27 de março de 2026
Politica

Digitalizar o Estado não basta, é preciso torná-lo inteligente

O Brasil entrou definitivamente em uma era em que governar bem já não depende apenas de vontade política, boas intenções ou expansão de estruturas, mas depende, sobretudo, da capacidade de tomar decisões mais inteligentes em ambientes cada vez mais complexos e polarizados. A aceleração da inteligência Artificial, a pressão por maior eficiência no gasto público, a emergência climática, a digitalização da economia e a crescente exigência da sociedade por serviços mais simples, rápidos e eficazes impõem ao Estado um novo tipo de responsabilidade: não basta modernizar a aparência da máquina pública, com novos aplicativos ou serviços digitais, é preciso reconstruir sua capacidade de responder ao presente e de preparar o futuro.

Por muito tempo, a inovação no setor público foi tratada como pauta periférica, quase ornamental, algo desejável, mas não essencial. Essa visão se tornou insustentável ao passar dos anos, e a inovação pública deixou de ser um atributo complementar para se tornar infraestrutura de desenvolvimento e de sobrevivência. Países, Estados e cidades que não ampliarem sua capacidade institucional para operar com dados, tecnologia, integração e inteligência decisória tenderão a perder competitividade, desperdiçar recursos e ampliar a distância entre governo e sociedade.

O debate, no entanto, precisa amadurecer. Tecnologia, por si só, não transforma governos, o que transforma governos são decisões sobre prioridades, governança, interoperabilidade, desenho institucional, infraestrutura digital, uso estratégico de dados e capacidade de articulação entre diferentes atores. Sem isso, o risco é conhecido, digitalizar ineficiências, automatizar gargalos e produzir soluções sofisticadas para problemas que continuam estruturalmente mal resolvidos.

Téo Foresti Girardi é doutora em Design e Tecnologias, fundadora e CEO do GovTech Lab e diretora executiva do GovTech Summit
Téo Foresti Girardi é doutora em Design e Tecnologias, fundadora e CEO do GovTech Lab e diretora executiva do GovTech Summit

É justamente por isso que o desafio contemporâneo não é apenas tornar o Estado digital. É torná-lo inteligente. E há uma diferença decisiva entre as duas coisas, pois um governo digital pode oferecer serviços online, aplicativos e sistemas mais modernos, mas somente um governo inteligente consegue integrar informações, antecipar riscos, orientar políticas por evidências, melhorar a experiência do cidadão, coordenar atores diversos e transformar tecnologia em valor público. Em outras palavras, não se trata de informatizar processos antigos, mas de reconfigurar a lógica de funcionamento do Estado.

Nesse contexto, ganha força a ideia de governo como plataforma, com protagonismo, não um Estado mínimo, retraído ou ausente, mas um Estado capaz de organizar capacidades, conectar soluções, induzir desenvolvimento e ampliar sua inteligência operacional, um governo que não trabalha isolado, mas em conexão com startups, empresas de tecnologia, universidades, centros de pesquisa, investidores e ecossistemas de inovação.

O problema é que essa articulação ainda é fragmentada no Brasil, existem inúmeras iniciativas de excelência, bons projetos, experiências promissoras e lideranças públicas comprometidas com a transformação, mas ainda falta, em escala nacional, um ambiente capaz de reunir esses atores de forma qualificada, contínua e orientada por agenda. Falta um espaço em que a inovação governamental deixe de ser apenas tema técnico ou discurso aspiracional e passe a ser tratada como estratégia de país.

É nesse ponto que iniciativas como o palco e-gov do São Paulo Innovation Week (SPIW) ganham relevância que vai muito além de um evento. Sua importância está em se consolidar como espaço de conexão e articulação da agenda nacional de inovação governamental. Em vez de apenas reproduzir o entusiasmo em torno da tecnologia, o que esse tipo de espaço pode oferecer é algo mais valioso, a possibilidade de transformar dispersão em direção, debate em coordenação e tendência em capacidade concreta de governo.

O mérito de palco assim está justamente em reunir quem, na prática, pode construir o futuro do Estado: lideranças governamentais, startups, empresas de tecnologia, academia, centros de pesquisa, investidores e agentes do ecossistema. Não para celebrar a inovação como palavra de ordem, mas para discutir como ela se traduz em arquitetura institucional, em compras públicas mais inteligentes, em melhor desenho regulatório, em serviços mais efetivos e em decisões públicas mais robustas.

O futuro do Estado brasileiro não será definido apenas pela velocidade com que adotar novas ferramentas, será definido pela maturidade com que souber utilizá-las. O verdadeiro diferencial competitivo dos governos, daqui em diante, estará menos na aquisição de tecnologia e mais na construção de capacidade institucional para empregá-la com propósito, coordenação e responsabilidade.

O futuro do governo, portanto, não será apenas digital. Será inteligente! E essa inteligência não nasce espontaneamente, ela é produto de escolhas, prioridades e pactos. O Brasil precisa, com urgência, de mais espaços que ajudem a formular essas escolhas com seriedade, porque o futuro do governo não começa amanhã, ele começa agora, nas decisões que somos capazes de tomar hoje.

O São Paulo Innovation Week, uma parceria entre o Estadão e a Base eventos, será realizado entre os dias 13 e 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes devem acessar este link.

 

 

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