25 de março de 2026
Politica

Os taxistas de Cármen Lúcia tinham razão: desconfiança no STF rompe a polarização pela primeira vez

Era 13 de maio de 2015 quando a ministra Cármen Lúcia pegou um táxi do aeroporto ao centro do Rio de Janeiro, onde participaria de um seminário. Ao entrar no carro, o motorista questionou se já haviam dito a ela que se parecia com a ministra do Supremo. Cármen Lúcia fingiu que não era a própria e no caminho o condutor foi “falando mal, até”. A conclusão da ministra foi então que, ao contrário de 1975, quando ela entrou na faculdade de direito, as pessoas naquele momento já começavam a prestar mais atenção no Judiciário. “O taxista que me trouxe não sabe exatamente o que é, mas sabe que tem lá a tal da Cármen. O Judiciário se tornou um conhecido de todo mundo e alguém necessário para todo mundo”, resumiu.

Onze anos depois, Cármen Lúcia voltou a falar sobre os taxistas, dessa vez em um quadro profundamente mais dramático para o Supremo Tribunal Federal (STF). Foi em uma reunião “fechada”, mas “vazada” em que ministros tentaram achar uma solução para que Dias Toffoli deixasse a relatoria do caso Master. Cármen Lúcia, como mostraram as transcrições das conversas reveladas pelo site Poder360, era a mais preocupada:

“Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”, desabafou, para pedir uma solução.

Cármen Lúcia entendeu bem o recado àquela altura. E os taxistas que a conduziram em 2026 tinham razão. A pesquisa AtlasIntel divulgada nesta sexta-feira, 20, mostra que a ministra não foi vítima apenas do azar de pegar um condutor desta ou daquela posição ideológica. Pela primeira vez desde que a medição começou a ser feita pelo Atlas, a insatisfação com a Corte rompeu parcialmente a barreira da polarização política.

Alexandre de Moraes e Dias Toffoli conversam observados por André Mendonça em sessão no STF
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli conversam observados por André Mendonça em sessão no STF

Seria natural que bolsonaristas estivessem irritados com o STF desde o julgamento e condenação do ex-presidente (eles ainda são majoritariamente os maiores críticos da Corte), como também estiveram os petistas lá pelos idos de 2012, no auge do julgamento do mensalão. O ânimo mudou daqui e dali quando a Corte autorizou a prisão do Lula e quando anulou o caso e liberou o petista. Não se trata mais apenas disso. Entre os eleitores de Lula, que aplaudiram bastante a Corte com a condenação de Bolsonaro, por exemplo, um a cada quatro já desconfia do STF.

Há pouco mais de um ano, em fevereiro de 2025, eram 49% os brasileiros os que confiavam na Corte e 47% os que desconfiam dela. Um empate técnico. Agora, após a avalanche de revelações do caso Master, a desconfiança saltou para 60% e a confiança caiu para 34%.

A crise é generalizada. Há maioria reprovando o STF em todas as frentes, com destaque para os 63% que consideram ruim (7%) ou péssimo (54%) a atuação da Corte no combate à corrupção.

O caso Master é um exemplo evidente disso. Um escândalo que a pesquisa mostrou ser altamente conhecido, e que levou o ministro Dias Toffoli, o antigo relator do caso e que negociou um resort com a turma de Daniel Vorcaro a uma avaliação positiva de apenas 9%, contra 81% de conceito negativo. Em agosto do ano passado, os índices eram de 30% e 50%, respectivamente.

Outro ministro envolvido no caso após a revelação de mensagens com Daniel Vorcaro, Alexandre de Mores tem situação menos dramática, em razão de ainda nutrir o apoio dos rivais figadais de Jair Bolsonaro. Ainda assim, crítica. Também no seu caso houve mudança abrupta que descolou sua aprovação da polarização existente no Brasil. Em agosto, havia empate técnico na avalição positiva (49%) e negativa (51%). Agora são 59% os que reprovam Moraes e só 37% os que o aplaudem.

Em meio ao mergulho do STF no fundo do poço da confiança do brasileiro, o levantamento também traz alguns indicativos do que poderia ser feito para mudar o quadro. A população aprova profundamente algumas das decisões recentes da Corte que tentam colocar alguma ordem em descalabros no próprio Judiciário, como o fim dos penduricalhos, prega que há excesso de sigilo no caso Master e que Toffoli precisa sofrer impeachment imediatamente ou se for provado taxativamente seu envolvimento. E, mais que isso, considera importante que a Corte elabore logo um Código de Conduta para seus ministros. Só assim Cármen Lúcia e, principalmente, alguns de seus colegas poderão pegar um táxi sem ouvir o que hoje se diz em qualquer lugar.

 

 

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