucederam-no Guilherme de Almeida e Paulo Bomfim, ambos da Academia Paulista de Letras e a tríade não teve outros Príncipes. Instaurou-se a República da poesia e esta parece não se coadunar com títulos monárquicos.
Para agradecer Olavo Bilac, em cujo aniversário sua poesia havia sido elogiada, Humberto de Campos escreveu e dedicou-lhe alguns versos. Comenta, no seu diário, em 7.1.1915: “Soube, pelo Goulart, que o Bilac ficou bastante comovido com os versos que lhe dediquei. Disse ainda o Goulart que a moléstia do Bilac está em progresso, vivendo ele, por isso, impressionadíssimo, e agradecendo como uma esmola todo carinho que se lhe faz”.
Já ocorria, há cento e dez anos atrás, o fenômeno da pouca acolhida que literatos e poetas, em geral, merecem na mídia espontânea. Numa anotação de 8.1.1915, Humberto de Campos assinala: “Encontrei-me à rua do Ouvidor, na porta da redação da “A Rua”, com o Viriato Correia e José Oiticica. Este se queixou dos jornais, que lhe não dão agasalho aos artigos, mesmo gratuitos e elogia, vivamente, os meus sonetos “Oração a Dionisios” e “A Morte de Sócrates”, publicados na “Careta”. E volta a falar de Bilac:
“Nesse mesmo local encontrei-me hoje com o Bilac. Ia em companhia do Heitor Lima, que me foi apresentado pelo Oiticica. Bilac deu-me dois grandes e apertados abraços, agradecendo-me o livro e o soneto que lhe enviei, e tecendo louvores aos meus versos. Ele ia me escrever uma longa carta, agradecendo-mos, e falando do livro”.
Em inúmeras oportunidades, Humberto de Campos critica amigos, conhecidos e desconhecidos seus. Como fala de um jornalista a quem, com certeza, não devia estimar: “De caminho para casa, passei na “Gazeta de Notícias”, para falar com o Nogueira da Silva. Não estava. Conversei com o “Paulo de Gardênia” (Benedito Costa), um adorável imbecil que faz o “Binóculo” a seção elegante do jornal. Esse Benedito é um mulato pernóstico, tornado popular pela sua encantadora cretinice”.
Em 1915 não existia o politicamente correto, que proíbe alguns verbetes então livremente utilizados. Humberto não poupa ninguém e mostra que o Brasil, àquela época, não era muito diferente do Brasil de hoje: “Entraram para o Arquivo do Ministério do Interior, onde ficarão sepultados, mil exemplares da “A Organização Nacional” de Alberto Torres. É um livro de valor, onde se apontam os únicos remédios que ainda podiam salvar a Nação. É por isso mesmo que o livro foi mandado “arquivar” e o autor já foi, por duas vezes, internado em uma casa de saúde, como sofrendo das faculdades mentais…”.
Alguma surpresa em relação ao Rio de Janeiro de 1915, que Humberto de Campos retrata em seu “Diário”, nem tão secreto assim?…
