11 de março de 2026
Politica

A ‘República da PF’ não pode repetir as de Curitiba e do STF, onde o sucesso subiu à cabeça

Estamos normalizando a sexta “república” após a redemocratização? Primeiro, a Nova República de boas lembranças e, na sequência, a de Alagoas, a do mensalão, a de Curitiba, a do Rodrigo Janot e, agora, o mundo político e principalmente o jurídico já se preparam para contra-atacar as denúncias que brotam do escândalo Master e condenar o que chamam de “República da Polícia Federal”.

Não é novidade que a PF abasteça com provas e evidências o Supremo, o Ministério Público, as CPIs e, daqui e dali, a mídia. Foi assim em praticamente todos os grandes escândalos envolvendo, em maior ou menor medida, Fernando Collor, Lula, Temer e, por mais manipulada que tenha sido no governo passado, também Bolsonaro. Hoje, porém, muita coisa mudou.

Antes, a PF trabalhava em sintonia com todos esses parceiros, até mesmo com o MP, com quem vive uma eterna disputa de poder e influência. Neste momento, entretanto, deixou as parcerias, virou algoz do Supremo com suas investigações e provas contundentes – e milionárias – contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, despertou um confuso, ou obtuso, corporativismo na Corte, incomodou o MP e provocou o medo no Congresso.

Viatura da Polícia Federal em operação realizada pela corporação
Viatura da Polícia Federal em operação realizada pela corporação

O primeiro efeito da quebra de parcerias foi nas relações entre o diretor geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Rodrigues foi chefe da segurança de Lula na campanha de 2022 e não precisa da chave do ministro da Justiça para abrir as portas do Planalto, até do Alvorada. E Gonet é indicação e interlocutor de ministros chaves do STF, como Gilmar Mendes e o próprio Moraes.

Não se trata de uma disputa entre dois times, um pró-Lula e outro pró-STF, até porque o desgaste da Corte, de Xandão e Toffoli não interessa nem um tico ao governo e ao presidente-candidato; ao contrário, esse desgaste faz a festa da oposição. Assim, o time de Rodrigues diz que apenas faz o seu trabalho, doa a quem doer, e o time de Gonet critica “os excessos” dos federais nos inquéritos – inclusive a nova prisão de Daniel Vorcaro, do Master.

A PF tem muito apoio na mídia, até porque tem sido muito eficiente e as provas são sólidas e em profusão, mas, apesar disso, ou exatamente por isso, parece isolada no Judiciário, no Legislativo e no Planalto, onde há desconforto e uma tentativa de descolamento de Daniel Vorcaro, Moraes, Toffoli e até Lulinha.

Diferentemente de Bolsonaro, Lula tem o grande trunfo de ser apontado como um presidente que acabou preso e aguentou o tranco do mensalão e do petrolão, sem intervir na PF nem obstruir as investigações. Se qualquer faísca vier a público de que ele esteja mudando de comportamento para tentar neutralizar as denúncias contra STF e Lulinha, o incêndio será incontrolável.

Apesar de ampliar os adversários e bater de frente com velhos aliados, a PF mantém bons canais com o Supremo, onde Rodrigues foi recebido com tapete vermelho pelo presidente Edson Fachin, a quem entregou o relatório de 200 páginas com dados sobre o Master, com citações a Toffoli. Ato contínuo, saiu Toffoli e entrou André Mendonça na relatoria do processo.

E a PF também tem apoios no Congresso, não por questões ideológicas, partidárias, da oposição ou do governo, mas de parlamentares que querem a verdade, “doa a quem doer”, como o senador Alessandro Vieira, que foi delegado da Polícia Civil em Sergipe e acaba de colher assinaturas suficientes para uma CPI que investigue Moraes e Toffoli. Como base em quê? Na PF.

Moral da história: mudam os alvos, os atores, o enredo, mas não adianta chorar depois do leite derramado. Por mais chocante e mais triste que seja para o País e por mais que Moraes e Toffoli chorem, o leite não volta para a garrafa e as investigações não irão para a gaveta.

A PF, porém, tem um desafio: não repetir, por exemplo, a República de Curitiba e a República do STF, que deixaram o sucesso subir à cabeça, acharam-se acima da lei, das regras e dos limites. Deu no que deu.

 

 

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