26 de março de 2026
Politica

Campanha de Haddad mira Sabesp, pedágios e relação com prefeitos para tentar desgastar Tarcísio

Após confirmar a pré-candidatura ao governo de São Paulo, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) já começa a desenhar a estratégia para enfrentar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Segundo aliados, a ofensiva inicial deve mirar a relação do governador com os prefeitos do Estado, a privatização da Sabesp e a instalação dos pedágios free flow. A campanha também deve disputar os créditos por grandes obras estaduais que têm participação do governo federal.

Procurado, Haddad não respondeu. Na sexta-feira, em conversa com jornalistas, ele evitou tratar da estratégia de sua campanha e afirmou que sua prioridade será, além de conversar com lideranças políticas do Estado, reunir um grupo de especialistas para elaborar um plano de governo.

A relação de Tarcísio com os prefeitos entrou na mira do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante evento na capital paulista na quinta-feira, 19. Em um ataque direto a Tarcísio, o presidente afirmou que gestores municipais do Estado são “mal recebidos” pelo governador.

No mesmo evento, que antecedeu o anúncio da pré-candidatura de Haddad, Lula afirmou que parte das grandes obras que Tarcísio anuncia “como se fosse dele”— como o Trem Intercidades e o túnel Santos–Guarujá — é financiada pelo BNDES em nome do governo federal.

O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

O presidente também cobrou que o governador dê crédito por moradias entregues pelo programa estadual Casa Paulista e o acusou de ter “plagiado” o nome do programa.

“O governador tem inaugurado muitas dessas casas paulistas e ele poderia pelo menos ter a singeleza de dizer: ‘essas casas são feitas pelo governo federal, do Minha Casa, Minha Vida, e eu pedi licença para chamar de Casa Paulista’, que é um programa criado pelo Alckmin ainda quando era governador do Estado. Nem nome ele criou, só plagiou”, atacou Lula, durante abertura da 17ª Caravana Federativa em São Paulo.

Procurado para comentar as críticas de Lula, o governador de São Paulo não se manifestou. O espaço segue aberto.

Nos bastidores, aliados de Tarcísio afirmam que parte das obras citadas pelo presidente são projetos que não avançaram durante as gestões de Geraldo Alckmin no Estado. Por isso, dizem que, se Lula insistir nesse tema, pode acabar dando um tiro no próprio pé. Já sobre a participação federal nas obras, correligionários do governador dizem que, na maioria dos casos, os investimentos não são repasses diretos do governo federal, mas financiamentos do BNDES — ou seja, empréstimos que terão de ser pagos pelo Estado.

A relação do governo paulista com os municípios, por sua vez, é vista como um ponto sensível até por integrantes da própria gestão Tarcísio. Nos últimos anos, o governo ouviu reclamações de prefeitos sobre a priorização de grandes obras de infraestrutura em detrimento da atenção aos municípios. O próprio Tarcísio já afirmou, em vídeo nas redes sociais, que não faz “política paroquial” e que seu foco está em obras estruturantes.

Nos últimos meses, porém, o governo investiu na aproximação com os prefeitos e viu a tensão com os municípios diminuir substancialmente. Um dos principais gestos nessa direção foi a nomeação de Roberto Carneiro para a Casa Civil, em substituição a Arthur Lima. Presidente do Republicanos em São Paulo, Carneiro é considerado um articulador habilidoso e, desde que assumiu o cargo, intensificou a agenda com prefeitos no Palácio dos Bandeirantes.

O deputado federal e vice-presidente do PT, Jilmar Tatto, que afirma ter sido convidado para assumir a coordenação de comunicação da campanha de Haddad, já prepara uma proposta para o plano de governo do petista. “Vou sugerir a criação de uma secretaria extraordinária para o atendimento dos prefeitos”, disse ele ao Estadão.

PT deve discutir freio a novos pedágios

Enquanto a relação com os prefeitos é um flanco político que o PT tenta explorar na gestão Tarcísio, a Sabesp e os pedágios free flow aparecem como pontos de desgaste identificados em pesquisas qualitativas com eleitores do Estado.

“A questão dos prefeitos é uma reclamação do meio político; o eleitor não sabe disso. Já a privatização da Sabesp é a principal queixa que surge nas pesquisas, com percepção de piora no serviço, sobretudo na Grande São Paulo e na capital”, afirmou Renato Dorgan, cientista político e CEO do Instituto Travessia.

No caso dos pedágios free flow, Dorgan argumenta que a implantação desses novos mecanismos de cobrança nas estradas é uma reclamação presente mais entre eleitores com viés ideológico à esquerda.

Como mostrou o Estadão, relatórios internos de monitoramento de redes sociais do próprio governo de São Paulo apontam a privatização da Sabesp como um dos focos de desgaste da gestão. O novo modelo de pedágios, por sua vez, foi alvo de críticas de alguns deputados da base de apoio de Tarcísio.

Em relação à Sabesp, aliados de Tarcísio sustentam que privatizações são pautas já precificadas e que uma parcela da população será contrária independentemente do resultado. Na visão de pessoas próximas ao governador, porém, a gestão terá dados positivos da privatização para apresentar, como o volume de investimentos, e argumentam que os efeitos das mudanças levam tempo para serem percebidos pela população

Já sobre os pedágios free flow, a gestão estadual aponta que eles vão atrair investimentos, melhorar a fluidez do trânsito e tornar a cobrança mais justa. Integrantes do governo ouvidos reservadamente afirmam que o ruído em torno do novo modelo é esperado, por envolver um período de adaptação, e atribuem parte das críticas à “desinformação” da oposição. Aliados de Tarcísio dizem ainda que, assim como a Sabesp, o free flow deve ser uma das bandeiras que o governador pretende defender na campanha.

Já o PT sustenta que o modelo pesa no bolso da população, sobretudo de quem vive nas cidades onde os pontos de cobrança foram instalados. Tatto afirma que a campanha deve se comprometer a não implantar novos pedágios no Estado. Em relação aos já existentes, a ideia é analisá-los caso a caso.

Respeito aos contratos

A privatização da Sabesp é um tema mais complexo. Enquanto uma ala do PT defende discutir a reestatização, Haddad já sinalizou que não deve seguir por esse caminho. Na última sexta-feira, 20, o ex-ministro da Fazenda afirmou que os governos petistas “respeitam contratos” ao ser questionado sobre a possibilidade de rever a privatização da companhia e outras iniciativas da gestão de Tarcísio, como as concessões de linhas de metrô, caso seja eleito governador em outubro.

Apesar de uma ala do PT defender a reestatização da Sabesp, Haddad disse que respeitar contratos é melhor para a economia brasileira
Apesar de uma ala do PT defender a reestatização da Sabesp, Haddad disse que respeitar contratos é melhor para a economia brasileira

“Os governos do PT respeitam contratos. Nos quatro governos do PT que começaram e terminaram o mandato, sempre respeitamos contrato porque entendemos que o desrespeito ao contrato acaba trazendo muito mais prejuízo do que ganhos para uma economia séria e respeitada como a do Brasil”, disse o ex-ministro.

Haddad fez questão de frisar, entretanto, que se fosse governador de São Paulo, não teria privatizado a companhia paulista.

 

 

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