27 de março de 2026
Politica

Fraude no INSS: Empresário preso movimentou R$ 106 milhões em empresa de fachada, dizem Coaf e PF

O empresário Natjo de Lima, preso nessa terça-feira, 17, pela Polícia Federal (PF) acusado de liderar uma organização criminosa suspeita de pagar propina à deputada Gorete Pereira (MDB-CE) em fraudes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), movimentou por meio de uma empresa R$ 106,5 milhões ao longo de três anos, de acordo com dados obtidos pela Coluna do Estadão. Segundo a PF, a companhia é de fachada. Procurada, a defesa de Natjo de Lima não foi localizada. O espaço segue aberto.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou movimentações incompatíveis com o patrimônio da empresa e tentativas de ocultar a origem do dinheiro. O órgão alertou por três vezes ter encontrado “movimentação de valores incompatíveis com o faturamento mensal das pessoas jurídicas”.

Há ainda registros de operações com tentativa de ocultação “da identificação da origem, do destino, dos responsáveis ou dos destinatários finais” da verba.

O órgão de combate à lavagem de dinheiro detalhou as transações bancárias da empresa Max Serviços e Processamento de Dados Cadastrais, cujo dono é Natjo. Ainda segundo o documento, por vezes a empresa de Natjo debitava o dinheiro assim que chegava na conta, o que chamou a atenção dos investigadores. O Banco Central considera isso um possível indício de lavagem de capitais.

Empresa de fachada movimentou R$ 20,7 milhões em 5 meses

Entre 2022 e 2025, a companhia movimentou ao todo R$ 106,5 milhões. O Coaf dividiu a análise por conta bancária em quatro períodos.

O intervalo com maior fluxo de dinheiro foi de R$ 20,7 milhões em cinco meses, entre dezembro de 2024 e maio de 2025.

De setembro de 2022 até março de 2023, a Max movimentou R$ 20,5 milhões. Outros R$ 57,2 milhões foram transferidos entre março de 2023 e dezembro de 2024. Por fim, a companhia movimentou R$ 8,1 milhões de fevereiro a julho de 2023.

Agência do INSS
Agência do INSS

PF encontrou ‘tabela de pagamento de propinas’ com menção a Natjo e a deputada

A PF encontrou uma “tabela de pagamento de propinas” de fraudes do INSS em que o nome da deputada Gorete Pereira (MDB-CE) aparece como suposta destinatária de pelo menos um repasse de R$ 780 mil. A corporação pediu a prisão de Natjo, chamado de “ADM”, e da parlamentar.

Nessa terça-feira, 17, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a detenção do empresário, mas impôs apenas tornozeleira eletrônica à deputada.

A pista que levou à deputada surgiu expressamente em uma planilha de propinas enviada por mensagem de Natjo para a advogada Cecília Rodrigues Mota. Como mostrou a Coluna, o Coaf afirmou à CPI do INSS que a advogada movimentou R$ 10 milhões, com transferências incompatíveis com seu patrimônio.

“A engenharia criminosa idealizada e colocada em prática pelos investigados Natjo “ADM”, Cecília e Gorete para viabilizar a concretização dos descontos fraudulentos contava com a participação da alta cúpula do INSS”, escreveu o ministro.

Empresário é ‘líder e administrador de organização criminosa’, diz PF

O inquérito aponta que Natjo é “líder e administrador financeiro da organização criminosa, responsável pela gestão das operações financeiras, definição de estratégias e pagamento sistemático de propinas”.

Segundo a PF, o empresário “exercia comando decisório sobre as operações ilícitas e coordenava diversos agentes com divisão de tarefas, controlava expansão das associações fraudulentas e supervisionava resultados financeiros do esquema”.

A advogada Cecília, por sua vez, agia como “uma das articuladoras centrais da organização criminosa, responsável por conferir aparência de legalidade às fraudes, coordenar operações financeiras ilícitas e intermediar relações com agentes públicos”, conforme a investigação.

A PF citou mensagens do empresário à advogada. Em uma delas, Natjo pediu que ela abrisse contas de seu escritório de advocacia em quatro Estados para ocultar os pagamentos ilegais.

Mensagens mostram deputada insatisfeita com propinas

“Em uma mensagem de WhatsApp trocada com Natjo, a advogada concorda com a afirmação dele de que não seria possível aceitar o fato de a deputada federal Maria Gorete querer ficar com 70% da entidade”, afirmou a Polícia Federal.

Segundo a investigação, a deputada estava insatisfeita sobre o pagamento de propinas. Ela mencionou, em mensagem Natjo, que não era necessário que os valores de propinas a ela atribuídos passassem por Cecília: queria pagamentos de “forma direta”.

Natjo, então, tentou explicar o motivo de Cecília intermediar os recursos obtidos ilegalmente: “Deputada, é porque a Cecília é escritório de advocacia. Escritório de advocacia, eu acho mais legítimo, tem mais…. Não é, no palavreado, mas tem moral para mandar o dinheiro, entendeu? Do que mandar da associação para a senhora. Não é melhor? O escritório de advocacia está passando para a senhora, então eu estou preservando as coisas. Acho melhor ficar do jeito que está”, ao que a deputada respondeu: “Então, meu filho, você é que sabe”.

 

 

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