12 de março de 2026
Politica

Escândalo Master arrasta Brasília para crise, e bolsonaristas e petistas tentam se blindar de dano

BRASÍLIA – Na medida em que as investigações sobre o caso Master avançam na Polícia Federal, o estrago se infiltra por Brasília, com a revelação dos contatos mantidos por Daniel Vorcaro e os negócios do banco. Enquanto isso, bolsonaristas e petistas vêm tentando se blindar do dano à reputação que o caso vem provocando.

A avalanche de informações sendo divulgadas permitiu às duas maiores legendas do País, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Liberal (PL), e suas lideranças alimentarem as redes sociais com peças de comunicação voltadas a grudar a crise no adversário – e se afastarem dela o quanto puder.

PT e PL tentam colar adversários no escândalo do caso Master
PT e PL tentam colar adversários no escândalo do caso Master

“Entenda o esquema BolsoMaster: O maior esquema de golpe no mercado financeiro que o Brasil conheceu”, diz uma publicação do PT, associando o sobrenome Bolsonaro às fraudes. “(O esquema) foi gestado, criado, protegido dentro do governo Bolsonaro”, diz o deputado federal e ex-ministro da Comunicação Social do governo Lula, Paulo Pimenta (PT-RS), no recorte publicado pelo partido nas redes sociais.

“O banco recebeu autorização do governo Bolsonaro e do Banco Central, (presidido por Roberto) Campos Neto, para operar. Em 2022, época da eleição (…) eles derramam parte do dinheiro que estavam roubando na conta das campanhas do Bolsonaro e do Tarcísio (de Freitas)”, acrescenta Pimenta.

Como o Estadão mostrou, o Palácio do Planalto definiu uma estratégia no fim de janeiro para tentar manter distância regulamentar do escândalo e evitar que a crise contamine a campanha de Lula a novo mandato.

A ordem do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, era para que seus colegas não ficassem na defensiva e destacassem que a investigação das irregularidades foi aberta no governo Lula.

Ministros devem encaixar nas respostas às perguntas incômodas as doações de campanha feitas pelo empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, dono do Master, ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Em 2022, Zettel doou R$ 3 milhões para Bolsonaro, que enfrentava Lula na disputa à Presidência, e R$ 2 milhões a Tarcísio, cujo principal adversário era Fernando Haddad (PT).

A rede de contatos e de negócios feitos por Vorcaro tem permitido à esquerda apontar para a direita como a principal implicada no escândalo. A PF encontrou mensagens no celular de Vorcaro nas quais ele se refere ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, como um “grande amigo de vida”.

Além disso, 18 fundos de previdência criados para cuidar da aposentadoria de servidores públicos colocaram R$ 1,8 bilhão em papéis do banco. Três quartos (76,1%) desse valor, R$ 1,37 bilhão, dizem respeito a fundos ligados a dois personagens: um do Centrão, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP); e outro da direita, o governador do Rio, Cláudio Castro (PL).

A Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores do Estado do Rio de Janeiro, foi o fundo que mais investiu no Master (R$ 970 milhões). Seu presidente, Deivis Marcon Antunes, foi exonerado por Castro após o fundo ser alvo de uma operação da Polícia Federal. A Amapá Previdência (Amprev), chefiada por Jocildo Lemos, indicado por Alcolumbre, foi o segundo fundo que mais aportou recursos no esquema (R$ 400 milhões).

Recentemente, uma estrela do bolsonarismo foi dragada para dentro do escândalo com uma revelação do jornal O Globo. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) usou um jatinho de Vorcaro na campanha de Bolsonaro em 2022. Ele nega que soubesse quem era o proprietário da aeronave, mas o episódio tem sido explorado à exaustão pelos adversários.

O PL, por sua vez, lançou nesta segunda-feira, 9, uma peça feita com inteligência artificial intitulada “A grande quadrilha”, em referência à série da TV Globo “A grande família”, juntando o presidente Lula, seu filho Lulinha, a primeira-dama Janja e o ministro Fernando Haddad (Fazenda) a personagens de escândalos diferentes, como Vorcaro e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.

O vídeo teve 5,8 milhões de visualizações até a tarde da quarta-feira, 11, das quais 3,6 milhões (62%) vieram de “fora da bolha”, o que trouxe 12,5 mil seguidores novos ao perfil, segundo o PL. A publicação foi compartilhada 354 mil vezes. O alcance é cerca de 7,5 vezes maior do que as 779 mil visualizações obtidas pelo post petista do “BolsoMaster”.

O PT reagiu no mesmo dia. O partido protocolou uma representação contra o PL na Justiça Eleitoral dizendo que o vídeo é “leviano e de caráter eleitoreiro criado para tentar vincular o PT a denúncias de corrupção” e que o material se trata de uma propaganda eleitoral antecipada irregular e negativa.

O bolsonarismo tem se aproveitado do fato de o STF, que hoje vive uma relação de proximidade com o Palácio do Planalto, estar no olho do furacão para associar os dois Poderes como cúmplices. Além do contrato de R$ 129 milhões entre o Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa do ministro da Corte Alexandre de Moraes, O Globo revelou que o magistrado e Vorcaro trocaram mensagens no dia que o empresário foi preso pela primeira vez.

Os negócios da família de outro ministro, Dias Toffoli, com fundos ligados ao Master, revelados pelo Estadão, e o contrato do mesmo banco que rendeu R$ 5 milhões ao escritório de Ricardo Lewandowski ajudam a jogar a Corte como um todo para a crise. Ambos foram nomeados ao Supremo por Lula e trabalharam em seu governo.

O site Poder360 revelou também que Vorcaro pagou uma degustação de whisky em Londres, em abril de 2024, para autoridades como Moraes, Toffoli, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

A tese hoje difundida entre muitos apoiadores de Bolsonaro é que um STF corrupto e relacionado com uma elite econômica prendeu o ex-presidente para tirá-lo do caminho.

“Cada novo ato reforça a evidência de que Alexandre de Moraes não demonstrou a imparcialidade indispensável no julgamento do presidente Jair Bolsonaro. Diante disso, é imperativo restabelecer os princípios básicos do Estado de Direito: o presidente Bolsonaro precisa ser colocado imediatamente em liberdade, e todo o processo deve ser anulado em razão de vício absoluto na sua origem. Sem juiz imparcial, não há justiça”, escreveu Adolfo Sachsida, ex-ministro do governo Bolsonaro e hoje colaborador da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto.

Para evitar fortalecer o bolsonarismo, a esquerda tem evitado atacar o STF – ou ao menos cobrar satisfações. O cálculo pode ser visto nos movimentos feitos em Brasília nas últimas semanas.

Na segunda-feira, por exemplo, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou um pedido de abertura de comissão parlamentar de inquérito (CPI) para apurar o envolvimento de Moraes e Toffoli com o Master. Das 35 assinaturas, duas são de parlamentares de partidos de esquerda.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *