27 de março de 2026
Politica

Justiça abre ação contra coronel da PM pelo assassinato da mulher com tiro na cabeça

O V Tribunal do Júri da Capital recebeu a denúncia do Ministério Público contra o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, acusado de matar a própria mulher, a soldado PM Gisele Alves Santana, de 32. O crime foi cometido em 18 de fevereiro, no Brás. O oficial foi preso em São José dos Campos, no Vale do Paraíba.

O Estadão busca contato com a defesa do coronel.

O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto foi preso em um imóvel em São José dos Campos (SP)
O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto foi preso em um imóvel em São José dos Campos (SP)

A acusação formal engloba os crimes de feminicídio qualificado, por ter sido praticado no contexto de violência doméstica e familiar, com circunstâncias agravantes como motivo torpe e causas de aumento de pena – recurso que dificultou a defesa da vítima.

A denúncia de 14 páginas é subscrita pelas promotoras Ingrid Maria Bertolino Braido e Daniela Romanelli da Silva. A acusação engloba o crime de fraude processual, ‘pela alteração da cena do crime para induzir a investigação a erro’.

As promotoras pedem a fixação na sentença de valor mínimo indenizatório de R$ 100 mil para reparação dos danos causados, em favor dos familiares de Gisele.

Segundo o Ministério Público, Gisele e o tenente-coronel viviam juntos desde 2023 e se casaram em 2024. Ela já tinha uma filha de outro relacionamento. Quando decidiram viver juntos, ficou acordado que a filha da soldado iria residir com o casal.

“O início do relacionamento foi pacífico e harmônico”, descreve a denúncia. “No entanto, após pouco tempo de convivência, os conflitos se iniciaram e tudo mudou drasticamente. Geraldo passou a se mostrar possessivo, controlador, autoritário e ciumento.”

Ainda de acordo com a Promotoria, ‘a relação passou a ser marcada por violência psicológica, física, perseguições, humilhações financeiras, por exigência de sexo em troca do pagamento das contas da casa, por afastamento da vítima de sua família de origem e de seus parentes, colegas e amigos homens, por isolamento social da vítima e toda uma série de abusos físicos, psicológicos e morais’.

A denúncia contra o militar diz que Gisele ‘não suportando mais os abusos e a violência cotidiana, decidiu pelo divórcio, o que lhe foi negado por Geraldo’.

Na sexta-feira 13, a soldado ligou para os pais, ‘chorando muito e pedindo socorro, solicitando que fossem buscá-la’.

“Os pais foram até a frente do condomínio, Gisele desceu, disse que não aguentava mais essa situação e que estava decidida a se divorciar. No entanto, ela não seguiu com eles e disse que iria para a casa deles no dia seguinte, pois já levaria todos os seus pertences.”

No dia seguinte, seguem as promotoras na denúncia, Gisele avisou a mãe que ainda conversaria com Geraldo antes de se mudar definitivamente. A filha da vítima passou o final de semana com o próprio pai e os avós maternos.

Decidida pelo divórcio e sozinha em casa com o tenente-coronel, no dia dos fatos, 18 de fevereiro, ambos iniciaram uma discussão bem cedo pela manhã. Geraldo passou a ‘agir violentamente contra a vítima’. “Em dado momento da briga, na sala do apartamento onde moravam, Geraldo, já de posse de sua arma de fogo de uso restrito, segura a cabeça da vítima fortemente pela mandíbula e por trás e desfere um tiro do lado direito da cabeça de Gisele, tiro este que foi a causa de sua morte.”

Diz a denúncia. “Em seguida, ainda segurando a vítima pela cabeça, Geraldo a deita no chão da sala e passa a manipular a cena do crime, a fim de fazer parecer que a vítima havia se suicidado. Nesse contexto, Geraldo apoia o corpo da vítima com a face esquerda do corpo em plano superior à face direita, coloca sua arma de fogo nas mãos de Gisele, esconde o estojo da cápsula deflagrada e lava suas mãos no box do banheiro.”

Somente meia hora após o disparo, Geraldo acionou a polícia, Samu, seu superior hierárquico e amigos pessoais. Por volta de 7h54 do dia dos fatos, ele abriu a porta do apartamento, começou a realizar ligações solicitando ajuda e saiu no corredor.

Câmeras de segurança mostraram o militar com o cabelo seco. Em seguida ele entrou no apartamento e molhou seu cabelo, ‘tudo para fazer parecer que estava tomando banho quando os fatos se deram’. Às 8h02, câmeras de segurança do prédio flagraram Geraldo com o cabelo molhado. “Tudo isso indica a adulteração do local do crime e criação de uma história pelo denunciado não condizente com a realidade”, afirmam as promotoras.

Logo que policiais militares chegaram, ‘e após prestados os devidos socorros à vítima, desrespeitando as orientações dadas por quem comandava a ocorrência, Geraldo tomou outro banho, a fim de eliminar vestígios do crime em seu corpo’.

“O crime doloso contra a vida foi cometido por motivo torpe, eis que o réu agiu impulsionado pelo sentimento desmedido de posse e de ciúmes que nutria em relação à vítima”, acusa a Promotoria. “É certo, ainda, que o crime foi cometido por meio de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, uma vez que ela foi surpreendida pelas agressões praticadas pelo denunciado, de porte físico superior, agressões essas que a subjugaram, para posteriormente ela ser atingida com o disparo de arma de fogo.”

 

 

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