Está liberado criticar ‘O agente secreto’ sem ser crime de lesa-pátria?
Como tudo o que ocorre no Brasil e em boa parte do mundo nos últimos anos, politizaram o filme O agente secreto. Torcer para o sucesso ou fracasso da obra pernambucana na mais poderosa premiação do cinema mundial, o Oscar, tornou-se uma questão de ideologia. Se você for de esquerda e pró-governo Lula, abrace o filme. Se não, critique-o.
Ajudou nesse tipo de torcida ou contestação rasas o fato de o diretor Kleber Mendonça ser um petista de carteirinha. Filiado ao PT desde 2021 e simpatizante desde a juventude. Às vésperas da premiação, chegou a criticar a cobertura da imprensa sobre o caso do Banco Master. Como se tudo fosse ficção. O ator Wagner Moura, por sua vez, é um contumaz defensor das causas chamadas de progressistas. Nas entrevistas para promover o filme, não perdia a oportunidade de criticar o ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo ele, “o Trump brasileiro”.

O governo Lula adotou o filme desde o começo. A Coluna do Estadão anunciou que o governo, em baixa nas pesquisas, preparava uma campanha para faturar com o Oscar que não veio. O casal presidencial Lula e Janja, com certeza, iria tirar uma casquinha. A primeira-dama lamentou a derrota nas redes. A verdade é que Kleber Mendonça era assumidamente uma espécie de artista oficial consentido do regime. Uma espécie de arauto do realismo petista.
O agente secreto passa para as telas esquematismos e maniqueísmos da maneira, digamos, petista de ver o Brasil e o mundo. Por exemplo, o filme fala de uma espécie de conspiração do governo para barrar o desenvolvimento pernambucano. Como se o regime “sudestino” prejudicasse o Nordeste.
Ora, a ditadura nos anos 70 era obcecada com o desenvolvimento regional, vide a rodovia Transamazônica, a barragem de Sobradinho, a hidrelétrica de Itaipu e tantas outras obras pela “integração do Brasil”. A verdade é que Ernesto Geisel, o ditador brasileiro no período em que passa o filme, era um desenvolvimentista. Defendia o crescimento econômico por meio de obras do Estado e fechamento da economia para proteger a indústria nacional – tal qual os petistas de hoje e sempre. Geisel era um antiliberal. Em 1976, por exemplo, um decreto do presidente proibiu a importação de automóveis no País.
Logo, nesse aspecto, há uma incoerência do filme com os fatos. Ocorre, e esta é a suspeita, que a turma que sempre exige que os outros conheçam os livros de história, não os leu.
Agora, essas questões não são um demérito em si ao O agente secreto. Realidade é algo e ficção é outra. O filme pode ser bastante aplaudido por seus méritos intrínsecos, como elenco de primeira, direção de quem conhece do riscado, a reconstituição de Recife. Mas, como espelho da realidade do País, abusa das mitologias, como é bastante comum na obra de Kleber Mendonça. Pelo menos agora que, infelizmente, a obra não conseguiu levar nenhum Oscar, o filme possa ser analisado sem que ninguém leve a pecha de bajulador ou inimigo do povo.
