Investigação contra Júnior Mano acirra disputa do PT no Ceará e Lula é chamado para resolver crise
BRASÍLIA – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá de intervir em mais uma crise entre o PT e o aliado PSB para a montagem dos palanques nos Estados. No Ceará, uma investigação da Polícia Federal que aponta o deputado Júnior Mano (PSB-CE) como chefe de uma “rede estruturada de corrupção” envolvendo desvio de emendas parlamentares e fraude em licitações reabriu uma “briga de foice” nas fileiras petistas.
A disputa ocorre porque Júnior Mano é o nome mais cotado para ocupar uma das vagas de candidato ao Senado na chapa do governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT). Em nota, o deputado classificou as acusações contra ele, contidas no relatório da Polícia Federal, como “exageradas, genéricas e sem provas”. O relatório foi enviado recentemente pela PF ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O Ceará é um palanque estratégico para Lula no Nordeste, a exemplo da Bahia, porque a região tem peso significativo para ele se contrapor ao avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário, no Sul e no Sudeste.
Diante desse cenário conturbado, porém, o presidente terá de resolver mais esse imbróglio porque a entrada de Júnior Mano na chapa foi a condição imposta pelo senador Cid Gomes (PSB-CE) para apoiar a candidatura de Elmano à reeleição.
Na corrida por um novo mandato, Elmano tem como desafiante o ex-ministro e ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PSDB), que lidera as pesquisas de intenção de voto e está rompido com Cid, seu irmão.
A pedido do próprio Lula, o ministro da Educação, Camilo Santana (PT), deixará o governo no início de abril para entrar na campanha e medir a temperatura no Ceará.

Se Elmano não decolar, dirigentes do PT não descartam a possibilidade de Camilo, ex-governador, assumir a candidatura para evitar a vitória de Ciro Gomes. Hoje, Ciro negocia uma vaga ao Senado para o PL de Bolsonaro.
As tratativas estavam em banho-maria depois que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro expôs a contrariedade com o apoio do PL a Ciro, mas foram retomadas por Flávio.
Racha envolve até briga entre irmãos
Com briga entre irmãos, denúncias de corrupção envolvendo o dinheiro de emendas parlamentares e até racha no PT, a disputa no Ceará movimenta os bastidores da política e causa preocupação no Palácio do Planalto.
Para abrigar Júnior Mano na chapa, o PT terá de rifar a candidatura do líder do governo Lula na Câmara, José Guimarães (CE). Há duas vagas ao Senado, mas a segunda já está prometida ao deputado Eunício Oliveira (MDB-CE) em troca do apoio do MDB a Elmano.
“Eu não vou abrir mão da minha candidatura ao Senado de jeito nenhum”, disse Guimarães ao Estadão. O Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) do PT, coordenado por Guimarães, terá uma reunião na próxima segunda-feira, 16, para bater o martelo sobre esta e outras divergências a respeito dos palanques nos Estados.
Camilo tem afirmado que respeita Guimarães, mas avalia ser necessário dar prioridade às alianças com outros partidos para alavancar a candidatura de Elmano.
Em mais de uma ocasião, o ministro da Educação disse que o seu candidato ao Senado era Cid Gomes. O senador avisou, porém, que não vai disputar novo mandato e indicou para a chapa seu afilhado político Júnior Mano.
As suspeitas de organização criminosa que pesam contra o deputado, porém, estão provocando protestos no PT. Cid Gomes, por sua vez, fez questão de destacar que o seu compromisso no Ceará é com a candidatura à reeleição de Elmano, e não com Camilo.
Mano foi expulso do PL de Bolsonaro no ano passado por apoiar o petista Evandro Leitão para a Prefeitura de Fortaleza. Investigações da Polícia Federal indicam que o deputado controla um grupo de mais de 50 prefeitos, financiando suas campanhas com recursos desviados de emendas parlamentares.
A assessoria jurídica de Júnior Mano disse, em nota, que ele “não é ordenador de despesas, não participou de licitações e, portanto, não tem como controlar a aplicação final de recursos federais”.
No contra-ataque contra o PT, aliados de Mano lembram que, em 2005, um assessor de Guimarães – à época deputado estadual – foi preso com US$ 100 mil na cueca e R$ 200 mil em uma maleta. O Ministério Público Federal considerou que o caso, conhecido como “dólar na cueca”, era de propina. Em 2012, no entanto, Guimarães foi excluído do processo por improbidade administrativa por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
