Membros da família Bolsonaro viram polos de articulação eleitoral enquanto campanha de Flávio avança
BRASÍLIA E SÃO PAULO — Na medida em que as articulações eleitorais avançam, membros da família Bolsonaro têm atuado como polos para tentar influenciar a escolha e o timing de anúncios das chapas que se somarão à campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.
Enquanto Flávio reuniu em torno de si aliados com papéis definidos para a sua equipe, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro têm mantido sua própria influência sobre o processo.
As visitas que Michelle faz ao marido preso na penitenciária da Papudinha, em Brasília, têm ajudado a reter o capital político junto de si. Nos últimos dias, três cartas escritas à mão por Bolsonaro deram à ex-primeira-dama algum poder — e proteção contra críticas.

Em 6 de fevereiro, Michelle divulgou uma carta em comemoração aos 18 anos de casamento; no dia 27, a promessa de divulgar “em breve” a lista dos pré-candidatos do PL ao Senado que serão apoiados por Bolsonaro; e, no mesmo fim de semana, outra carta criticando os ataques de bolsonaristas à esposa.
“Dirijo-me a todos que comungam conosco dos mesmos valores — Deus, pátria, família e liberdade — para dizer que lamento as críticas da própria direita dirigidas a alguns colegas e à minha esposa”, escreveu Bolsonaro na carta divulgada pela equipe de comunicação do Partido Liberal. Dias antes, Michelle havia sido alvo de ataques públicos do comunicador Allan dos Santos.
No mesmo documento, o ex-presidente diz ter pedido a Michelle para que ela se concentre nos cuidados a ele mesmo e à filha Laura, que passou por uma cirurgia, e para que só volte a se “envolver na política após março”.
O pedido acaba por tirar de Michelle a pressão pela definição de pré-candidaturas, uma vez que a política nacional se encontra num período-chave para a montagem de chapas. No começo de abril se esgotam os prazos da janela partidária e para desincompatibilização para concorrer a cargos eletivos.
A carta em que Bolsonaro promete divulgar os escolhidos para concorrer ao Senado, no entanto, ajuda a reter com Michelle influência no processo decisório. “(Em breve) publicarei lista dos nossos pré-candidatos ao Senado. Por delegação do presidente Valdemar (Costa Neto, chefe do PL), tal lista ficaria com minha responsabilidade”, diz o ex-presidente no papel entregue à esposa.
Aliados de Flávio manifestaram estranheza com a declaração de Bolsonaro de que os nomes seriam divulgados em breve, via Michelle. Para eles, não faz sentido antecipar algo que está em construção. Um deles diz ainda haver “problemas de comunicação” entre madrasta e enteado.
“Ainda estou tratando com os Estados, não deve sair (uma definição) tão logo. Ainda vou precisar conversar com ele sobre isso (divulgação dos nomes)”, declarou Flávio ao Estadão ao ser questionado sobre o assunto.
Um dos aliados de Eduardo avalia que Michelle “está em negação ainda, se agarrando à esperança de que a candidatura do Flávio caia nos próximos 30 dias e ela ressurja das cinzas com o Tarcísio”, em referência ao governador de São Paulo. Mas dizem esperar pelo apoio dela à pré-campanha de Flávio a partir de abril, quando a pré-candidatura se tornar “irreversível”.
Nas últimas semanas, a candidatura de Flávio Bolsonaro tem crescido. De cordo com a pesquisa Datafolha divulgada no último sábado, o senador alcançou 43% dos votos em um segundo turno contra Lula, contra 46% do presidente. A situação é de empate técnico. A pesquisa foi feita entre terça, 3, e quinta-feira, 5, e ouviu 2.004 eleitores em 137 municípios. O levantamento está registrado noTribunal Superior Eleitoral (TSE)sob o código BR-03715/2026. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.
Eduardo também tem influência
Eduardo também tem mantido sua esfera de influência. Na quarta-feira que vem, 11, um grupo de bolsonaristas vai viajar aos Estados Unidos para conversar com o ex-deputado e tentar cacifar o deputado federal Mario Frias (PL) para uma das vagas ao Senado em São Paulo — a outra é de Guilherme Derrite (PP).
O movimento ocorreu depois que o nome do vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), ganhou força durante as conversas que Flávio teve com Tarcísio de Freitas e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), durante ida a São Paulo em 27 de fevereiro. A corrida até Eduardo visa escantear a preferência do ex-presidente e emplacar Frias na corrida ao Senado, com Eduardo de suplente.
Dias atrás, Flávio disse que era “óbvio” que o irmão gostaria de concorrer nas eleições, mas enfrentaria dificuldades para explicar ao eleitorado como ele, que teve o mandato cassado por faltas por ter se autoexilado nos Estados Unidos, conseguiria exercer o mandato de senador.
A saída para Eduardo é apostar numa vaga garantida a médio prazo, caso Frias se eleja senador e posteriormente deixe o mandato, por alguma razão. Lideranças do bolsonarismo, entre elas Valdemar, no entanto, rechaçam a ideia.
“Eu fiz uma pesquisa, e Eduardo aparece em primeiro lugar (ao Senado por São Paulo). Mas ele não pode vir para o Brasil, não pode ser candidato. Se ele pisar aqui…”, afirmou o dirigente, fazendo um gesto de captura, referindo-se a uma eventual prisão por parte da polícia — o ex-deputado é réu no Supremo Tribunal Federal por coação no curso do processo. “Não pode nem (ser) suplente. Eles (Justiça Eleitoral) não vão registrar”.
Enquanto isso, lideranças políticas de todo o País têm feito uma peregrinação à Papudinha para conversar com Bolsonaro e tentar viabilizar seus projetos eleitorais. Nas últimas semanas, pré-candidatos como Derrite, Ubiratan Sanderson (PL-RS), Portinho e Bruno Scheid (PL-RO), todos então pré-candidatos ao Senado, fizeram visitas ao ex-presidente.
“Vou tratar com o presidente a eleição como um todo, a minha pré-candidatura a governador, a pré-candidatura do José Medeiros ao Senado, a candidatura do Flávio, que vai muito bem”, disse o senador Wellington Fagundes (PL-MT) na sexta-feira, 6.
Ele deve ir à Papudinha no sábado, 7, para levar a Bolsonaro “um abraço fraterno” e um pacote de cartas de apoiadores e mensagens impressas de WhatsApp em solidariedade. Os deputados federais Bia Kicis (PL-DF), e Marco Feliciano (PL-SP), que querem disputar o Senado por seus respectivos Estados, também têm visita marcada.
Muitos pré-candidatos veem o aval de Bolsonaro como fundamental para prosseguir com seus projetos eleitorais. Bolsonaro, relatam seus aliados, costuma ter a última palavra em todas as decisões importantes envolvendo definições de candidaturas.
A romaria à Papudinha, no entanto, não agrada a todo mundo. Um senador diz, sob reserva, não ver com bons olhos quem procura o ex-presidente só pela chancela eleitoral. Os encontros cara-a-cara com Bolsonaro, que acontecem quase sempre a sós, já provocaram polêmicas dentro do partido, com repercussões externas.
O deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), por exemplo, ficou incomodado depois que Wilder Morais (PL) saiu da prisão dizendo ter apoio de Bolsonaro à sua pré-candidatura ao governo de Goiás. Isso porque, segundo Gayer, havia uma orientação do próprio ex-presidente de não entrar na disputa com o governador Ronaldo Caiado (PSD), que tenta fazer o vice Daniel Vilela (MDB) como seu sucessor.
