12 de março de 2026
Politica

Não se esqueçam das meninas de Minab

Eram tantas que nem se sabe ao certo quantas. Em Minab, uma escola ao sul do Irã, estudando, escrevendo, desenhando, rindo, porque ali era permitido rir, rir alto, sem medo, sem olhares fundamentalistas questionadores.

Sem nome, porque a imprensa não se interessou. Nenhum nome até agora. Nenhuma foto. Meninas apenas. Irrelevantes, erro de cálculo, erro de inteligência, desencontro de informações, perdas colaterais, inteligência artificial.

Cínicos… Eram meninas! Não são mais. Futuras mulheres. Nunca serão. Helma, Zahra, Yasna, Ava, estou inventando, porque não sei os nomes. Olhos verde-oliva, olhos amendoados, olhos negros profundos e indagadores, olhos risonhos interrompidos no meio da tarefa da professora.

Aqui, Yasna, desenhe um — E uma bomba. Mais uma vez, uma bomba. Sempre a bomba. A gigantesca, estúpida, impávida bomba. A bomba voadora, um zunido, um bum, as paredes caindo, o telhado, e suas várias toneladas de concreto caindo, e o crack de ossos fraturados e o ai de suspiros entrecortados. Mais do mesmo.

Crianças, mulheres, velhos, pobres, vítimas das guerras dos ricos homens brancos. E lá se foi parte do futuro, lá se foram as que reergueriam o país das trevas do absolutismo, que ergueriam as escolas. Aquelas que liderariam famílias, empresas. Que criariam, inventariam, publicariam, defenderiam, julgariam, curariam, construiriam. Meninas no futuro do pretérito. Mortas, assassinadas, vilipendiadas na pureza de suas infâncias.

Um clarão, um estrondo, e o prédio derrubado, e a lancheira caída, e o Ursinho Puff de pelúcia rasgado em dois, e o lápis incendiado pelo calor mortífero da bomba. Soterradas de olhos abertos, olhos redondos, curiosos. Olhos agora vidrados. Sorrisos empalidecidos depois que um botão vermelho foi acionado do outro lado do mundo, que o ditador de uma falsa democracia disse “press the button”.

Bochechas, bochechas de menina, bochechas redondas, gorduchas, coradas, macias, daquelas que recebiam beijos piniquentos do pai ao chegar em casa, beijos com batom, que a mãe só usava em casa. Bochechas rotas resgatadas sob gritos rasgados e lágrimas empoeiradas para um último beijo.

Meninas, mortas por um míssil de dois milhões de dólares. Dois milhões. O equivalente a dois anos da renda mensal de quase duzentos iranianos. E se os mísseis fossem todos vendidos e o dinheiro sustentasse por dois anos essas Helmas, Zahras, Yasnas, Avas?

Press the button: eles preferem as bombas. Eles preferem as explosões, os tomahawks. Eles não querem meninas instruídas, livres. Eles querem óleo, eles só querem ganhar. A qualquer custo.

 

 

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