26 de março de 2026
Politica

Delegada que denunciou assédio de secretário de Segurança do MA é investigada: ‘Me sinto perseguida’

A delegada Viviane Fontenelle, que acusou de assédio o ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão, Maurício Martins, passou de vítima a investigada. Ela foi notificada nesta quinta-feira, 19, sobre Processo Administrativo Disciplinar (PAD) aberto pela Corregedoria do Sistema Estadual de Segurança do Estado no dia 9 de março.

A data é a mesma em que veio a público o desabafo de Viviane sobre comentários inadequados do então secretário de Segurança, que a chamou de “delegata” e pediu uma foto dela para expor em seu gabinete. Ele nega as acusações. Procurada, a Secretaria de Segurança Pública não respondeu.

O processo disciplinar contra Viviane se refere a uma postagem que ela fez nas redes sociais, após o carnaval, contestando dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado. O órgão dizia não ter havido nenhum crime grave no Maranhão durante o feriado (“nenhum homicídio”, “nenhum feminicídio”, “nenhum latrocínio” e “nenhuma lesão corporal seguida de morte”), o que ela apontou se tratar de dado falso.

À Coluna do Estadão, Viviane disse se sentir “perseguida” e classificou a denúncia como “sem pé nem cabeça”. Um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) pode acarretar, em última instância, na demissão do servidor público.

“Me sinto perseguida. Eu já imaginava que teria retaliação, porque toda mulher que rompe o silêncio sofre retaliação, é a maneira que eles têm de queimar a gente”.

Delegada diz viver situação ‘dolorosa’

A delegada afirmou que sentiu “raiva e nojo” do assédio, mas que o pior momento é a exposição e perseguição que vive agora.

“O assédio em si me deu raiva e nojo, mas são sentimentos muito mais fáceis de lidar do que o que estou passando agora, essa exposição, essa perseguição. A pós-denúncia está sendo bem dolorosa”, lamentou.

‘Cala-boca’ para outras mulheres

Viviane disse à Coluna estar sendo a voz de muitas mulheres que ainda tomam coragem para denunciar casos de assédio, mas lamenta que retaliações possam ser um “cala-boca” para essas pessoas.

“Foi um recado não só para me perseguir, mas para fazer um cala-boca para quem mais quiser denunciar. Se uma delegada está sofrendo essa perseguição, imagina elas?“.

O Processo Administrativo Disciplinar (PAD) pode levar à demissão e impede que o servidor público se aposente enquanto é investigado. Viviane disse que é sabido na Polícia Civil que ela está prestes a obter o tempo mínimo para aposentadoria, e que deseja se aposentar assim que possível.

“Apesar de tudo, estou com a minha consciência bem tranquila, esse PAD não tem pé nem cabeça. Se existir justiça no mundo, ele vai ser trancado e vou seguir minha vida”.

Entenda o caso

Segundo a delegada da Polícia Civil, o então secretário de Segurança do Maranhão, Maurício Martins, se referiu a ela como “delegata” e pediu uma foto dela para colocar em seu gabinete. As situações ocorreram em duas reuniões no início de fevereiro, na qual estavam presentes outros delegados, todos homens.

Viviane afirmou que, após a primeira reunião, ao demonstrar incômodo com a situação vivida, foi aconselhada pelos colegas a não registrar B.O., por estar “de cabeça quente”. Os delegados teriam dito que um registro formal “poderia ser vazado e causar uma situação delicada”.

No dia seguinte, esteve novamente em reunião com o secretário de Segurança. Desta vez, ele teve que sair mais cedo do encontro, mas, antes de se retirar da sala, foi até Viviane e repetiu o pedido de foto.

“Ele levantou da mesa, foi até mim, me abraçou, apertou o meu ombro, foi no meu ouvido e disse: ‘não esqueça a foto, quero a sua foto no meu gabinete’”.

Ela contou que deixou passar as situações de assédio, mas, no Dia Internacional da Mulher, comemorado no último domingo, dia 8 de março, sentiu o incômodo “potencializado” e fez um desabafo em um grupo de policiais, que acabou vazando.

“Quero ser respeitada como mulher, quero que a minha história construída na Polícia Civil seja respeitada”.

A delegada da Polícia Civil do Maranhão, Viviane Fontenelle, mostra notificação sobre investigação em curso contra ela
A delegada da Polícia Civil do Maranhão, Viviane Fontenelle, mostra notificação sobre investigação em curso contra ela

 

 

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