27 de março de 2026
Politica

Crise no Irã reduz margem de manobra de Lula

O ataque ao Irã era amplamente esperado. Os sinais de mobilização militar eram óbvios há semanas. O resultado, porém, não está sendo o esperado por Donald Trump e Binyamin Netanyahu. Ao contrário da Venezuela, onde a operação foi rápida e sem intercorrências, o regime iraniano demonstrou muito mais capacidade de resistência. Isso muda o cálculo de riscos para a economia global e, por consequência, para as eleições brasileiras.

Antes de entrar em detalhes, é importante fazer uma distinção.

O Brasil está relativamente bem posicionado para superar os efeitos da guerra em comparação com outros países. O país é exportador de petróleo, o que significa que preços mais altos trazem mais receita, o que facilita a queda do dólar. E as nossas principais rotas de abastecimento de fertilizantes não estão diretamente ameaçadas pelo conflito, já que o Brasil importa a maior parte deles de locais a oeste do Estreito de Ormuz.

Com situação no Irã, Lula perde espaço de manobra na discussão dos combustíveis
Com situação no Irã, Lula perde espaço de manobra na discussão dos combustíveis

Mas “relativamente bem posicionado” não significa imune. A começar pela política de preços da Petrobras.

É difícil imaginar que a Petrobras consiga evitar uma alta do diesel, dada a dependência brasileira de importações desse combustível e o risco de desabastecimento. A tendência é de um reajuste parcial do diesel em breve, e o próprio Lula já se mostrou resignado, em comentário nesta semana, com o fato de que a guerra deve provocar alta de preços no mundo todo.

Na gasolina, existe mais margem de manobra, pois o Brasil importa menos. Isso significa uma chance maior de a Petrobras manter o preço abaixo dos níveis internacionais por um pouco mais tempo – mas, em algum momento, reajustes também tendem a ser necessários.

Para piorar, Lula não tem à disposição a mesma ferramenta que Bolsonaro tinha em 2022 – o corte de impostos na marra, a contragosto de governadores – para lidar com os efeitos da Guerra da Ucrânia, que também se iniciava em pleno ano eleitoral. Ainda que a Petrobras amorteça os reajustes, a tendência é de preços de combustíveis mais altos.

O segundo fator de preocupação é o alimento. Mesmo que o fornecimento de fertilizantes para o Brasil não esteja em risco imediato, os preços já começaram a subir nos mercados internacionais, e isso se transmite, com alguma defasagem, aos produtos agrícolas. Os itens com ciclos mais curtos — hortaliças, legumes, frutas frescas — podem mostrar esse efeito mais cedo, antes mesmo das eleições. E aqui se soma um risco adicional: o El Niño, que já representa uma ameaça para o segundo semestre deste ano.

Tudo isso atinge o Brasil no meio da tempestade causada pelos crescentes escândalos de corrupção: as investigações sobre o INSS, o Banco Master e a Operação Carbono Oculto. Eu escrevi, na semana passada, que esses casos representam a maior fonte de incerteza para o cenário eleitoral em 2026, com risco maior para Lula do que para Flávio Bolsonaro. Isso se mantém. Daí, no meio dessa história, veio a crise no Oriente Médio, e de repente Lula tem mais um problema fora de seu controle.

Por isso, se o cenário de inflação de combustíveis e alimentos se materializar, ele tornará ainda mais importante para Lula apostar nas suas políticas de aumento da renda: a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, a promessa de uma nova rodada de benefícios na próxima gestão e a proposta de redução da jornada de trabalho. Essas medidas serão o antídoto que o governo terá para oferecer.

 

 

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