Moraes já deu as suas explicações. Cabe agora é uma investigação independente; veja o vídeo
Leia a transcrição na íntegra do comentário em vídeo:
Eu tenho lido muitos artigos editoriais dizendo que é hora do ministro Alexandre de Moraes se explicar sobre aqueles diálogos ou aquelas supostas mensagens que teria trocado com o Daniel Vorcaro, especialmente no dia da sua prisão. A minha visão é um pouco diferente. O ministro já deu as suas explicações. Ele disse basicamente, como matéria de fato, que ele não recebeu aquelas mensagens, que aquele nome que está colocado ali naqueles prints, naquelas imagens, não é o seu nome, não é o seu número. Enfim, ele negou simplesmente essas acusações.
Portanto, ele fez uma afirmação de fato, de forma que a gente está diante de um problema. Já comentei aqui algumas vezes. Você tem um jornal, um grande jornal brasileiro que diz que aquelas imagens, aqueles diálogos, aquelas mensagens foram periciadas pela Polícia Federal, são autênticas, aquilo foi testado, inclusive a tecnologia para que aquilo seja aberto, aquelas mensagens ali de leitura única, então a investigação não só é possível como é demandada pela matéria, enfim, pelo jornal.
De outro lado, o ministro diz: “Olha, não recebi nada. É tudo mentira isso aí. Isso aí não é verdade”. Então nós estamos diante de um impasse, portanto o ministro já deu as suas explicações, ele poderia ter dito: ‘olha, não me lembro disso, não vou falar’, porque afinal de contas está em segredo de justiça, ele foi adiante, ele pagou para ver, na minha interpretação pode ter feito isso por duas razões: primeiro porque de fato não recebeu, de fato a matéria não é verdadeira, aqueles prints de fato não correspondem à realidade, enfim, é uma invenção por alguma razão contra o ministro. Por outro lado ele pode ter eventualmente feito uma aposta de que nenhuma investigação vai ser feita, então ele pode fazer essa declaração que eventualmente não corresponde à verdade, mas nenhuma investigação será feita.
Portanto, a ideia de que o ministro deva explicações é uma ideia muito ingênua, na verdade. O ministro já deu essas explicações e foi muito além, ele deu fatos, pelo menos fez uma alegação de fato.
O que o Brasil demanda nesse momento, e esse caso demanda, é uma investigação, investigação por órgãos de Estado independentes, é isso, qualquer democracia, em qualquer República, isso nada tem a ver com esquerda e direita, nada tem a ver com governo e oposição, com simpatias, quem gosta de um lado ou do outro, nada a ver. Isso é uma questão republicana, é uma questão do Estado de Direito, é uma questão da credibilidade da Suprema Corte Brasileira, da capacidade da Suprema Corte Brasileira de continuar tendo o respeito da sociedade brasileira. É uma questão ética fundamental, sem a qual não há República, sem a qual não há propriamente a confiabilidade das instituições numa grande democracia como o Brasil.
E aí nós temos um problema, essa investigação pode ir lá da PGR, conduzida pelo próprio Supremo, por sorteio, entre os ministros, seria um caminho, um caminho muito difícil, hoje é uma recusa da PGR de conduzir qualquer investigação que atinja o ministro do Supremo Tribunal Federal, que tem uma ironia, né, o PGR formalizou uma acusação contra um pastor, Silas Malafaia, porque ele fez um comício, chamou alguns generais de covardes, e o ministro Alexandre de Moraes, na sexta-feira, votou para converter o pastor em réu, um pastor que não tem foro e chamou de covardes alguns generais. Se chamar de covardes autoridades em comício público é um crime político, nós não somos mais uma democracia, em qualquer democracia do mundo, é um direito do cidadão dizer: ‘Eu acho que é covarde a tal autoridade’. Nada tem a ver com processo por calúnia, difamação, crimes contra a honra, movidos na justiça comum, o que foi feito nesse caso, é o uso do inquérito sobre fake news lá de 2019 pra incriminar, ou pra tentativa de incriminar, um cidadão comum.
Então você tem de um lado uma continuidade disso que é claramente um abuso de poder, e de outro lado uma completa impunidade. É o Brasil dos extremos. Nós estamos entre o abuso de poder e a impunidade. O outro caminho é o Congresso Nacional, nós tivemos um pedido de impeachment por parte do governador Romeu Zema, que tem um caráter mais simbólico, um partido novo, um partido muito pequeno, de qualquer maneira é o governador de um Estado importante, e nós tivemos o pedido aí sim, com muito mais força política, até as últimas horas, 35 assinaturas da minoria, uma super minoria no Senado Federal, por parte do senador Alessandro Vieira, um pedido de CPI pra investigar os ministros de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Vamos lembrar, em 2022, o Supremo, na pessoa do ministro Barroso, determinou a abertura da CPI da pandemia porque era um direito líquido e certo da minoria. Agora deixou de ser? Agora a gente tem uma superminoria, mas será que o presidente Davi Alcolumbre vai instaurar essa CPI? Será que o Supremo Tribunal Federal vai determinar que ela seja instaurada, ou as instituições não vão se mexer? Nesse momento, no Brasil, pode haver muita indignação, movimentos no Congresso, jornalismo investigativo, demandas mais variadas em relação a esse tema do Banco Master, mas se as instituições não se moverem, seja a PGR de um lado, seja o Congresso Nacional, a liderança do Senado Federal, o País permanecerá num impasse, de novo, entre o abuso de um lado, como é esse caso clássico em inquéritos de fake news, incluindo um pastor como é o Silas Malafaia neste episódio, e de outro lado a mais completa impunidade.
Portanto, não é mais momento para explicações, explicações já foram dadas e há fatos que se contradizem uns aos outros, é matéria de investigação por instituições de Estado de natureza independente, e aqui há um enorme ceticismo do País se isso de fato vai acontecer.
