O gosto amargo da coerência
A sinceridade, a franqueza, a coragem, são virtudes prestigiadas em teoria. Na prática, elas oferecem dificuldades sérias para quem as pratica. A verdade incomoda quem está acostumado a receber aplausos. O destemor de reconhecer que o passo errado é o único certo da tropa acarreta prejuízo para quem se arrisca a expô-lo.
Há inúmeros exemplos na História. Mas é sempre oportuno recordar algum deles, para nossa orientação. Hoje, parece unânime o reconhecimento de que a tecnologia da comunicação e da informação mudou o mundo. Os jovens que empreenderam e formaram as big techs são apontados como vencedores e como exemplos.
Todavia, qual o custo ético de tamanho desenvolvimento do setor?
As “sementes do desastre” foram vistas pela escritora Paulina Borsook, que escreveu o livro “Cyberselfish” em 2000. Ela acompanhava com preocupação a trajetória dos cérebros talentosos do Vale do Silício. Detectou que aquele grupo de jovens que exageravam e se gabavam de seus feitos iria prejudicar o mundo quando conseguisse dinheiro e o poder que é consequência dele.
Percebeu que essa juventude odiava governos, leis, normas, regras e regulamentos. Para ela, ser rico era sinônimo de ser inteligente. Pretendia que as pessoas fossem todas programadas como computadores. Sequer aceitavam discutir a complexidade e a confusão de cada ser humano.
Tudo o que ela pressentiu aconteceu. A empatia se tornou uma falha pessoal repugnante. O capitalismo de vigilância se tornou a prática comercial padrão ignorada. Os impactos ambientais da IA são descartados. É a prova cabal de que a cultura impulsionada pela tecnologia enterrou de vez a ética.
Essa profecia custou caro a Paulina Borsook. Para a sua carreira de escritora, foi uma espécie de cancelamento universal. Ela o considera um TDB, sigla em inglês para “maldito livro”. Nunca mais escreveu outro. Teve de sobreviver praticando Airbnb, em troca de aluguel gratuito. Hoje, na faixa dos setenta e com a saúde precária, depende de um GoFundMe, espécie de auxílio voluntariamente criado por alguns amigos e que depende da caridade deles.
Só foi redescoberta com o site de crítica política radical chamado FakeSoap e mantido por Jonathan Sandhu. Ele afirma: “Ela estava certa demais, cedo demais e reulutante demais em bajular a catedral do código”. Ao realizar um podcast com Borsook, sua conversa acumulou mais de cento e vinte mil visualizações no YouTube em três semanas.
Os poucos amigos de Pauline vibraram. Seu livro está esgotado há muito tempo e todas as cópias de segunda mão foram compradas. Até as bibliotecas dizem que o não possuem. Leitores em potencial fizeram publicações com o tema “Procura-se” no X, ex-Twitter, mas sem sucesso. Editoras internacionais consultam Borsook sobre eventual republicação.
Pensadores mais atentos às consequências desse mergulho incontrolável no mundo web e se angustiam com a ascensão ao poder de empresários da tecnologia ao longo das últimas décadas. Comparam a situação atual, de encontrar entre os executivos vassalos servis do retrógrado autoritarismo ianque, ao anúncio da Apple afirmando que a empresas nos salvaria de “1984”, o romance de Georges Orwell que já foi ultrapassado pelos recentes avanços das TIC.
As companhias agora são trilionárias e exercem poderio e controle sobre a vida de toda a humanidade. Na revista Wired, publicou-se uma reportagem cujo título é: “Eu pensei que conhecia o Vale do Silício. Eu estava errado”, escrita por Steven Levy.
A irrestrita adesão de líderes das big techs a governantes na mão contrária do que os primórdios das empresas acenavam como o futuro, é algo impressionante. Só agora Paulina é reconhecida. Ela conhecia profundamente o Vale do Silício e carregava uma tragédia pessoal. Aos catorze anos, um amigo atirou nela com um Colt 45 e a deixou com lesão cerebral traumática. Isso fez com que ela não pudesse cursar o College americano. Permaneceu com a idade cognitiva de catorze anos. Daí derivou para o mundo dos computadores. Trabalhou na revista Data Communications e cobriu a entrevista coletiva de 1984 em que Bill Gates apresentou o Microsoft Windows ao mundo.
Ela reconhece o valor da tecnologia, mas repudia a adoração que seus pais impõem aos usuários. A TIC tem de ser utilizada como ferramenta, não como objeto de latria. No caso, idolatria. Paulina Borsook é uma voz dessas que continuam a clamar no deserto. Deserto de ideias, deserto de valores, deserto, enfim, de ética. A ciência do comportamento moral do ser humano em sociedade. Disciplina extinta e sepultada no século passado.
