Mais engenheiros, por favor!
Em sete anos, o Brasil perdeu 150 mil estudantes de engenharia. São dados do Censo de Educação Superior do Inep. É uma tragédia para a nação que tem mais Faculdades de Direito do que a soma de todas as outras espalhadas pelo restante do planeta.
O Brasil precisa de mais engenheiros e de menos advogados. Principalmente dos advogados formados à luz do anacrônico e milenar padrão coimbrão. Decoreba de disciplinas compartimentadas e estanques, sem investir nas competências socioemocionais, sem desenvolver a capacidade crítica e a difícil aquisição da competência de resolver problemas e não complicá-los. A continuar esse esquema superado e nocivo, a advocacia continuará a ser encarada por boa parte da sociedade como a arte de engambelar, de encontrar caminhos procrastinatórios e de tirar dinheiro do cliente, sem solucionar o motivo de sua angústia.
A escassez de engenheiros no Brasil tem impactos diretos na oferta de mão de obra qualificada, que enfrenta déficit de 75 mil engenheiros. É o que diz a CNI, Confederação Nacional da Indústria. O Confea – Conselho Federal de Engenharia e Agronomia estima que cerca de 40 mil engenheiros se formam anualmente no Brasil, enquanto países do Brics, como a Rússia, chegam a 454 mil profissionais e a China ao marco de 420 mil.
É fantástico observar o que a China conseguiu. Hoje, de cada dez melhores universidades do planeta, sete são chinesas. Há poucos anos, essa proporção era norteamericana. Por uma política errática de reduzir o investimento na Universidade, os Estados Unidos já foram suplantados pela China, onde as portas estão abertas para pesquisadores estrangeiros, ao passo que a xenofobia se tornou política vigente na gigantesca democracia ocidental.
É por isso que a China surpreende o mundo com a mais moderna infraestrutura, com a eficiência e rapidez com que edifica obras monumentais, com a construção de mais de mil UREs – Usinas de Regeneração de Energia, a partir de um lixo que já não existe mais em todo o seu gigantesco território. A eficiência foi tamanha, que não se encontra um pedaço de papel ou uma garrafa pet, ou um isopor ou qualquer resíduo sólido em qualquer espaço chinês. Tudo foi convertido em energia elétrica.
Isso caminhou paralelamente a uma consciência ambiental da população, que passou a consumir menos, a desperdiçar menos e a descartar corretamente aquilo de que abre mão. Exemplo para um país coberto de lixo, em que apenas a maior cidade do Brasil produz mais de quinze mil toneladas de lixo a cada dia. E que destina percentual mínimo daquilo que hoje se chama “resíduo sólido”, exatamente porque tem valor de mercado. Faz parte da logística reversa e da economia circular, que em nosso País só existe no discurso e na legislação. Afinal, estamos na república em que há “leis que pegam e leis que não pegam”.
A falta de engenheiros no Brasil prejudica os setores mais importantes para fazer nossa Pátria deslanchar no cenário internacional. A construção civil precisa de engenheiros engajados com a consciência ecológica, para produzir soluções baseadas na natureza e não continuarem no vício de “soluções baseadas no concreto”.
Aprender também com a China, onde o conceito de “Cidade Esponja” não é teoria, mas prática disseminada em mais de mil espaços pelo notável e saudoso Kongjian Yu, que veio para o Brasil e aqui morreu em setembro do ano passado, para nossa desolação. Pois esperávamos que ele influenciasse a poderosa indústria da construção civil, para tornar São Paulo menos impermeável, mais verde, mais resiliente e mais humana.
A avassaladora presença de profissionais da área jurídica não tem resultado na edificação de um país mais justo, com violência controlada, sem corrupção, aquele Brasil mais ético, pois esta ciência do comportamento moral do homem em sociedade é o que mais falta neste País cujo custo está cada vez mais encarecedor para quem produz. Mas que não passa pela preocupação da imensa maioria dos que têm obrigação de reduzir as desigualdades, extinguir a miséria e tornar esta Pátria cada vez mais justa, fraterna e solidária.
Investir no ensino de matemática, física e química, biologia e botânica, além de contemplar a necessidade de formação de um caráter comprometido com o bem comum. Lição de casa: mais engenheiros, menos advogados. É a receita para transformar o Brasil que temos no Brasil que queremos.
