Crise no Irã reduz margem de manobra de Lula
O ataque ao Irã era amplamente esperado. Os sinais de mobilização militar eram óbvios há semanas. O resultado, porém, não está sendo o esperado por Donald Trump e Binyamin Netanyahu. Ao contrário da Venezuela, onde a operação foi rápida e sem intercorrências, o regime iraniano demonstrou muito mais capacidade de resistência. Isso muda o cálculo de riscos para a economia global e, por consequência, para as eleições brasileiras.
Antes de entrar em detalhes, é importante fazer uma distinção.
O Brasil está relativamente bem posicionado para superar os efeitos da guerra em comparação com outros países. O país é exportador de petróleo, o que significa que preços mais altos trazem mais receita, o que facilita a queda do dólar. E as nossas principais rotas de abastecimento de fertilizantes não estão diretamente ameaçadas pelo conflito, já que o Brasil importa a maior parte deles de locais a oeste do Estreito de Ormuz.
Mas “relativamente bem posicionado” não significa imune. A começar pela política de preços da Petrobras.
É difícil imaginar que a Petrobras consiga evitar uma alta do diesel, dada a dependência brasileira de importações desse combustível e o risco de desabastecimento. A tendência é de um reajuste parcial do diesel em breve, e o próprio Lula já se mostrou resignado, em comentário nesta semana, com o fato de que a guerra deve provocar alta de preços no mundo todo.
Na gasolina, existe mais margem de manobra, pois o Brasil importa menos. Isso significa uma chance maior de a Petrobras manter o preço abaixo dos níveis internacionais por um pouco mais tempo – mas, em algum momento, reajustes também tendem a ser necessários.
Para piorar, Lula não tem à disposição a mesma ferramenta que Bolsonaro tinha em 2022 – o corte de impostos na marra, a contragosto de governadores – para lidar com os efeitos da Guerra da Ucrânia, que também se iniciava em pleno ano eleitoral. Ainda que a Petrobras amorteça os reajustes, a tendência é de preços de combustíveis mais altos.
O segundo fator de preocupação é o alimento. Mesmo que o fornecimento de fertilizantes para o Brasil não esteja em risco imediato, os preços já começaram a subir nos mercados internacionais, e isso se transmite, com alguma defasagem, aos produtos agrícolas. Os itens com ciclos mais curtos — hortaliças, legumes, frutas frescas — podem mostrar esse efeito mais cedo, antes mesmo das eleições. E aqui se soma um risco adicional: o El Niño, que já representa uma ameaça para o segundo semestre deste ano.
Tudo isso atinge o Brasil no meio da tempestade causada pelos crescentes escândalos de corrupção: as investigações sobre o INSS, o Banco Master e a Operação Carbono Oculto. Eu escrevi, na semana passada, que esses casos representam a maior fonte de incerteza para o cenário eleitoral em 2026, com risco maior para Lula do que para Flávio Bolsonaro. Isso se mantém. Daí, no meio dessa história, veio a crise no Oriente Médio, e de repente Lula tem mais um problema fora de seu controle.
Por isso, se o cenário de inflação de combustíveis e alimentos se materializar, ele tornará ainda mais importante para Lula apostar nas suas políticas de aumento da renda: a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, a promessa de uma nova rodada de benefícios na próxima gestão e a proposta de redução da jornada de trabalho. Essas medidas serão o antídoto que o governo terá para oferecer.
